<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759</id><updated>2012-02-08T16:43:07.638-02:00</updated><title type='text'>Roda Elegante</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>123</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-968359353698665859</id><published>2012-02-04T02:04:00.002-02:00</published><updated>2012-02-08T16:43:07.647-02:00</updated><title type='text'>Este não é um livro de sabedoria II</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estava o mestre com seus quatro discípulos ao redor da mesa para a última refeição. O mobiliário era modesto, e da pequena sala ocupavam apenas um ínfimo canto, espremidos todos numa única sombra. Tomando de uma cesta de pão, falou-lhes o mestre:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Comei, que todo alimento é sagrado e substancial ao corpo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Até os cogumelos venenosos? - disse um dos discípulos, no que os demais abaixaram a cabeça e engasgaram com o vinho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mestre olhou-os como se não compreendesse o motivo do embaraçamento e, dando a cada qual um pão duro e pesado, respondeu-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Até os cogumelos venenosos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Até a carne dos animais necrófagos? Até mesmo os frutos em estado de decomposição avançada? Até mesmo os vermes? - continuou o discípulo, no que os demais lançaram-lhe um olhar de reproche.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim - disse o mestre fitando seu copo, indiferente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E nada mais disse. Discípulos e mestre terminaram de mastigar sua modesta refeição em silêncio e apenas podiam-se ouvir os sorvos apressados e os ruídos aflitos de seus dentes rasgando as crostas de pão. Ao terminar, levantaram-se e, após despedirem-se do mestre, dirigiram-se ao quarto de dormir, caminhando austeros e ruflando os panos grossos de suas vestes contra as suas pernas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Boa noite - disse Auden, cobrindo-se com o ralo cobertor e tombando seu delgado corpo para a parede.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Boa noite - disse Tauden, socando seu travesseiro e estendendo-se feito estátua sobre o duro colchão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Boa noite - disse Mauden, soprando a vela e fazendo ranger a cama com o seu peso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Boa noite, irmãos - disse Faulen que, surpreendido com a escuridão, por um momento quase se esqueceu da direção da parede, mas acabou encontrando-a e virou-lhe as costas como era de seu costume.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No dia seguinte, um dos discípulos havia amanhecido morto por asfixia. O mestre, perguntando então por Faulen, ao notar sua ausência à mesa para a primeira refeição, recebeu em resposta um encolher de ombros dos demais:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não quis acordar - disse Mauden, servindo-se de manteiga.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-968359353698665859?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/968359353698665859/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=968359353698665859&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/968359353698665859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/968359353698665859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/02/este-nao-e-um-livro-de-sabedoria-ii.html' title='Este não é um livro de sabedoria II'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1591220004332496845</id><published>2012-02-03T22:48:00.003-02:00</published><updated>2012-02-04T02:12:26.934-02:00</updated><title type='text'>Este não é um livro de sabedoria</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Certo dia, atraído pela fama de seu sábio, veio um estranho à aldeia de Wang-Bei, às margens do Wi-Po, a procura de um conselho. Havendo encontrado a sua casa, estava o sábio de cócoras a riscar o chão com um pauzinho enquanto assoviava baixinho em seu idioma de velho. O estranho aproximou-se e, após haver-lhe feito a reverência, perguntou:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mestre, sou rico, tenho uma boa esposa, bons filhos, mas não sou feliz. O que devo fazer?&lt;br /&gt;O velho, ainda de cócoras, ergueu-lhe os olhos e disse:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Deves encontrar o caminho do Norte; quando encontrá-lo, por ele seguir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas, mestre, que caminho é esse de que me falais?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O sábio, havendo se posto de pé, caminhou pacientemente para o meio da estradinha e, convidando o estranho para que se aproximasse, apontou-lhe o caminho do Norte, o qual seguia sinuosamente para além das últimas casas da aldeia até confundir-se aos montes Quong, limites da província.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vês o norte? - indagou-lhe o sábio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim, mestre, porém ainda não entendo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Entenderás, pois.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O velho, então, fincou bruscamente suas mãos no chão e, soltando um urro, fez desprender um enorme bloco de terra. O estranho recuou vários passos, absolutamente atônito, mas antes que pudesse compreender qualquer coisa, o velho golpeou-lhe repetidas vezes até que um fio de sangue começasse a escorrer desde o topo de seu crânio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Isto é o caminho do Norte - disse o sábio, abandonando o bloco a um canto e espanando as mãos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O estranho, havendo limpado o fio de sangue com a manga, fez-lhe a reverência, voltou-lhe as costas e seguiu para as províncias do Sul, onde não era a sua casa, nem havia sábios de que soubesse.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1591220004332496845?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1591220004332496845/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1591220004332496845&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1591220004332496845'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1591220004332496845'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/02/este-nao-e-um-livro-de-sabedoria.html' title='Este não é um livro de sabedoria'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7234482978230482773</id><published>2012-01-30T02:41:00.004-02:00</published><updated>2012-02-02T04:07:35.966-02:00</updated><title type='text'>O Espirro Final</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estou enfrentando um bloqueio há alguns dias. Cheguei a pensar que talvez até me tornasse indisposto a qualquer leitura, o que, para o meu alívio, não se revelou verdade. O bloqueio é quanto à forma: por mais que eu me esforce, por mais vívidas que sejam as imagens, eu não consigo transpô-las num formato pelo qual eu me dê satisfeito. É como se pássaros de asas bem formadas e fortes debatessem-se contra as grades de uma gaiola: não consigo mais balbuciar, cantarolar. Tentei fazer longas caminhadas na esperança de que arejassem a minha mente, remoendo enquanto andasse minhas idéias, mas eu voltava sempre com a mesma dificuldade. E a tal ponto cheguei que, penso, talvez seja hora de mudar meu foco. De qualquer modo, a produção era tão ínfima e tão demorada que é bem possível que eu estivesse torturando-me há anos a escrever algo que não é do meu feitio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mudar o meu foco: muito bem, mas qual? Alguém sabe afinal a que veio a este mundo? Então eu pensei: talvez a sociedade possa revelar-me minha situação, ajudar-me a compreender minhas possibilidades e os caminhos que eu devo tomar. Ah, sim? Isso talvez seria verdade se as nossas inclinações fossem por ela determinadas, mas acho que todos nós conhecemos casos suficientes mostrando que, se bem é verdade que ela pode condicionar, atormentar, obstruir ou mesmo facilitar, nós temos predisposições inatas que o meio é incapaz de mudá-las sem antes destruí-las. Porém, tais inclinações inatas manifestam-se de um modo muito vago: são habilidades sem cor, sem ritmo. Alguém nasce com facilidades para, o que não significa que realmente chegue a realizá-las, muito menos se sabe como ou sob que forma.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E digamos, então, que eu tenha predisposição para. Mas esse para é indefinido, eu posso realizá-lo de inúmeras formas; uma palheta vastíssima de cores está à minha disposição desde o meu nascimento. Como descobrir? Eu não sei, e isso me causa temor: e se eu perseguir determinada forma que jamais houvesse verdadeiramente se adequado à minha habilidade&amp;nbsp;durante toda uma vida? É um desperdício de tempo, de energia e frustração. Eu não sei o que estou fazendo aqui, nem sei onde eu gostaria de estar (supondo que gostar é revelação daquilo a que se está destinado). Talvez seja um bloqueio temporário, mas pode bem ser uma descoberta da qual não eu possa retroceder. Por outro lado, sem isso, o que farei? Jogar &lt;i&gt;ping pong&lt;/i&gt;, passar meus dias interessando-me por cavalos ou coleção de selos, entregar-me a frivolidades e esperar a redenção da morte?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A quem devo sacrifícios? Quero atingir teu altar, mas não posso sequer conceber uma trilha. Estou feito palha em óleo a espera daquele que virá inclinar-me a sua tocha. Meus silos estão cheios, os moinhos são novos, há carvão nas fornalhas. Mas as casas de meus servos estão inesperadamente vazias e mesmo a guarda de meu castelo parece haver abandonado seus postos. Talvez seja hora de levantar o pó da mobília, reorganizá-la, matar velhos duendes dorminhocos e inúteis escondidos nas gavetas e: pôr-me um novo casaco. Ah! e que terrível será esse casaco! A pedraria de seu bordado resplenderá como sóis roubados do mais temível templo, e seu tecido será feito com os mais inacessíveis e sombrios pântanos! Seu talhe conterá a alma e a de todos que o olharem, e às trevas do deleite e da servidão um a um sucumbirão! Contemplem, pois desde o bramido das ondas contra as escuras rochas a Lua do meu verbo assoar-se em meu lenço do alto do promontório!&lt;/div&gt;&lt;div id="-chrome-auto-translate-plugin-dialog" style="background-attachment: initial !important; background-clip: initial !important; background-color: transparent !important; background-image: initial !important; background-origin: initial !important; display: none; left: 0px; margin-bottom: 0px !important; margin-left: 0px !important; margin-right: 0px !important; margin-top: 0px !important; opacity: 1 !important; overflow-x: visible !important; overflow-y: visible !important; padding-bottom: 0px !important; padding-left: 0px !important; padding-right: 0px !important; padding-top: 0px !important; position: absolute !important; text-align: left !important; top: 0px; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div style="-webkit-border-radius: 10px !important; background-color: #363636 !important; background-image: -webkit-gradient(linear, left top, right bottom, color-stop(0%, #000), color-stop(50%, #363636), color-stop(100%, #000)); border-color: #000000 !important; border-width: 0px !important; color: #fafafa !important; font-size: 16px !important; max-width: 300px !important; opacity: 0.8 !important; overflow: visible !important; padding: 8px !important; text-align: left !important; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div class="translate"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="additional"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;img onclick="document.location.href='http://translate.google.com/';" src="http://www.google.com/uds/css/small-logo.png" style="-webkit-border-radius: 20px; background-color: rgba(200, 200, 200, 0.3) !important; cursor: pointer !important; margin: 0 !important; padding: 3px 5px 0 !important; position: absolute !important; right: 1px !important; top: -20px !important; z-index: -1 !important;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7234482978230482773?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7234482978230482773/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7234482978230482773&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7234482978230482773'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7234482978230482773'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/querido-queridissimo-diario.html' title='O Espirro Final'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6965576318631960926</id><published>2012-01-24T23:53:00.001-02:00</published><updated>2012-01-25T02:03:12.827-02:00</updated><title type='text'>Esse cavaleiro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu até defendo os gordos, os feios, os pútridos, os desvalidos, aqueles que assim não deveriam ser mas são, ou que, nesse dever ser, só o fazem parcialmente. Mas há algo aqui nesse coração que os despreza, que os poria em uma cama de hospital e disporia cuidosamente numa bandeja os instrumentos cirúrgicos. Uma parte de mim que quer mudá-los, adequá-los, alterar o estado das coisas a custa de violência. E que parte de mim seria essa? Seria a sociedade? Pois eu acho que não, já que essa justamente me diz para preservá-los, manter as peças do tabuleiro em ação, contornar as viciosas realidades em um rodopio de valsa. E obviamente que não poderia ser o eu dos sonhos, o mais visceral de todos, o inatingível e incompreensível, pois bastaria pôr em prática qualquer um de seus elementos para vê-los retorcendo-se no charco da vulgaridade sem que nada acontecesse. Não posso, talvez, saber sua origem, já que submersa, mas é possível conhecer seu emissário. Para levar a cabo qualquer transposição ao mundo, é necessário um agente, e semelhante mensagem deveria ser carregada através de um agente transformador e subjugador, um eu tirano que, diferentemente da sociedade, a qual vela pelo diálogo e pela conciliação, se impusesse incauto e intransigente, revelando seus valores na forma de imperativos. E esse eu tirano possuiria uma vontade que, construída ou não pela razão, empreenderia uma ação de conquista e de desequilíbrio, de transformação e jugo. Mas seria esse agente, esse eu tirano algo inerente ao emissário? Não seria, na verdade, essa tirania diversa do modo pelo qual aquela emerge das pessoas, no sentido de que o emissário não é esse tirano, esse subjugador e ponto de desequilíbrio, mas tão somente a mensagem que traz?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Muito bem, eis aqui o cavaleiro e sua mensagem. Mas se é assim, de que estratos retira seu conteúdo? Aqui meus poderes começam a falhar, e chutarei que isso depende muito e que, podendo ser tanto do íntimo quanto do social, tenho-o por um cavaleiro de armadura sem o homem, o emissário desvinculado de sua mensagem, a qual, por sua vez, possui inúmeras origens. A inclinação que cada um tem por mudar o seu mundo, dispor uma nova ordem de coisas em seu entorno, não é necessariamente boa nem má, muito menos é possível dizer que sua ação é voltada sempre à destruição. Esse cavaleiro pode muito bem empreender um processo inverso, de modo que, ante um outro cavaleiro, seja levado a opor-se, informando-se na restauração e no resgate da velha ordem. Se é assim, então esse cavaleiro não tem conteúdo nem direção, mas surge como simples ator. Poderia arguir-se ainda que, nesse movimento, é impossível que a ordem das coisas permaneça inalterada e que, portanto, seja qual for a sua direção, a mudança é inerente à ação. De qualquer maneira, não está na ação a origem dessa tirania. O cavaleiro de que falo é, pois, puramente o responsável pela ação, seja ela boa ou má, seja lá de onde venha e para onde pretenda ir. Ele não explica essa pretensão totalizadora, pois tão somente é seu veículo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Meu desejo de ação é maligno não porque toda mudança é má, mas porque o estrato em que se informa ou é inadequado aos fins que se pretende, ou mesmo porque tal estrato em sua essência é mau. E vindo essa voz de meu profundo coração, um esmaecido eco desde os confins da alma, eu diria então que, por consequência, minha alma é, ao menos em parte, má, ou, na melhor das hipóteses, não é ela má, mas a sua transposição para o mundo que sim. &amp;nbsp;Soa-lhe familiar? Ah, sim, é bem possível que todos nós carreguemos o mal conosco, talvez uns mais que outros, porém sempre em potencial. E o que faria para que alguém decidisse atuar de maneira má ou boa? Novamente foge aos meus poderes de compreensão. E como saber se há uma propensão se jamais ela foi provada? Sinto que apenas sei do que sou capaz quando sou efetivamente posto a prova, porém, enquanto apenas em teoria, permaneço preso a uma intransponível dúvida. Mas quem seria o responsável pela mensagem maligna que carrega o cavaleiro se não é o cavaleiro mesmo seu criador? Não é a sociedade, nem é meu íntimo. O íntimo é originário demais, desprovido de forma e de escasso conteúdo, por mais precioso que seja. Não, não é ele, e o cavaleiro se lhe arrancasse qualquer mensagem essa mesma se espalharia como pó ao vento ao ser carregada por plagas tão inóspitas à sua natureza. Ah... sua origem é obscura, mas nós a transportamos ou senão tal cavaleiro não teria de onde tirar. O que é esse desejo de mudar, de impor, de escravizar o mundo à vontade uníssona? De onde vem? Seria sempre algo ruim? Tormentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora quero muito olhar para dentro do meu cavaleiro, descobrir-lhe a face por trás do frio elmo, sentir sua pele, entender seus olhos. E eu poderia montar no mesmo cavalo que meu cavaleiro, cingir-lhe o colo com meus braços e para a mesma direção correr? Poderia eu, olhando ao mesmo norte a que sua lança aponta, conhecer-lhe o feitio? Que raridade de espelho não seria necessário para tão absurda proeza! E ao olhar o meu reflexo, sentiria o horror do sortilégio, um alvor desesperado que arruinasse todos os castelos e as montanhas em que se encimam, um rosto deslumbrante e terrível que me fundisse num beijo destruidor. Não posso, talvez, contemplar-lhe em sua inteireza, mas posso ainda ver-lhe o intermitente e trêmulo vislumbre, o qual, fugidio pelos reflexos da prataria, deleita-me e põe-me ardente em sua perseguição. Por ora o vulto de seu monstruoso cavalo, às vezes a chama de seu mais belo brasão. Nobre ou vil cavaleiro, visitará as terras primevas de meus sonhos, onde mesmo assim só é possível sentir-lhe o hálito e o inclinar de sua sombra, onde seu nome murmurado ecoa pastoso contra as claraboias, e onde seus passos metálicos sentem-se correr viscosos sob o chão de pedra. Eu perguntaria: "De onde vens? Para onde vais? Quem o enviaste e que espécie de nova trazes?". E a pergunta soaria talvez inútil, e já muito longe tornaria sua face na direção de minha janela, esboçando-me um sorriso leviano, algo solerte, significativo, como se dissesse: "Já o sabes" ou "Como pudeste esquecer!".&lt;/div&gt;&lt;div id="-chrome-auto-translate-plugin-dialog" style="background-attachment: initial !important; background-clip: initial !important; background-color: transparent !important; background-image: initial !important; background-origin: initial !important; display: none; left: 0px; margin-bottom: 0px !important; margin-left: 0px !important; margin-right: 0px !important; margin-top: 0px !important; opacity: 1 !important; overflow-x: visible !important; overflow-y: visible !important; padding-bottom: 0px !important; padding-left: 0px !important; padding-right: 0px !important; padding-top: 0px !important; position: absolute !important; text-align: left !important; top: 0px; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div style="-webkit-border-radius: 10px !important; background-color: #363636 !important; background-image: -webkit-gradient(linear, left top, right bottom, color-stop(0%, #000), color-stop(50%, #363636), color-stop(100%, #000)); border-color: #000000 !important; border-width: 0px !important; color: #fafafa !important; font-size: 16px !important; max-width: 300px !important; opacity: 0.8 !important; overflow: visible !important; padding: 8px !important; text-align: left !important; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div class="translate"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="additional"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;img onclick="document.location.href='http://translate.google.com/';" src="http://www.google.com/uds/css/small-logo.png" style="-webkit-border-radius: 20px; background-color: rgba(200, 200, 200, 0.3) !important; cursor: pointer !important; margin: 0 !important; padding: 3px 5px 0 !important; position: absolute !important; right: 1px !important; top: -20px !important; z-index: -1 !important;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6965576318631960926?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6965576318631960926/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6965576318631960926&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6965576318631960926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6965576318631960926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/esse-cavaleiro.html' title='Esse cavaleiro'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7836852660542200915</id><published>2012-01-20T14:17:00.004-02:00</published><updated>2012-01-20T17:02:24.938-02:00</updated><title type='text'>Das graças a mais gentil</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A casinha de cachorro-quente estava com suas janelinhas recém-abertas. Eram as sete horas da tarde e, na visão do meu ocioso estômago, era mais do que hora de jantar. Contudo, o rapaz disse-me que ainda não estavam prontos e por isso eu teria que esperar mais uns vinte minutinhos. Ele sequer se deu ao trabalho de acrescentar a fórmula mágica "mas se quiser pode esperar", e, apesar da entonação tenra e débil de sua voz, senti-me ofendido. "Ah, sim, está bem", eu disse. Permaneci ainda de pé, esperando que me convidasse e que me consolasse por haver chegado demasiado cedo. Ao fim, ante sua repreensível insensibilidade, resolvi sentar e aguardar. Em vão tentava resolver esse impasse, e fracassava terrivelmente, fosse de pé ou sentado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E a chuva veio, fosse para aliviar minha desdita, fosse para culminar minha desolação. Começou com esparsos, escassos pingos, e, não obstante, eu permanecia calado e inerte, como se sequer a chuva pudesse perturbar minha serenidade.&amp;nbsp;Longe de mim demonstrar que estava contrafeito, que havia chegado cedo demais, que desconhecia os horários, que um fato tão insignificante poderia ofender-me: eu caminhando em tão altos céus. Os pingos, contudo, tornaram-se mais freqüentes, e logo o que havia eram diáfanas cortinas sendo varridas pelo vento. Vi-me, então, forçado a levantar e ir embora, arrastando um imenso rabo de raposa acuada para longe da presença estúpida do chapeiro e sua relutância em atender-me.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vociferei aos céus, ao mundo, ao tolo chapeiro do cachorro-quente. Quem ele pensava que era para fazer-me esperar vinte minutos quando eu de tão bom grado havia abandonado meus recintos solares para comer seu lanche barato? E por que diabos o destino resolveu despencar sobre mim, eu que sempre fui tão bom, tão nobre, tão... digno? Molha-me, pois, molha-me mais. Não fiquei ensopado porque as árvores protegiam um bocado, mas cada gota que escorria de meu cabelo carregava em si o peso da humilhação. No entanto, nada podia fazer e nada podia demonstrar. Devia agir não somente com dignidade, mas também como uma pessoa racional, de modo que essas pequenas contradições passassem despercebidas ao meu seguro ego.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas eu tinha era vontade de voltar no tempo e, ao invés de meu conformismo, agarrar-lhe pelos colarinhos e rosnar: "Você vai fazer esse cachorro-quente agora, não importa como ou com o quê! E que seja rápido! Não sabe que está prestes a chover? Incompetente!". E não esperaria sentado, não. Ficaria ali de pé, com a mão estendida, pois o lanche deveria ser feito quase que imediatamente. Sabe o que é isso? Chama-se o eterno desejo de adequação, a devida correspondência entre nosso íntimo e o espaço externo. É claro que todos nós simplesmente gostaríamos que esse último se submetesse &lt;i&gt;sempre &lt;/i&gt;e&lt;i&gt; incondicionalmente&lt;/i&gt;&amp;nbsp;àquele. Mas é óbvio que o mais sensato é adequar nossa pequena tempestade à vastidão do mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E eu tentei. Deus, como eu tentei! Que eu esperasse o cachorro-quente por vinte minutos; como não? Que eu me sentasse e servilmente aguardasse ser chamado; oh, sim, como não? Porém, confesso que desde o início jamais intencionei submeter-me totalmente. Antes tentava, no mínimo, conciliar meu orgulho com a inelutável negativa do chapeiro, e o fazia por sutis artifícios, esgueirando um olhar de rancor, algo de imperativo, um silêncio e uma imobilidade que mais se assemelhavam à irritação que à paciência. Queria, sobretudo e em última instância, vencer o mundo. E, talvez, nessa estúpida luta, já houvesse fracasso antes que começasse a chover. É como brincar de enfrentar as ondas, cortando-as com chutes e socos, empreitada essa já em sua essência desesperada, porém oriunda de uma vital necessidade.&lt;/div&gt;&lt;div id="-chrome-auto-translate-plugin-dialog" style="background-attachment: initial !important; background-clip: initial !important; background-color: transparent !important; background-image: initial !important; background-origin: initial !important; display: none; left: 0px; margin-bottom: 0px !important; margin-left: 0px !important; margin-right: 0px !important; margin-top: 0px !important; opacity: 1 !important; overflow-x: visible !important; overflow-y: visible !important; padding-bottom: 0px !important; padding-left: 0px !important; padding-right: 0px !important; padding-top: 0px !important; position: absolute !important; text-align: left !important; top: 0px; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div style="-webkit-border-radius: 10px !important; background-color: #363636 !important; background-image: -webkit-gradient(linear, left top, right bottom, color-stop(0%, #000), color-stop(50%, #363636), color-stop(100%, #000)); border-color: #000000 !important; border-width: 0px !important; color: #fafafa !important; font-size: 16px !important; max-width: 300px !important; opacity: 0.8 !important; overflow: visible !important; padding: 8px !important; text-align: left !important; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div class="translate"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="additional"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;img onclick="document.location.href='http://translate.google.com/';" src="http://www.google.com/uds/css/small-logo.png" style="-webkit-border-radius: 20px; background-color: rgba(200, 200, 200, 0.3) !important; cursor: pointer !important; margin: 0 !important; padding: 3px 5px 0 !important; position: absolute !important; right: 1px !important; top: -20px !important; z-index: -1 !important;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7836852660542200915?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7836852660542200915/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7836852660542200915&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7836852660542200915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7836852660542200915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/casinha-de-cachorro-quente-e-assim-que.html' title='Das graças a mais gentil'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6028139546332078565</id><published>2012-01-17T19:38:00.001-02:00</published><updated>2012-01-23T20:58:43.667-02:00</updated><title type='text'>Rostos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pouco sei do que se passou na Universidade de São Paulo ano passado. Estava muito longe e tinha preguiça de informar-me a respeito. Então vou ficar aqui com o argumento que me parece mais delicioso: trata-se de um bando de jovens desocupados, janotas e sem real sentido do que é trabalho que, sentindo-se molestados em seu direito de fumar a maconha santa de todo dia, são capazes de sacrificar o bem comum em troca do desfrute egoísta e inconsequente de suas vidas viciosas. Não é lindo? Mas não só esses estudantes. Parece-me que a sociedade inteira está disposta a defender seus vícios, mesmo que isso no fim revele-se irracional. E eu tenho um caso para ilustrar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ano retrasado, já em dezembro, os alunos do curso de Direito haviam sido chamados a assistir uma palestra sobre ética, a qual, no conto de fadas do departamento, substituiria as aulas que obrigatoriamente deveriam ministrar. Era num sábado de manhã, e imagine você quantos alunos estariam dispostos a acordar cedinho para enfrentar horas de aridez intelectual. Penso que mais da metade não havia comparecido, porém, nas listas de chamada que circulavam entre os alunos no auditório, estavam todos miraculosamente presentes. Trata-se de uma prática muito comum, banalizada e que nem mesmos os professores e funcionários do departamento teriam disposição ou força moral para impedi-la.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No fim da palestra, contudo, abrindo-se enfim espaço para as perguntas dos alunos, eis que um de nós levanta-se e, sutilmente, entre seus habermas e suas hannahs arendts, menciona que "... por exemplo, muitos alunos aqui assinaram na lista de presença &amp;nbsp;em nome de pessoas que não se encontram...". Eu apenas me dei conta de que se tratava de uma delação por causa do murmurinho de desaprovação entre os alunos que a acompanhou. Oh, sim, ele estava delatando. Imagine os olhos do chefe do departamento do curso de Direito revirando-se convulsamente ante a presença de um juiz e membros da OAB em uma palestra justamente sobre &lt;i&gt;ética &lt;/i&gt;ao ver enfim em palavras o que em silêncio há muito se fazia.&amp;nbsp;Ah... a harmonia perfeita desses encontros... No final, ele jurou que puniria os responsáveis, ameaçando-os inclusive de expulsão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É claro que ninguém gostou disso, e nosso pequeno delator foi, durante muitas semanas, motivo de ódio entre os alunos. Porém, desconsiderando qualquer vaidade, presunção ou idealismo que possa tê-lo motivado, em nenhum momento eu ouvi algo do tipo "Ah, muito bem, assinar as listas de presença em nome de pessoas que não estão presentes e assim burlar-se da instituição de ensino da qual desfrutamos gratuitamente é errado, mas nem por isso...". Não! E é claro que não. Quem, ante um mal generalizado, ergue-se para denunciá-lo? "Ah, nossa, tudo bem que é errado eu fumar minha maconha e de certa forma tornar-me responsável pelo tráfico de drogas, mas o fato é que...". Não, né?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todos são lindos, bonzinhos e lutam pelas crianças-que-têm-fome. Mas basta apontar um dedo petulante para essas mesquinharias para ver o zumbido crescendo dentro da colmeia. E, aliás, por que alguém haveria de querer defender algo tão banal contra si mesmo ante uma medida tão séria e desproporcional que é a expulsão da universidade? Deus sabe por quantos cursinhos muitos deles tiveram que passar... Porém, de outro lado, que temos senão a exposição de uma coisa que todos sabiam? Era a verdade, não era? Ah, mas a sociedade, estimado discípulo, é feita de murmurinhos, de bombons ruins atirados no vaso sanitário, de mesuras e pródigos sorrisos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas, meu bom senhor, como reconhecer se o que varremos displicentemente para debaixo do tapete é uma inocente poeirinha ou um já vultuoso cadáver? Talvez através das consequências e o quão longe podem chegar. Mas nem sempre isso é fácil. Talvez fraudar a lista de presença não seja ato grave, ainda mais quando o próprio departamento atua de um modo tão imoral, pondo nas costas dos alunos suas falhas e o desleixo de anos. Porém, dê só uma&amp;nbsp;olhada&amp;nbsp;para as&amp;nbsp;suas caras! Olhe isso! O que mais são capazes de esconder? Não, eles não vieram para fazer justiça, vieram para acomodar-se o melhor possível nas poltronas da sociedade. Pois que abanem, abanem seus leques ardorosamente! Inclinem, inclinem suas mãos aos lábios de seus cortesões! Quem aqui dirá que estão errados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, meus gentis homens, atentem-se que vocês &lt;i&gt;sequer&lt;/i&gt;&amp;nbsp;reconhecem suas pequenas vilezas. Eu até os defenderia se vocês ao menos confessassem que aquilo que fazem não é certo, porém, sendo insignificantes, não merecem as repreensões previstas. Mas, não, agora isso é tão certo quanto são róseos seus&amp;nbsp;&lt;i&gt;bumbuns&lt;/i&gt;. O que me surpreende é que, enquanto discursam, não é possível sequer identificar o que lhes parece certo e que lhes parece errado. É como se se recusassem a ouvir alguma voz interior que simplesmente lhes dissesse: "Ei, eu estou errado, mas igualmente não aceito ser punido com a mesma gravidade que um assassino seria, pois o que eu fiz é uma mesquinharia e tudo o que isso revela é que sou imperfeito e nada mais". Estou sendo muito severo?&lt;/div&gt;&lt;div id="-chrome-auto-translate-plugin-dialog" style="background-color: transparent !important; display: none; left: 0px; margin: 0px !important; opacity: 1 !important; overflow-x: visible !important; overflow-y: visible !important; padding: 0px !important; position: absolute !important; text-align: left !important; top: 0px; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div style="-webkit-border-radius: 10px; background-color: rgb(54, 54, 54) !important; border-color: rgb(0, 0, 0) !important; border-width: 0px !important; color: rgb(250, 250, 250) !important; font-size: 16px !important; max-width: 300px !important; opacity: 0.8 !important; overflow: visible !important; padding: 8px !important; text-align: left !important; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div class="translate"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="additional"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;img onclick="document.location.href='http://translate.google.com/';" src="http://www.google.com/uds/css/small-logo.png" style="-webkit-border-radius: 20px; background-color: rgba(200, 200, 200, 0.3) !important; cursor: pointer !important; margin: 0px !important; padding: 3px 5px 0px !important; position: absolute !important; right: 1px !important; top: -20px !important; z-index: -1 !important;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6028139546332078565?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6028139546332078565/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6028139546332078565&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6028139546332078565'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6028139546332078565'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/rosto.html' title='Rostos'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3109839611604124880</id><published>2012-01-16T00:55:00.001-02:00</published><updated>2012-01-17T18:19:56.585-02:00</updated><title type='text'>Na mais alta torre gótica</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando sua irmã irrompeu pela porta, segurando seu filho nos braços, pouca atenção ter-lhe-ia dado se não fosse pelo homem que lhe seguiria minutos após. Eu estava na casa de um amigo, jogando age of empires, e, bastante concentrado, voltei-lhe rapidamente os olhos em sinal de cumprimento, pois, afinal, era apenas uma moça normal com quem eu nada tinha que ver, e, além do mais, minhas fortificações pereciam ante o inimigo e medidas urgentes deviam ser adotadas. Contudo, ao abrir-se a porta pela segunda vez, eis que surge um homem gordo, vestido com desleixo e aparentando ser não mais do que um chapeiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estarrecido subentendia que este era o pai de seu filho, o empresário, o detentor de afamada fortuna e de tantos imóveis na cidade. Pouco me importa se ele realmente gozava dessa situação. A questão era o evidente contraste entre a jovem moça, uma típica patricinha maringaense, e o homem feio, de traços escuros, passos morosos e pelo menos uma década mais velho. O que teria motivado uma união tão... grotesca? Só com muita ingenuidade seria o dinheiro, já que estavam encostados no apartamento do irmão, o que torna a coisa ainda mais vil. Amor? Ah, então... Pobre moça.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pobre, pobre moça. Não sabe então que a sociedade, representada em mim, não a redimirá por mais puro que seja seu sentimento? Acaso se esqueceu dos seus deveres ao unir-se com tão decadente criatura, tendo a audácia de engendrar um filho de tão feio homem? E ele me vira seus pesados olhos, o chapeiro, e, desconhecendo seu lugar, exige de mim o cumprimento. E o tem, certamente, pois que não sou assim tão vilão. Mas pressinto a carne pútrida que guarda em seu peito, a moral preguiçosa e a inteligência voltada para o desfrute dos bens terrenos desde a sua torre gótica. Oh quasímodo, que a água da fonte suas mãos conspurcam! Com que sordidez não desfolha as flores de nossos jardins entre seus dedos suados! E em troca nada nos dá senão a cena de seu próprio deleite.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sou ruim? Apenas exponho aquilo que todos os presentes na mesa pensaram. Pois todos nós sabemos que engendrais vossos filhos para nós, a sociedade, e não para a satisfação própria. Ou pensais que nós toleraremos que vos reproduzais à vontade, atracando-vos com o primeiro que vos passe um pouco de dinheiro diante de vossas faces indolentes, quando, na verdade, devíeis estar procurando nos homens aquilo que há de melhor e, assim, oferecendo-nos o melhor possível? A sociedade, minha cara, não a perdoará, pois do seu amor não depende. O amor que corresponde tão somente a vocês dois, aos olhos dos demais, no entanto, é apenas mais um sentimento banal. Não importa quão alto busquem seu refúgio, nós os enxergaremos tal qual nos afigura: a gárgula bestial e sua monja de pedra. Oh, sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu sou o vampiro que, subitamente iluminado por um relâmpago, desde o pórtico escuro apavora a donzela, fazendo-a fugir aos gritos pelas escadarias que conduziam ao castelo. Se acaso lhe persigo injustamente, peço desde já seu perdão, aquele mesmo perdão que a pouco lhe neguei. Mas era para o seu bem, para o nosso bem. Um bem que lhe cravo na branca carne de seu pescoço e de cujas veias extraio o sumo essencial de nossa temporária, porém não desprezível e nem de toda privada de sua origem, verdade.&lt;/div&gt;&lt;div id="-chrome-auto-translate-plugin-dialog" style="background-attachment: initial !important; background-clip: initial !important; background-color: transparent !important; background-image: initial !important; background-origin: initial !important; background-position: initial initial !important; background-repeat: initial initial !important; display: none; left: 0px; margin-bottom: 0px !important; margin-left: 0px !important; margin-right: 0px !important; margin-top: 0px !important; opacity: 1 !important; overflow-x: visible !important; overflow-y: visible !important; padding-bottom: 0px !important; padding-left: 0px !important; padding-right: 0px !important; padding-top: 0px !important; position: absolute !important; text-align: left !important; top: 0px; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div style="-webkit-border-radius: 10px !important; background-color: #363636 !important; background-image: -webkit-gradient(linear, left top, right bottom, color-stop(0%, #000), color-stop(50%, #363636), color-stop(100%, #000)); border-color: #000000 !important; border-width: 0px !important; color: #fafafa !important; font-size: 16px !important; max-width: 300px !important; opacity: 0.8 !important; overflow: visible !important; padding: 8px !important; text-align: left !important; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div class="translate"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="additional"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;img onclick="document.location.href='http://translate.google.com/';" src="http://www.google.com/uds/css/small-logo.png" style="-webkit-border-radius: 20px; background-color: rgba(200, 200, 200, 0.3) !important; cursor: pointer !important; margin: 0 !important; padding: 3px 5px 0 !important; position: absolute !important; right: 1px !important; top: -20px !important; z-index: -1 !important;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3109839611604124880?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3109839611604124880/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3109839611604124880&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3109839611604124880'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3109839611604124880'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/na-mais-alta-torre-gotica.html' title='Na mais alta torre gótica'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-4401928485313651266</id><published>2012-01-10T22:33:00.002-02:00</published><updated>2012-01-12T11:13:18.257-02:00</updated><title type='text'>A sentença</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Certa vez, ao entrar na sala do procurador, fui convidado a conversar. Ele estava preocupado, se é possível assim dizer, com o fato de que, aparentemente, eu já não me encontrava com o mesmo ânimo, e, como indícios, citou uma série de erros formais que eu vinha cometendo. Respondi-lhe, então que: eu me encontrava no estágio há quatro meses, e não há um ano como ele havia pensado; meu ritmo de trabalho era exatamente o mesmo e, inclusive, eu agora trabalhava para dois procuradores; tal erro aconteceu há dois meses.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pareceu-me, à época, uma indireta para que eu saísse do estágio, já que ele mesmo não o podia fazer. Porém, pensando agora, acho que os motivos eram outros, ainda mais quando, já no quinto mês, houve uma súbita e incompreensível explosão de cordialidade. A questão era: como manter-me subordinado? Impondo-se vociferante? Claro que não. Estando ele em uma posição superior e sendo, porém, meu trabalho independente de sua direção, deveria ele envolver-me em uma nebulosa em que eu jamais pudesse orientar-me, de modo que, escravo de suas pistas, fosse forçado a todo instante farejar a seu redor em busca da verdade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas o porvir é lindo. Em menos de uma semana, caiu, sem que eu já guardasse qualquer rancor, em minhas mãos uma petição sua em que ele havia errado o nome das partes, o número do processo e todo o resto. O officeboy, a quem cabia essas coisas, pediu-me o favor de levar a petição à sua sala para que avisasse do erro e corrigisse. Eu jamais teria sabido se não fosse por sua cara-de-pau. Acho que ele não precisou insistir muito. Carreguei a petição impassível, como se eu fosse o próprio sol que irremediavelmente todos os dias levanta-se e põe-se sob o horizonte, e, quando irrompi pela sala, era branca minha máscara e negros meus ombros. Um mero comensal... do destino.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não desembainhei minha espada, nem meus lábios crisparam-se. Meus olhos eram duas esferas de vidro que apenas refletiam o que quer que a vida a eles fizesse chegar sua luz. Meu coração era uma bacia de prata onde vultos misteriosos lavavam-se deixando a água escorrer brilhante de seus longos dedos. E isso bastava. Saí sem olhar se em seu rosto delineava-se o embaraço. Seu anjo, porém, levantando-se severo detrás de sua cadeira, caminhou a duras pausas até que se posicionasse diante de sua mesa e, suspendendo a um bom ângulo seu braço direito, pousou sobre seu pescoço a espada cinzenta.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-4401928485313651266?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/4401928485313651266/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=4401928485313651266&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4401928485313651266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4401928485313651266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/sentenca.html' title='A sentença'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1510551804910505024</id><published>2012-01-09T02:48:00.001-02:00</published><updated>2012-01-24T15:03:06.487-02:00</updated><title type='text'>Hauptstadt</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu tinha chegado de madrugada no hotel, e a porta encontrava-se fechada. Não havia&amp;nbsp;ninguém na&amp;nbsp;recepção, exceto um rapaz, visivelmente um hóspede ou um pretendente a, sentado num dos sofás, o qual, obviamente, não poderia abrir-me a porta. Não me preocupei, pois bastava tocar a campainha e esperar que viesse algum funcionário. Acontece que o rapaz, desde&amp;nbsp;atrás da porta de vidro,&amp;nbsp;olhava-me insistentemente, carrancudo, severo, e até me senti intimidado pensando ser uma avaliação negativa de meu aspecto ou comportamento. Percebi, porém, pelo seu meio termo entre estar sentado e estar de pé,&amp;nbsp;que estava apenas sentindo-se obrigado a ajudar-me, e o que parecia ser um olhar de reproche era&amp;nbsp;na verdade&amp;nbsp;preocupação.&amp;nbsp;Levantou-se, pois, e, fazendo um gesto com a mão para que eu aguardasse, foi chamar alguém do hotel. Veja bem, isso era totalmente desnecessário.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Instantes depois, voltou e sentou-se no mesmo sofá. O funcionário veio logo em seguida e abriu-me a porta.&amp;nbsp; Mesmo que sua ação tivesse sido de um zelo dispensável, estava eu, obviamente, obrigado a&amp;nbsp;agradecê-lo, e, ao entrar e passar por ele, disse-lhe "obrigado", pelo qual recebi em troca um leve, um mínimo, um imperceptível aceno de cabeça. Foi então que vi, reconheci, tal qual olhasse em um espelho, não somente a minha pessoa, mas a de tantas outras. Aquela carranca, a cabeça inclinada para baixo, o olhar duro e sério ressaltado atrás das sobrancelhas, o expressar lacônico, tudo isso que eu já havia visto uma centena de vezes, mas que até então não havia me dado conta de sua força estética.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;E senti-me agradecido por ter encontrado meu igual, em saber-me não&amp;nbsp;mais um ser isolado, desvinculado e flutuante. E, evidentemente, não teria me sentido tão agradecido se não fosse pelo fato de eu ter achado sua expressão e seu gesto belíssimos. Por haver se obrigado tão desnecessariamente, por haver se incomodado por alguém sem - ah glória - atrever-se a exigir um agradecimento. Como deve ser, como deve ser! Ele me ensinou o amor próprio, uma rota que eu posso seguir e atingir o ápice da humanidade sem que para tanto eu necessite descartar coisas que para mim são tão fundamentais, tão... minhas. Uma rota por onde eu possa passar com minha comitiva sem que para isso eu precise humilhar-me e ridicularizar-me abrindo mão de coisas que são valiosas para mim.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu descobri a minha capital. A capital de pessoas que não pedem seu &lt;em&gt;abraço sincero e gostoso&lt;/em&gt;, mas apenas que continue seus afazeres, pois nada demais aconteceu. E sobre o mapa traço o caminho que me conduzirá ao ponto máximo a que eu sempre estive inclinado. E que nenhum biltre venha dizer-me o que há de certo ou errado, pois eles não sabem apreciar, não sabem compreender o apelo de perfeição que carrega cada coisa em sua essência. E por isso eles destroem, anulam, subjugam culturas inteiras, inconscientes da realização intrínseca que carregam desde há muito tempo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1510551804910505024?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1510551804910505024/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1510551804910505024&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1510551804910505024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1510551804910505024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/nao-me-retratarei.html' title='Hauptstadt'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-2415465659918300240</id><published>2012-01-08T12:50:00.001-02:00</published><updated>2012-01-08T22:45:10.049-02:00</updated><title type='text'>Hotel Vitóri</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há muito tempo vinha-me prometendo o relato da breve, intensa e inesquecível estadia no Hotel Vitóri. Isso aconteceu há quase sete meses, e temo que alguns detalhes já não me ocorram tão facilmente. Era inverno, mês de julho. Havíamos planejado um passeio a Porto Alegre. Viajamos de avião, um avião barulhento e que parecia feito com casca de ovo. Era promoção. Era barato. Éramos jovens e não nos importávamos com comodidades. O suportar o desconforto era-nos uma virtude. Havia ânsia por vicissitudes, pela dor, o perceber de nossos limites. E eu era um rapaz prático, já um tanto esgotado por haver recentemente voltado do Chile, mas animoso por voltar a Curitiba, ainda que por breves horas, e por conhecer o extremo sul do Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porto Alegre apresentou-se-me fria, úmida, cinzenta e seus habitantes rústicos, porém amáveis. Surpreendentemente amáveis. Já no aeroporto, uma senhora ofereceu-nos, assim, sem esperar sorriso algum de nossa parte, pagar pelo trem que nos levaria até a rodoviária. Instantes antes, um senhor e seu filho, de traços élficos, germânicos, haviam zelosamente tratado de que chegássemos ao terminal ferroviário. Sinceramente, não sei se eu poderia encontrar a mesma acolhida em meus conterrâneos, os quais considero rudes e caipiras (e muito provavelmente eu também o seja).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As calçadas estavam molhadas, o concreto de que eram feitas tinha o aspecto poroso e por toda a parte surgiam veios de água de origem misteriosa. O hotel não ficava muito longe da rodoviária, poderíamos facilmente chegar a pé. Havíamos feito a reserva pela internet, um preço muito camarada. A moça&amp;nbsp;que&amp;nbsp;cuidava do contato&amp;nbsp;havia respondido nossos e-mails em caps lock. O hotel, conforme descobrimos através do google, havia sido vítima de um incêndio, provavelmente provocado por um aparelho elétrico em um quarto ocupado por um sacoleiro (era comum que o estabelecimento recebesse hóspedes do estilo). Embora suspeitássemos de&amp;nbsp;algo nessas condições, a mística de um desastre que o&amp;nbsp;envolvia&amp;nbsp;e a&amp;nbsp;economia que faríamos fizeram-nos preferi-lo a um hostel.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;A rua em que ficava o hotel era como toda rua das redondezas de uma rodoviária. Um conjunto de prédios antigos e decadentes, ocupados por moquifos, lojas de bugigangas, bares imundos e prostituição. Seus transeuntes portavam o mesmo ar pestilento: rostos sulcados, cansados, escuros. Em todos eu via as mesmas mãos furtivas, as risadas debochadas e sem espírito, suas roupas desbotadas, seus olhos rápidos, ansiosos&amp;nbsp;e libertinos que, sob a luz evanescente do crepúsculo, pareciam temer algo que os perseguia. Eu não poderia descrever a fachada do hotel, pois não me lembro. Mas vamos supor que não ocupava mais do que cinco metros, uma porta espremida entre duas lojinhas furrecas, uma grande janela de vidro ensebado e, claro, uma pintura bege e azul clarinho descascando-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira coisa foi o cheiro de produto de limpeza misturado a mofo, como seria de esperar de lugares mal arejados e com pouca luminosidade. Para chegar até a recepção, era necessário subir uma escada de dois ou três lances. Os degraus estavam cobertos de um carpete puído e enegrecido. No fim da escada, havia um portão de grades, de aspecto rangente, sombrio, gélido. A recepção já não aparentava ser tão ruim, mas mesmo assim os móveis eram pobres, a decoração triste, algumas samambaias abandonadas pelos cantos. Antes de acertarmos a estadia, a moça perguntou se não queríamos conhecer o quarto. Claro. Achei desnecessário, afinal, onde, sendo já de noite e estando esgotados pela viagem poderíamos encontrar outro lugar? Nem conhecíamos a cidade... Porém, acompanhamos a moça que - estaria eu louco se me lembro desse detalhe? - vestia uma blusa de lã azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei quantos corredores atravessamos. Corredores silenciosos, estreitos, claustrofóbicos, as paredes de aspecto frágil. A porta que abriu estava pintada de uma amarelo claro, e sua composição só muito vagamente lembrava a da madeira. Olhei rapidamente para o interior do quarto e&amp;nbsp;contive meu riso: um riso de desespero, triste, como a fina chuva que caía lá fora sobre a calçada destroçada. Voltamos à recepção, aceitamos o quarto, pagamos. Estava lacônico e não lembro se quem tratou com os funcionários do hotel fui eu ou meu amigo. Parecíamos ser os únicos hóspedes. Para mim, estava claro que eu não poderia passar mais um dia sequer naquele hotel. Aquela noite era apenas uma necessidade irremediável, um absurdo em que me havia posto e o qual teria que suportar até que a luz do dia viesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O&amp;nbsp;quarto&amp;nbsp;tinha paredes pintadas de um laranja intenso, um quinhão do inferno. Não era muito grande, contendo uma cama, um beliche e um armário que,&amp;nbsp;diferentemente das camas,&amp;nbsp;as quais&amp;nbsp;sustentavam um ar de mesquinha leveza que só a madeira ruim e barata é capaz, tinha um aspecto pesado, sóbrio, como se, estando ao canto da habitação,&amp;nbsp;escondesse em seu interior um portal que não permitisse jamais a sensação de estar-se fechado num quarto. O banheiro era separado por uma divisória, de modo que tudo o que você fizesse ali poderia ser ouvido pelo seu companheiro do outro lado. Continha uma banheira de cerâmica encardida, um espelho e uma pia absurdamente baixa e onde mal cabiam as duas mãos juntas. Tudo tão triste, desolador, silencioso e miserável. Larguei minha mochila sobre a cama debaixo do beliche e comecei a dar voltas pela habitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abrimos a janela para que arejasse um pouco e contemplamos&amp;nbsp;a vista das ruínas do incêndio. Sim, eram os escombros, envolvidos na escuridão e para sempre calados pelo fogo. Escovei os dentes como pude e não quis tomar banho. Sequer pus pijama para dormir, e acabei cobrindo-me com o meu próprio casaco. Tinha medo do demônio, dos funcionários do hotel, das sombras com que se disfarçavam e que a qualquer instante entrariam nas pontinhas dos pés e me apunhalariam enquanto o grande relógio da noite soasse sua hora mais avançada. Tinha medo, sobretudo, da pobreza que ali respirava. A decadência, a certeza de que o homem só é digno enquanto puder desfrutar de um mínimo de conforto material. Tinha medo de um futuro em que eu só teria dinheiro para um hotel Vitóri, nas redondezas de uma&amp;nbsp;rodoviária, em cujas camas espreitar-me-ia o grande espírito maligno de meus sonhos, o qual, sentando-se sobre o meu peito, vociferaria até a minha completa loucura. Tinha medo, enfim, de todo aquele submundo e seus mordomos de rostos macilentos, suas prostitutas e suas risadas hostis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela manhã, se não estou enganado, meu amigo ainda teve a pachorra de perguntar se eles poderiam servir o café-da-manhã. Responderam que não, que somente havia café e pão para eles mesmos. Café-da-manhã... Hunf! Como se eles tivessem condições de servir-me&amp;nbsp;um café-da-manhã! Tudo o que eu queria era pegar minhas coisas, sair dali e procurar um hostel. A manhã trouxera-me nova coragem, jogara luz aos elementos taciturnos que haviam me atormentado. Já não temia os funcionários nem o hotel. Desprezava-os: eles e toda aquela gente que&amp;nbsp;rastejava ao seu redor. Tinha plena consciência de que não pertencia a tudo aquilo, e, se algum dia decaísse, lutaria até a morte por sair.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-2415465659918300240?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/2415465659918300240/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=2415465659918300240&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2415465659918300240'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2415465659918300240'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/hotel-vitori.html' title='Hotel Vitóri'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3431878085461785162</id><published>2012-01-07T14:27:00.003-02:00</published><updated>2012-01-08T21:29:16.740-02:00</updated><title type='text'>Miséria I</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Querido diário,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em meados de abril/maio -&amp;nbsp;que sei eu -, havia sido convidado para um churrasco. Havia sido miseravelmente convidado para o churrasco, pois eu não gostava do anfitrião. Era seu aniversário. Um rapaz bobo, mais velho do que eu, imperdoavelmente infantil, insolente e dolorosamente vulgar. Era daqueles personagens com os quais nos deparamos de vez em quando e que sempre nos chocamos ao constatar sua capacidade em absorver todos os clichês e todo o vazio moral de um programa sensacionalista de televisão. Porém, não podendo recusar o convite, tendo em vista que era meu colega de estágio, decidi ir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Às nove horas da noite, já vestido, descubro que ninguém mais do estágio iria, exceto eu. Sim, ele não era uma pessoa muito estimada, e, devo dizer, o que me moveu aceitar o convite não era o mero cumprimento de uma etiqueta, mas pena mesmo. Tanto melhor, eu pensei, afinal não gostava de nenhum deles: achava-os todos vis, mesquinhos, sem alma, denegridores da beleza e do significado que portavam. Peguei o carro (oh! era a primeira vez que eu tinha autorização para pegar o carro: era a glória), dei a partida e saí rumo à sua casa. (Aqui omitirei a parte em que me perdi durante uma hora na cidade, pois é sempre um misto de terror e delícia toda vez que isso acontece e nada tem a ver com esse triste relato).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cheguei por volta da meia-noite. Meu Deus. Aquele era o churrasco mais deprimente em que eu havia estado. Se havia oito pessoas ali era muito. E dessas oito pessoas, um era o officeboy da procuradoria, e os outros, antigos colegas de uma companhia de marketing em que ele havia trabalhado. Destes, somente um, com muita bondade,&amp;nbsp;podia ser chamado de seu real amigo. Suas relações eram, em suma, artificiais. Quem sou eu para julgar? Acontece que esse anfitrião vivia - tão cansativo - gabando-se, conversando, citando amigos. Não que eu não suspeitasse, mas não imaginava que fosse a esse ponto. Mas bem, até isso eu poderia relevar se não fosse...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A quantidade de carne e cerveja que nosso personagem havia comprado. Devia haver comida ali para umas quarenta pessoas. Ele não era somente um grande mentiroso; era um ingênuo, um deslumbrado. Uma confiança vazia, uma ilusão de dar pena, muita muita. Meu estômago retorceu-se. Minhas mãos, meus braços derrubaram-se moles ao longo do meu corpo. E as conversas! Oh, as conversas! Ora banais e entediantes, ora lascivas e torpes. Quando não me sinto bem num lugar, não gosto nem&amp;nbsp;de participar em sua comida. Rejeitei todos os bocados de carne e a cerveja. Meu coração oprimia-se, algo em mim se&amp;nbsp;desprendia roto. Os valores do alto céu despencavam sobre o charco da vida, e na imundície úmida debatiam-se como peixes que agonizam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Prometi a mim mesmo que logo soasse a uma hora da madrugada eu vazaria dali. A todo instante consultava o relógio, ansioso, soturno, quase mudo. Despedi-me apenas do anfitrião e parti em meu carro. Estava deprimido não só por saber da existência de coisas assim, como de haver participado disso. Ainda posso sentir a crosta nojenta daquela atmosfera envolvendo-me: casca de inseto, artrópode, bicho pequeno, rastejante&amp;nbsp;e vil. Sim, meus amigos, há todo um mundo lá fora que, longe de ser uma agonia, é um silêncio vazio.&amp;nbsp;Sequer é possível&amp;nbsp;chamar aquilo de silêncio de sepulcro,&amp;nbsp;onde a morte vela um sentido profundo e intangível. É ausência. Não,&amp;nbsp;é pior do que a ausência: são homens ocos, pois onde deveria haver homens, há apenas bonecos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São&amp;nbsp;títeres. Manipulados não por deuses ou por outros homens, mas por ninguém. O vento que ocasionalmente por eles passa move seus membros. A intempérie, o acaso, os elementos anônimos são os responsáveis por seus movimentos e sua aparente vida. Essa é a sua liberdade. Sequer são servos, pois até mesmo os servos possuem um sentido e uma vontade. Até mesmo os servos são mediações. Esses títeres têm o miolo de palha, um miolo morto que não serve&amp;nbsp;a ninguém e a nada, cujo&amp;nbsp;único sentido constitui-se em um&amp;nbsp;acidente, e cuja única causa não é nada senão seu próprio vazio e absurdo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3431878085461785162?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3431878085461785162/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3431878085461785162&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3431878085461785162'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3431878085461785162'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/querido-diario-em-meados-de-abrilmaio.html' title='Miséria I'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-2475176434544794016</id><published>2012-01-07T00:25:00.002-02:00</published><updated>2012-01-07T15:05:01.207-02:00</updated><title type='text'>Por ti intercedo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É fácil condenar a moça que saiu de casa levando todos os bens e deixando sua família na miséria para tentar a vida na corte do Rio de Janeiro. É fácil rasgar seu vestido de noiva e no auge de sua conquista esbofeteá-la profanando o empenho de maquiadores e costureiras. Mas o que ninguém quer é entender o outro lado, o lado da moça que vivia em sua casa perdida em ânsia e ambição. Pois essa moça entreolhou o pedacinho de céu desde o telhado quebrado de seu casebre e, longe de renunciar ao mundo que lhe mostrava seu rápido vulto, agarrou sua cauda luminosa com coragem e coração. E que poderia fazer a pobre moça, desde esse instante simbólico e sem tempo, senão deixar a casa que lhe era odiosa? Como continuar a viver ao lado de gente que consumia seu espírito, aquela parte nossa a que chamamos de sonho e que a tanto custo tentamos preservar? Imoral, sim, mas não destituída de valor. É necessário virtude até mesmo para cometer as más ações. Foi-lhe necessário ímpeto, empenho e fé naquilo que lhe era tão caro. Ou acaso uma moça assim, heroína da escuridão, poderia seguir vivendo ao lado de quem tira foto de ônibus em rodoviária, junto de pessoas que a obrigariam a sentar-se junto delas para assistir o programa favorito da família? De gente que mastiga de boca aberta e orgulha-se disso; gente que, deplorável em físico, anda pela sociedade sem camisa, sem pudor e sem consideração. Gente feia, grossa, que é a primeira a correr a encher o prato? Não, era tarde, ela sabia demais. E queria mais. Queria viver as longas escadarias, os altos sapatos, os sorrisos brancos e corteses. Queria o mundo que não se ria dos gringos e suas meias, onde as pessoas deslizam mansas as mãos pela colunata e ofendem com desdém. Onde os festins fazem-se sob a lua e princesas e príncipes roubam-se mutuamente delicadezas no umbral de seus palácios. E nada disso teria sido possível onde vivia. Que aflição, que tortura não sentia! Saber onde quer estar - coisa tão rara - e no entanto não poder ali estar. E, então, sem olhar para trás e evitando pensar no que deixava, vendeu o apartamento e atirou a mãe na rua, e com o dinheiro, usando da sorte e de talento, foi tentar a vida de cortesã na capital. Reprovável! Reprovável! Porém aquela moça tinha um sonho. E lutou por esse sonho. Mais condenável é quem não peca, não por sobrar-lhe virtude e querer o bem, mas por falta de coragem. Gente vil, medíocre, como sombra que desliza a um canto da sala e ali apodrece, remoendo seu coração pequeno e rosnando baixinho aos que vê passar. Rasguem seu vestido de noiva. Destruam seu altar de casamento e deitem ao mar as jóias que ganhou. Mas jamais se esqueçam que o mundo dos homens tem um começo e tem um fim, e suas ações serão julgadas nas estrelas e não em seus tribunais de mofo e lassidão. Roubou? Sim, roubou. Mas roubou espreitando o sol que se levantava alto em seus sonhos e despertava-a em tormentos e suor no meio da noite, e seus feitos são, ao menos em parte, realização de algo mais profundo que a sua própria alma e que aos astros ascende em asas invisíveis.&lt;/div&gt;&lt;div id="-chrome-auto-translate-plugin-dialog" style="background-color: transparent !important; display: none; left: 0px; margin: 0px !important; opacity: 1 !important; overflow-x: visible !important; overflow-y: visible !important; padding: 0px !important; position: absolute !important; text-align: left !important; top: 0px; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div style="-webkit-border-radius: 10px; background-color: rgb(54, 54, 54) !important; border-color: rgb(0, 0, 0) !important; border-width: 0px !important; color: rgb(250, 250, 250) !important; font-size: 16px !important; max-width: 300px !important; opacity: 0.8 !important; overflow: visible !important; padding: 8px !important; text-align: left !important; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div class="translate"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="additional"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;img onclick="document.location.href='http://translate.google.com/';" src="http://www.google.com/uds/css/small-logo.png" style="-webkit-border-radius: 20px; background-color: rgba(200, 200, 200, 0.3) !important; cursor: pointer !important; margin: 0px !important; padding: 3px 5px 0px !important; position: absolute !important; right: 1px !important; top: -20px !important; z-index: -1 !important;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-2475176434544794016?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/2475176434544794016/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=2475176434544794016&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2475176434544794016'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2475176434544794016'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2012/01/por-ti-intercederei.html' title='Por ti intercedo'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8679577652016654077</id><published>2011-12-18T04:29:00.000-02:00</published><updated>2011-12-18T04:52:56.092-02:00</updated><title type='text'>Outrem em bandanas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No supermercado aqui perto, quando você faz uma compra superior a certa quantia, eles emitem um comprovante da sorte: você ganha um desconto de 30% em determinada bolacha, sabão em pó e até mesmo entradas para cinema. Eu sempre olhava atrás desse papel para ver se eu tinha ganhado alguma coisa (um desconto de 10% em chocolate seria algo maravilhoso para mim). E isso sempre com muita discrição, muita sabedoria. Nunca ganhei nada, nadinha, pois imagino que as compras que faço são em valor muito aquém ao necessário.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acontece que, um belo dia, enquanto eu me dirigia às portas automáticas da libertação, o Sr. Guarda do Estabelecimento flagrou-me olhando o comprovante para ver se tinha alguma coisa. E, como se isso não fosse o bastante, ele sorriu. Ele sorriu, e de tantos dentes e em tais fileiras corretas que não tive dúvida. Meu Deus, ele havia captado a minha expressão facial que, nesse momento, devia ser bastante idiota. Certamente havia notado aquela parte comunicável, o lado miserável de todo ser humano, o que há de pior em mim e em todos nós. Havia visto a ânsia pueril em meus olhos, o brilho mesquinho, os músculos dispostos a formar o ar &amp;nbsp;daquele personagem tonto e fútil que há em todo consumidor. Eu era um consumidor e ele havia percebido isso!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E, agora, como esquecer aquele sorriso escandaloso, luxurioso, indecente, aberto em meia-lua púrpura e, desde a sua libré encarnada em panos cinzentos e sem viço, usurpador? Como afrontar aquele sorriso de caçador satisfeito e de certa forma compadecido, de quem vê a caça que, tão&amp;nbsp;ingenuamente, tão ridiculamente, procurava abrigo em meio aos arbustos? Recorrer a uma adaga mágica e magicamente cortar-lhe o sorriso e expô-lo em praça pública para que sirva de exemplo? Não, claro que não. Apressar o passo, maldizendo-o por todo o caminho e arrastando panos e mais panos, tiras e tiras de seda e, se possível, abrir a sombrinha de um golpe seco e preciso, apoiando-a levemente em meus ombros e virando-lhe as costas e a existência inteira? Sim, eis a única solução coerente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Maldito guarda. Será que não sabe que vivo de sutilezas, de precauções, de um complicado cálculo de equilíbrios e desequilíbrios, movendo cuidadosamente pesos de cobre sobre o tabuleiro?&amp;nbsp;Pois desde então, quando recebo o comprovante do atendente do caixa, eu amasso imediatamente e atiro no lixo, que é para mostrar &lt;i&gt;quem&amp;nbsp;&lt;/i&gt;manda. O guarda que se cuide. Ou ele pensa que meu repertório é limitado como o deles, sim, eles, os outros, o resto? Aqui, minhas bandanas! Aqui, minhas caixas de lenço! Aqui, as escrituras de minas do Oeste, dos bordéis em Saint Louis, dos escritórios em Boston e Chicago! E eis meu arcabuz: quando eu terminar de carregá-lo, verá, meu senhor, a potência e alcance que tem.&lt;/div&gt;&lt;div id="-chrome-auto-translate-plugin-dialog" style="background-attachment: initial !important; background-clip: initial !important; background-color: transparent !important; background-image: initial !important; background-origin: initial !important; display: none; left: 0px; margin-bottom: 0px !important; margin-left: 0px !important; margin-right: 0px !important; margin-top: 0px !important; opacity: 1 !important; overflow-x: visible !important; overflow-y: visible !important; padding-bottom: 0px !important; padding-left: 0px !important; padding-right: 0px !important; padding-top: 0px !important; position: absolute !important; text-align: left !important; top: 0px; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div style="-webkit-border-radius: 10px !important; background-color: #363636 !important; background-image: -webkit-gradient(linear, left top, right bottom, color-stop(0%, #000), color-stop(50%, #363636), color-stop(100%, #000)); border-color: #000000 !important; border-width: 0px !important; color: #fafafa !important; font-size: 16px !important; max-width: 300px !important; opacity: 0.8 !important; overflow: visible !important; padding: 8px !important; text-align: left !important; z-index: 999999 !important;"&gt;&lt;div class="translate"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="additional"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;img onclick="document.location.href='http://translate.google.com/';" src="http://www.google.com/uds/css/small-logo.png" style="-webkit-border-radius: 20px; background-color: rgba(200, 200, 200, 0.3) !important; cursor: pointer !important; margin: 0 !important; padding: 3px 5px 0 !important; position: absolute !important; right: 1px !important; top: -20px !important; z-index: -1 !important;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8679577652016654077?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8679577652016654077/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8679577652016654077&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8679577652016654077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8679577652016654077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/12/outrem.html' title='Outrem em bandanas'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6338321729016412247</id><published>2011-12-06T04:03:00.001-02:00</published><updated>2011-12-18T04:54:44.692-02:00</updated><title type='text'>Mas - oh - não vá ainda</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas - oh - não vá ainda. Tal qual a condessa de Báthory, percebo que suas lágrimas ao molhar-me rejuvenescem a pele. E conta-me - retenho-te - a tua triste história, que de nossos defeitos não nos envergonharemos. Mais além - não vês? - desta janela, entre pomares de neve eu também cantei. E calvos senhores então me olhavam, e de meus sapatos enlameados ralhavam desde o pórtico até as escadarias que ascendiam ao meu quarto. E não era eu que limparia as pegadas; em tais templos, seres como nós somos mais do que espíritos, pois até mesmo os espíritos um dia neste mundo de um esfregão estiveram ocupados. Nossa condição é maior e mais difícil de entender. Somos, talvez, canalhas, e nessa cadeira em que te sentas sou obrigado a ver senão igualmente um canalha. Há algo de madeira em nós, não ossos; de palha sob estes panos, não carne. E em nossos olhos, algo opaco, como se em seu lugar houvessem posto cascas de noz. É assim que talvez nos vejam. Mas, neste camarim, deles estamos seguros, e por isso não deixa de esvaziar-te essas sombras movediças do peito: somos como naus antigas, anacrônicas, bruxuleando entre padarias e salas de aula. Não temos fim: que somos? Somos um pente, um banho. Se entramos em um supermercado, somos seus corredores, seus carrinhos vazios, o estrépito agourento de quando se encaixam. Se lemos algo, sua história absorve-nos por completo. É necessário que nos transformemos em arcos e pilastras antes que nos digam que deste Reino não poderemos beber. Não temos existência e no mundo nos dissolvemos. Mas - oh - não pare de teu pranto. Contar-te-ei ainda coisas mais tristes, histórias de soldados, de moços jovens que morrem em gaiolas, de moças pequenas abandonadas no ralo da pia; de países assolados pela desesperança e colinas em chamas, de florestas onde sempre é outono e onde cachorros farejam por coelhos que há muito foram extintos. Cutucar-te-ei até que tuas lágrimas cheguem ao fim, e de ti nada mais reste. Ouves esse barulho lá fora? Estão lavando nossas culpas; seus esfregões trabalham incansavelmente; estão jogando baldes de água - ou mais bem ácido - sobre nossas pegadas. Nada disso que fazemos é necessário. Para quê? De nossa beleza então fazemos nossa glória. Vês nossos rostos no espelho da penteadeira? É terrível, eu sei. Estamos cada vez mais belos. Ah, sim! É horrível aquilo que nos reserva a existência inútil. Mas não se preocupe: eu sustentarei o teu rosto desfeito em minhas mãos delgadas e frias e, sem dizer-nos palavra alguma, tudo cessará. Então, quando irromperem por esta porta, surpreender-se-ão por não mais encontrar-nos. Em nossos lugares, verão pássaros empalhados, de plumas coloridas e olhos de um brilho que, sem deixar de ser bem um brilho, aos seus olhos afigurar-se-iam tristemente baços. E eles mexerão em nossas coisas, em nossos baús, brincarão com nossos escritos e nossas roupas finas: nós ainda poderemos assisti-los. Mas não se preocupe, pois até mesmo isso terá seu fim.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6338321729016412247?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6338321729016412247/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6338321729016412247&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6338321729016412247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6338321729016412247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/12/mas-oh-nao-va-ainda.html' title='Mas - oh - não vá ainda'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7163843621555016449</id><published>2011-12-06T00:04:00.001-02:00</published><updated>2011-12-06T01:11:19.546-02:00</updated><title type='text'>Rápido, a pedra!</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há uma cena em Dragon Ball Z em que Babidi está prestes a ser destruído por um colérico Piccolo. Não me lembro dos detalhes, apenas disso: um arruinado, ensangüentado, esbugalhado e empoeirado Piccolo, contraindo todos os músculos de seu corpo e espírito, aos urros e gemidos, em toda a concentração animalesca de sua energia vital e a do universo, espasma suas garras virulentas de onde um potente raio amarelo tenta, penosamente, atravessar o escudo mágico que Babidi havia convocado murmurando, tão singelamente, "proteção". Um verdadeiro ator da burocracia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Essa cena é o paradigma da minha vida. Resume, de certa forma, o meu temperamento e o meu ideal. Os poderes de Piccolo provém de sua condição animal; é a conversão de sua força física em energia luminosa, não sem antes a custo de muita luta e sofrimento. O universo plasma-se em um cone imensurável desde a palma da mão de Piccolo até as galáxias mais distantes, pois Piccolo é o próprio Universo, a própria vida: está condicionado à matéria, às suas vicissitudes e transformações; é ele próprio a degradação e a dor. E, como resultado, seu poder é muito superior, ao menos quantitativamente, ao de Babidi.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já os poderes de Babidi não são outra coisa que não mágica. São fórmulas, sentenças capazes de manipular a realidade. Seu uso não implica em gasto, cólera ou destruição, pois esses atalhos, capazes de levar o mago de um extremo ao outro de maneira instantânea e segura, não são criações nem implicam qualquer transformação. Já estavam ali, e tudo o que Babidi precisa fazer é descobri-los, conhecê-los e, assim, dominá-los. Babidi não cria leis, apenas as conhece e as usa. Diferentemente de Piccolo, um mago não distorce o Universo: de seu emaranhado de gravetos, um mago puxa-os para si ao seu talante sem fazer desmoronar a pilha.&amp;nbsp;Parece contraditório, mas Babidi, de alguma forma, é capaz de sair sereno e limpo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E, bom, aonde eu quero chegar com isso? Acontece que, de ambos, o único que sai intacto é Babidi. Piccolo, ao fundir os elementos do universo, destrói a si mesmo. Babidi, ao contrário, conservando-o, é capaz de preservar-se, e mesmo que, tal como Piccolo, sua ação desencadeie as forças naturais, com elas não se identifica, pois as manipula desde um ponto externo sem que se imiscua o mago. Piccolo, ao contrário, age como um conversor de energia, e, no final das contas, não é ele muito diferente de uma estrela ou de qualquer outro elemento do universo&amp;nbsp;&amp;nbsp;(não lembro se Piccolo destruiu o escudo; o que não não vem ao caso).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7163843621555016449?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7163843621555016449/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7163843621555016449&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7163843621555016449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7163843621555016449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/12/rapido-pedra.html' title='Rápido, a pedra!'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5393105059856585189</id><published>2011-11-28T01:30:00.001-02:00</published><updated>2011-11-30T18:49:16.444-02:00</updated><title type='text'>Júpiter, tua ronda</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto sinto meus dedos liquefazendo-se pelas teclas superaquecidas de meu computador, ponho-me a refletir, refletir e refletir. Mas mais do que refletir, estou sonhando, e os ruídos do exterior (pois eles realmente resolveram fazer um churrasco sob a janela de meu quarto) ricocheteiam pelas paredes, compondo ao meu redor um santuário de imagens hindus, através das quais meus olhos se fixam, mas minha mente, não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não. Minha mente apartou-se do mundo sublunar e às estrelas alçou-se como um chapéu fosforescente, e apenas uma tênue linha ainda a mantém unida, desenhando tremeluzente pelos ares celestes seus inesperados meandros. Marujos, valentes capitães e caçadores de monstros marinhos em vão a perseguem, e quando mal seus olhos vêm a sombra de seu dorso sob as águas, imediatamente torna a desaparecer sob as vagas turvas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E se ela pudesse, ainda que fosse seu último ato, lançar-se de um promontório lunar em direção à Terra, despencando como um pequeno cometa através do espaço, e assim sobre a superfície deitar-se como um raio, que seria? Seria um fugaz brilho, talvez a fagulha de um foguete que se avista de longe, a iluminar não mais do que os pés de alguém que, tão vulgar, nada mais fazia senão esperar o ônibus?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas semelhante imagem não pode fazer jus a algo que tão naturalmente ascende e das montanhas lunares traz seu vislumbre. O sonho é muito mais do que se afigura aos demais; não é aquilo que dizem as pessoas quando entrevistadas em um programa de televisão. Um sonho não revela de todo seu rosto, pois entre o banal não poderia sobreviver. Ele é único e intangível, e, quando descende, não é como se morresse ao penetrar em solo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um sonho, na verdade, ao descender das esferas superiores, incorpora-se ao mundo, entranha-se (a muitos de maneira imperceptível) como um elemento químico completamente novo. Bromo, cobalto, zinco; nas mãos desesperadas de ourives fazem-se esses terríveis anéis, objetos de cobiça e superstição, capazes de lançar luz e sombra sobre as faces sobranceiras dos que a pouco acordaram e agora tomam seu café.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5393105059856585189?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5393105059856585189/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5393105059856585189&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5393105059856585189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5393105059856585189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/11/jupiter-tua-ronda.html' title='Júpiter, tua ronda'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6015767593474161435</id><published>2011-11-12T03:46:00.001-02:00</published><updated>2011-11-13T18:28:56.001-02:00</updated><title type='text'>Sou de adamantium</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;- E quanto o senhor acha que isso sairia?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;- Hum... Deixe-me ver... Tira aqui, ajeita ali, puxa, repuxa... Hum...Duzentos e quarenta pesos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;- Du... du... zentos e quarenta pesos? Bom, eu esperava algo comocinqüenta. [leva a mão ao cabelo].&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;- Ah! Ah! Ah! Não.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Enquanto girava a chave entre meus dedos, impunha velocidade ao meuraciocínio tanto quanto podia, pois não queria que o alfaiate chileno lesse emminha alma a confusão moral que eu tão inesperadamente passei a infligir-me.Terminei por largar aquele vulto enorme e negro sobre seu balcão, sob a promessade que em quinze dias eu retornaria para pegá-lo. Livrava-me daquilo quehavia se tornado quase um corpo mumificado, a espera do Juízo Final, e com abolsa agora vazia seguia meu caminho. Tentaria não mais pensar no assunto, comose não pudesse haver volta, uma decisão cometida que de seus despojos apenas seocupariam os policiais por curiosidade e sem esperança. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;E, no entanto – o que fizeste! o que fizeste! -, mais cedo ou maistarde eu teria que ir ao sapateiro para que me consertasse a alça de minhabolsa, que estava rota e apresentava desde então uma atadura de barbante que euhavia improvisado. E quanto me cobraria dessa vez? Mais cem pesos? E não possoesquecer-me também da pulseira de meu relógio, que igualmente havia arrebentadoe tive que expender trinta e cinco pesos por uma nova. Tudo agora se me afiguratão caro e cansativo. Meus tênis, minhas roupas, tudo parece estar sedesfazendo sem que, contudo, possa eu dar uma solução satisfatória.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;De qualquer modo, não há mais jeito. Está enterrado. O peso da vidaque reclama ao meu mundo de sonhos suas necessidades inadiáveis arrasta-me emseu grande redemoinho sem fim. E o que farei? Chamar o alfaiate, o sapateiro, orelojoeiro e toda esses senhores para quem devo abrir minha carteira ou mostrarminha amabilidade e gratidão e convidá-los a dormir? E, assim, enrodilhados unssobre os outros, elevar-nos sobre o mundo até que na noite resplandeçamos comouma constelação distante e indistinguível (perguntar-se-ão, os que ficaram, oque seriam aquelas figuras, se carneiros, leões, cervos)?&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;Ah, não... Desta solução também estou cansado. Que revirem o quantoqueiram os panos de meus bolsos. Que arranquem e façam deles lenços, encantadoresatavios, que eu, tão insurgente quanto qualquer um deles, sairei pelas ruas arrastandomeu casaco de alta-costura e boas maneiras. E a população, pasmada ante minhaaparição repentina, como que descendendo por uma longa escadaria ao grandesalão, abanará seus grandes leques, tomada de grande calor e confusão, pois quenem a véspera de uma bancarrota foi capaz de fazer-me renunciar a esse belomundo de sonhos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6015767593474161435?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6015767593474161435/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6015767593474161435&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6015767593474161435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6015767593474161435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/11/sou-de-adamantium.html' title='Sou de adamantium'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-2000176822544825893</id><published>2011-11-06T02:23:00.005-02:00</published><updated>2011-11-06T02:30:23.142-02:00</updated><title type='text'>Grande Festa</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É com grande honra que venho por meio desta dizer que: bem-vindo ao mundo, &lt;a href="http://www.gabinetenove.blogspot.com/"&gt;novo blog&lt;/a&gt; (não é tão novo assim, mas...)!!!! Demorou - o quê - um ano, mas enfim posso dizer que está pronto. Já possui corpo, um nome definitivo e um estatuto de condomínio. Não pude fazer uma festa muito grande porque gastei todo o dinheiro do mês para comprar estes lindos sapatos cor de gema. Tia Claudette chegou mais cedo para ajudar-me a fazer os brigadeiros e fritar os salgadinhos. Convidei o porteiro, a Nastácia, a Zumira e a enfermeira que cuida dela. Tudo bem pobre, bem imigrante eslavo. Mas o que ele não tiver de dignidade, a gente preenche com alegria \o/\o/.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Gabinete 009 funciona como um apêndice ileocecal, servindo para desviar conteúdo do Roda Elegante para um canto mais humilde. Se você não gostar, poderá dirigir-se ao nosso balcão de reclamações, onde será delicadamente atendido pela Duquesa de Bâle, a qual vem passando atualmente por uma espécie de transtorno compulsivo por guarda-chuvas e botões coloridos.&amp;nbsp;Como todo blog, ele também tem seu post fundante, o qual pode ser acessado&lt;span class="Apple-style-span" style="text-align: -webkit-auto;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://gabinetenove.blogspot.com/2010/10/uma-grande-salva-vos-barbaros.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;. E tudo isso sem alarde, sem quebrar prato e sem arrendar minhas terras.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-2000176822544825893?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/2000176822544825893/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=2000176822544825893&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2000176822544825893'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2000176822544825893'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/11/grande-festa.html' title='Grande Festa'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-9036665890233270644</id><published>2011-11-04T05:21:00.002-02:00</published><updated>2011-11-30T18:55:08.041-02:00</updated><title type='text'>É que, no entanto</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Necessito de uma experiência culinária toda vez que uma idéia maligna me assalta. Hoje, eu faço flan. Amanhã, biscoitos amanteigados. E nem queiram saber no que eu estava pensando acaso me surpreendam assando um soufflé de queijo. Se é algo menor, insignificante para muitos, um simples brigadeiro será suficiente para acalmar esse senhor sombrio que desperta em meu íntimo. E assim por diante, numa razão entre o grau de imoralidade e a dificuldade na execução da receita.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Preciso (e apenas não uso o verbo no plural porque justamente desconheço meus semelhantes) de obras para acalmar-me, agitar energicamente as mãos e revolver o conteúdo das extremidades da panela. Ou, então, tendo os membros desimpedidos e a mente livre para que se desenvolva pelas sendas que bem entenda, estarei tentado a executar... o mal. Mas mesmo à boca - vejam só - é necessário impôr algum encargo, e, nesses momentos, surpreendo-me saindo pela janela a cumprimentar vizinhos que nunca vi, golpear violentamente suas portas e narrar-lhes o tempo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Porém, não deixa de ser tudo em vão. O corpo uma hora cansa, e falar levianamente apenas perturba mais a mente (se bem que alguns parecem encontrar nisso algo de encantador, o que, possivelmente é um mau sinal). E, então, sou obrigado a dirigir-me aos rastros à minha cama, espiritualmente esgotado pela sensação de inutilidade, pois sei que, assim que afrouxe a vigília, retornará; ele, o mal. Inicialmente arrastará suavemente as correntes pelos úmidos corredores, tornando-se mais violento a medida que se aproxime da porta. E, ao encontrá-la trancada, baterá, golpeará e chutará, até que enfim irrompa, olhando-me arfante e sedento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por isso, é que, por meio desta, venho aqui para encontrar uma solução que eu não encontro no silêncio (não que eu cogite que isso seja possível) e que não alcançaria nem que eu monologasse por séculos inteiros. Aliás, tão pouco pretendo encontrar em vocês, pois essa solução não pode ser dada por quem vivencia os mesmos problemas e, portanto, padece sob uma mesma condição. Atados aos mesmos vícios e usando os mesmos encanamentos, por que é que, então, dirigimos-nos uns aos outros com esses olhos indagantes?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É que - e então alguém me avisa aos cochichos - não somos exatamente iguais nem vivemos exatamente sob as mesmas condições, de modo que, nesse estreito espaço de intersecção e dispersão, da mesma maneira que confirmamos no outro algo que havia em nós, podemos encontrar o que é estranho. E a realidade é exatamente isso, um salão formado por aquilo que compartilho e por aquilo que me distancia dos demais. E se é assim, posso dar meia volta e retornar à minha proposta inicial, que era falar a respeito de eugenia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que deselegante, no entanto, o que me acomete agora, pois terei que deixar esse assunto de lado. Por outro lado, sintam-se poupados de ouvir palavras tão pouco sensatas e pouco afeitas ao convívio social. O que acontece e o que acontecerá parece-me tão inevitável e tão indiferente, que não tenho vontade mais de dizer que, por exemplo, a mim me assombra que alguém possa decidir, não apenas se alguém nasce ou não, mas como ela nascerá, sem que, contudo, deixe de maravilhar-me com isso e desejá-lo secretamente. Tão poucas coisas escapam de ser humanas, e agora nem mesmo ao seu próprio início permitir-se-ia. Como se o mal não fosse mau, e como se ser moral ou não fosse uma questão de conveniências e vaidades. Enfim, enfim. Adeus, e que morramos cedo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-9036665890233270644?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/9036665890233270644/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=9036665890233270644&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/9036665890233270644'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/9036665890233270644'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/11/e-que-no-entanto.html' title='É que, no entanto'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5934650591612276791</id><published>2011-10-28T01:17:00.002-02:00</published><updated>2011-10-28T02:18:40.031-02:00</updated><title type='text'>Enviado Especial</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Desde a primeira vez em que bati os olhos numa extensa lista de títulos usados pelo Grande Líder (devo chamá-lo assim?) da Coréia do Norte, Kim Jong Il - que pode ser livremente consultada &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_Kim_Jong-il's_titles"&gt;aqui&lt;/a&gt; -, tenho-me esforçado em forjar eu mesmo mais um título que agrade à Pessoa Suprema. No entanto, era com angústia que eu constatava que jamais poderia superar algo como Supremo Líder da Nação ou Grande Sol do Séc. XXI.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E passava tristes horas assim, frustrado, esperando o ônibus em um banco cinzento e aspirando fumaça de cigarros. Até que, ainda esta manhã, um pouco antes de eu dirigir-me aos salões brilhantes da comida coletiva, entregaram-me este panfletinho de MÉTODO BADRA: PARA ESTUDIAR MEJOR (ative sua inteligência, concentre-se melhor, potencie sua memória e leia muito mais rápido), o qual reproduzirei apenas no que me interessa:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"(...) Galardonado por la Academia de las Naciones con Distinción Académica Internacional de &lt;i&gt;Honored Fellow&lt;/i&gt; de la &lt;i&gt;Cámara Top de la Meritocracia&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Altas Esferas de la Humanidad&lt;/i&gt;) en carácter de &lt;i&gt;Máxima Jerarquía&lt;/i&gt;, declarándolo &lt;i&gt;Patricio de la Humanidad Solidaria&lt;/i&gt; del capítulo argentino (...)".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No começo, senti-me um pouco atordoado, e as palavras demoraram um pouco a fazerem-se ouvir em minha mente. Sem olhar a comida, e sequer notando dessa vez as maneiras aviltantes de meu colega ao lado, absorvia-me nesse enigma. Mas, então, entendi. E não importa quem e o que são todas essas instituições. Aprendi muitas coisas em tão pouco tempo e em tão poucas letras que me é difícil explicar-lhes - vocês, prisioneiros das sombras - esse sol que me ilumina e me cega.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Oh! Patrício da Humanidade Solidária! Oh! General da Máxima Hierarquia! Oh! Querido Líder, Aquele Que Descende das Altas Esferas da Humanidade! Jamais me esquecerei do dia em que, sentado diante de um prato frio de batatas com ervilhas, ecoou seu terrível nome pelas plagas etéreas de meu espírito. E como tremeram as ruínas de prístina saudade! E como eram distantes e fundos meus olhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Carlos Badra e tantos outros! E a faca escorregava ruidosamente pelo prato quase vazio. Criava toda uma extensão de verdejantes colinas onde estariam proibidos de pisar, onde suas expressões vulgares de satisfação pessoal seriam desonrosas. Planejava as medidas exatas de uma janela, e, através, contemplava todo um reino imerso em diáfana luz. Indagava-me, porém, se também não seria isso a que eu também aspirava. A vaidade e o orgulho que os alimentam seriam os mesmos que os meus? Ou eu teria outros fundamentos? E teria sido terrível reconhecer e desfazer o que com tanto afã eu beijei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, não, não quis encontrar resposta. Pois eu escolhi, ao invés, pela&amp;nbsp;extensão dessas colinas, plantar um bosque de pinheiros, sobre o qual, de quando em quando, eu relançasse uma vaga mirada desde o gabinete, cheio de paciência e distância. E é por isso que pude levantar-me quase purificado de meu assento, entregar a bandeja de comida e seguir com meus afazeres, orientado por uma diretriz de ação e pensamento muito distinta - assim julgo eu. E basta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela mesma razão, entrego a você, Kim Jong Il, esse título que encontrei e, de um delírio, quase me apoderei. E podem usá-lo sem que necessitem seqüestrar-me (as notícias de seqüestro de cidadãos japoneses mexeram comigo, tenho que confessar) ou render-me qualquer homenagem. Oh, não! Não quero suas homenagens assim como não quero constar em uma lista em que figurem os nomes de Carlos Badra e Augusto Cury.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5934650591612276791?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5934650591612276791/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5934650591612276791&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5934650591612276791'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5934650591612276791'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/10/desde-primeira-vez-em-que-bati-os-olhos.html' title='Enviado Especial'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8419442911003664324</id><published>2011-09-24T13:25:00.003-03:00</published><updated>2011-09-28T21:25:44.784-03:00</updated><title type='text'>Calma, é só exasperação</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As luvas que eu tenho são de lã sintética, de fios grossos, bem vagabundas. Comprei no Brasil, claro, sem saber que eu poderia ter arranjado luvas bem mais bonitas e que não dão a impressão de que minhas mãos estão inchadas. É difícil manejar qualquer objeto com elas: escorregam entre os dedos, perde-se a sensibilidade e a precisão dos movimentos. E foi assim que, revolvendo minha bolsa a procura de minha carteira para pagar pelos dois alfajores, acabei por assomar aos olhos do vendedor duas embalagens de chocolate que eu havia mantido ali e esquecido de jogá-las no lixo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora eu sou o maníaco dos chocolates. Sim, eu confesso. Tenho compulsão por chocolates, chego a andar quadras e mais quadras em sua busca, e passarei os dias sem eles senão com muita angústia e sofrimento. Acabou. Descobriram tudo e não adianta negar. Toda uma vida de aparências ruiu-se ante a comunidade inteira, e meus vícios, um a um, deslizaram da escuridão de minha bolsa para desfilar ridículos e tristes no balcão de uma loja de doces.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Deixei a nota de cinco pesos amassada e suja em suas mãos, e saí correndo em direção à rua, pálido e convulso, caminhando rapidamente em direção à minha casa, sem reparar nos caminhos tortuosos e confusos que tomava. Nesse ínterim, uma multidão de idéias soltas e sombrias atormentavam-me a mente, e teria lançado minha bolsa no primeiro contêiner de lixo se houvesse tido tempo para raciocinar. Desejava chegar o quanto antes sem, contudo, forçar o passo mais do que seria aceitável.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tirei o molho de chaves do bolso e enfiei a maior e mais dentada na fechadura, girando-a bruscamente e com rara precisão. Bati a porta atrás de mim, detendo-me de costas ao exterior. Estava petrificado e com as roupas empapadas de suor. "Ao amanhã" - eu pensei - "não reservo nada senão o crime: a prostituição de minha vida. Debaixo do viaduto mandá-la-ei em cosméticos caros vagar pela noite em busca de quem a queira tomar em seus braços pestilentos. E, com o dinheiro de sua corrupção, comprarei os olhos daquele vendedor".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, tive pena de minha vida, e não pude entregá-la ao mundo para que pagasse por meu processo de inocência. Então, abracei-a, coloquei-a dentro de minha bolsa como um pokémon e saí deslizando sobre patins pela ciclovia alta, cambaleando como um principiante. E os carros, logo abaixo de nós, passavam ligeiros sobre um asfalto feito de crimes, todos eles pendentes em processos enormes e carcomidos por insetos, amontoados em um cômodo escuro e sufocante de uma delegacia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8419442911003664324?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8419442911003664324/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8419442911003664324&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8419442911003664324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8419442911003664324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/09/as-luvas-que-eu-tenho-sao-de-la.html' title='Calma, é só exasperação'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3309913230538670021</id><published>2011-09-12T13:58:00.000-03:00</published><updated>2011-11-30T19:06:11.408-02:00</updated><title type='text'>Ifigênia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E eu pergunto: quem nunca teve vontade de perambular entre os corredores de uma biblioteca durante a noite, sem iluminação alguma? Ora, é o sonho de todos. E a Biblioteca San Martín vem a presentear-nos com essa tocante fantasia, convidando pequenos grupos a fazer excursões pela madrugada, em meio a atores que podem ser poetas, meros leitores notívagos ou heróis da independência argentina.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, nem todos estão preparados para agir em um ambiente assim. Por mais que eu tentasse, era impossível não me incomodar com a moça que disparava flashes na cara dos atores, relançando na escuridão a lembrança de que aquilo tudo não passava de mais um espetáculo dentre tantos na cidade. A cada flash era a mesma biblioteca de todos os dias que emergia das trevas. Ainda bem que não era pago, pois então o colapso teria sido total.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se eu pudesse voltar no tempo, tocaria de leve no ombro da moça, e lhe pediria gentilmente para que "Com licença". E tomaria a máquina fotográfica de suas mãos e jogaria com força contra o chão. Mal teria tempo de olhar seu rosto de espanto, rapidamente encoberto pelo breu da biblioteca. Eu venci, todos vencemos, um continente selvagem salvou-se e eras inteiras não seriam suficientes para redescobri-lo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para que se lhe explique que, às vezes, em situações assim, é necessário esquecer que, lá fora, há um mundo a esperar: pais, marido, filhos, colegas de trabalho. Explicar que essas paredes que defendo são muito mais frágeis do que qualquer parede de papel de um pavilhão japonês. O exterior ameaça-as a todo instante, é necessário um esforço enorme para concentrar-se e não se deixar arrastar pelos fachos de luz intermitentes dos carros. Não que o exterior também não seja constantemente ameaçado, também ele é frágil, mas a fantasia é muito mais.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bom, por enquanto, só posso sugerir que, ao invés de um grupo de doze pessoas, um grupo de, não sei, quatro. Ou, melhor, de apenas duas pessoas. Um único companheiro que sirva de garantia de que haverá um retorno ao mundo e de que não nos perderemos entre as estantes da biblioteca, permanentemente presos na escuridão.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3309913230538670021?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3309913230538670021/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3309913230538670021&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3309913230538670021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3309913230538670021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/09/eufigenia.html' title='Ifigênia'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8533160104674878050</id><published>2011-09-04T14:48:00.002-03:00</published><updated>2011-09-12T13:12:40.961-03:00</updated><title type='text'>Boneco de Olinda</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto caminhava pela Avenida San Martín, ocorreu-me lembrar que, uma vez, haviam me dito que os rapazes da minha antiga turma da faculdade tinham baixa estatura. E, eu mesmo, caminhando assim entre a gente e esses edifícios de portas colossais, dou-me conta que eu não era uma exceção. Mas eu acho é ótimo. Assim poderíamos juntar-nos e organizar uma compra coletiva em uma clínica e conseguir um desconto para que nos serrem os ossos das pernas. Eu, já estendido sobre o leito do hospital, empurraria toda a modéstia de minha escrivaninha para a lata de lixo e ordenaria de uma vez que me aumentassem trinta centímetros. "Mas, senhor..." - tentaria um doutor com uma prancheta nas mãos. "Não, por favor. Poupe-me de suas parolices médicas" - eu replicaria, levantando a mão e pondo eu mesmo o inalador.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E, assim, trinta centímetros mais alto, eu poderia desfilar novamente pela Avenida San Martín, dessa vez como um boneco de Olinda. E minhas pernas estendidas fincariam meus passos vacilantes, e eu oscilaria meu corpo de encontro às paredes e às pessoas que, caminhando ligeiras, tentariam ultrapassar-me o mais rápido possível.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não, por favor, não estiquem apenas minhas pernas. Serrem-me os ossos dos braços, estendam-nos também trinta, quarenta, cinqüenta centímetros. E dêem-me um chapéu para que eu possa tirá-lo e cumprimentar uma empregada assustada que varria o chão da sacada. E meu braço, no gesto de cortesia, mover-se-ia ameaçador como um pêndulo gigante em direção aos transeuntes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Porque essas calçadas, essas ruas, essa gente são herança que me reservam as cidades, e eu, boneco de Olinda, sou seu conde que vacila em pernas gigantes, arrastando minhas mãos por seus muros e arrebentando varais com roupas estendidas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8533160104674878050?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8533160104674878050/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8533160104674878050&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8533160104674878050'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8533160104674878050'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/09/boneco-de-olinda.html' title='Boneco de Olinda'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-4442272247912581208</id><published>2011-08-28T15:29:00.001-03:00</published><updated>2011-08-28T15:33:09.356-03:00</updated><title type='text'>Mate cocido</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por favor, diga que há bananas com chocolate na geladeira. Diga que há biscoitos recheados no armário e hambúrgueres no congelador. Nunca a comida foi tão fundamental para mim. E comer bem e gostoso, até que a razão, e não o estômago, o qual é invencível nesses dias de fome nostálgica, diga que devo parar. E recomeçar tudo de novo pela manhã seguinte, as refeições coloridas, os pratos finos e decorados. E não mais esse chá adocicado que eles bebem. É isso o mais próximo do chá inglês? Não, para mim ponha o chá de nossas matas sul-americanas, o chá sulcado pelas mãos dos bandeirantes. As folhas pisadas por botas, deixadas ao sol e esquecidas no afã de desfazer o acampamento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas, hoje, descobri seu nome. Adivinhei-o no cardápio, e nunca havia pensado que poderia vestir-se em nomes rústicos assim. Você é meu agora, tirei-o das mãos cafetinas daquela cafeteria de luz amarelada e feia. E fugirei com você, ainda essa tarde, em um ônibus amarelo, para as terras frias e desoladas do extremo sul. Comprei ponches, comprei livros de história para você. E eu os lerei em suas costas, gravarei esse perfume verde e bandoleiro em suas folhas. Fundaremos missões e ensinaremos os índios que restaram a tocar flauta. E você, mate cocido, incendiaria seus cabelos de pólvora e meus anos ancestrais, roubados de uma página de apostila escolar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-4442272247912581208?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/4442272247912581208/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=4442272247912581208&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4442272247912581208'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4442272247912581208'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/08/mate-cocido.html' title='Mate cocido'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8968930462300016071</id><published>2011-07-25T00:21:00.003-03:00</published><updated>2011-08-16T00:42:21.441-03:00</updated><title type='text'>Amor, pois que deveras venero</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu, que desprezava meus antepassados, sou forçado agora a reconhecer que são muito poderosos. Antes, eu pretendia que eu fosse um início totalmente desvinculado das gerações que me precediam. Eu queria existir como um esporo livre, inteiramente novo. Hoje, tenho consciência de que, não só é impossível que eu me desvincule de minhas causas, como não desejo mais essa separação. Afundo minha cara no charque de meus antepassados&amp;nbsp;a fim de que&amp;nbsp;minha existência prolongue-se e ramifique-se ao longo de décadas e &amp;nbsp;acontecimentos. Sou mais sólido e mais real assim, nessa perspectiva de rostos que se cruzam e se vão à minha revelia, caminhando por ruas paralelas e, por vezes, reencontrando-se em cruzamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora que já não sou mais um ponto morto, posso enfim acreditar na minha própria perpetuação. Até onde eu sei, na lógica desse pensamento, tenho que jamais deixarei de existir, e que, qualquer coisa que eu faça, repercutirá no futuro. Embora tudo o que eu disse seja intuitivo, só queria deixar que meus antepassados, por menor que seja a glória com que eu os vislumbre, são maiores do que eu, e que, em me ver relacionado em uma trama que se estende desde um remoto início, não posso pretender qualquer valoração absoluta sobre as demais existências, animadas ou inanimadas. Extraio daí todo um respeito sobre aquilo de que pouco sei, e, por isso mesmo, deve permanecer até que a razão me diga se devo modificar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois isso não me impede que eu seja um início, algo novo. Não sinto necessidade de desprezar aquilo que precede minhas ações e nem devo, mas, por outro lado, eu mesmo já sou um ponto de flexão e de modificação. Acho que, enquanto pertencente deste mundo de matéria, a possibilidade de compreender meu passado e nele alçar minhas causas é melhor do que se eu simplesmente o desconsiderasse e, por um efeito de abstração, lançasse-me no ar como um esporo, o qual, longe de ser especial, parece pouco diferenciar-se dos demais. Tal desprezo só alimentaria a perspectiva de ridículo, pois o conhecimento do que temos bem diante de nós é bastante frágil, e não é sábio destruir aquilo que não se compreende.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8968930462300016071?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8968930462300016071/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8968930462300016071&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8968930462300016071'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8968930462300016071'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/07/amor-pois-que-deveras-venero.html' title='Amor, pois que deveras venero'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1243985065577519954</id><published>2011-07-11T23:14:00.004-03:00</published><updated>2011-07-17T23:10:01.456-03:00</updated><title type='text'>Diário de uma paixão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando minha dentista disse - e eu interpretei o seu tom como cínico entusiasmo - que eu teria que usar aparelho para o resto de minha vida, eu quase acreditei. É claro que, para ela, não há nada nessa vida que substitua seus rigorosos instrumentos, e ela mesma mandaria toda sua técnica em forma de ondas através do espaço sideral. A ditadura do aparelho se instalaria. As crianças seriam condicionadas a venerá-lo e a temê-lo. O aparelho seria objeto de culto, todos as manifestações girariam ao seu redor. Por toda a minha vida. Antes eu achava que era uma sentença de condenação, mas não era isso, ou pelo menos não só isso. Era a importância e devoção de seu trabalho triunfando.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Certa vez, um advogado, em semelhante atitude, explicou para mim, e Deus sabe como me era difícil fingir interesse, que o Direito deveria ser lecionado em todos os cursos superiores. Na verdade, todos deveriam saber Direito. Isso lhes abriria em muito a compreensão do mundo. Evidentemente. Mas hoje eu respondo que qualquer outro ramo enriqueceria igualmente suas vidas. Eu mesmo deveria saber muito mais de informática e de engenharia elétrica, pois isso facilitaria muito o meu cotidiano. Botânica, sociologia, psicologia, gramática, todos pretendendo um monopólio de importância. Bom, na verdade, devo confessar que os ramos que geralmente fazem isso pertencem à área de humanas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Claro que aparelho ortodôntico e processo civil são coisas importantes para a vida de qualquer cidadão. Não estou negando isso. Claro que não. Não sou eu. É toda uma dinâmica ao redor deles que contradizem o triunfo da dentista histérica que gritava com suas funcionárias em público. Eu olho à minha volto e só vejo significâncias e importâncias. Ai - você suspira -, vou espalhar essas verdades achadas na calçada suja, envolver a todos em meu ideal precipitado, essa compreensão quase infinita de sentimentos bem guardados debaixo do braço. Mas então eu levo um tapa na cara e um galho despenca em cima do meu carro, que é para me mostrar que tudo é, na verdade, insignificante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu, ao meu turno, soluciono esse problema com a simples crença de que nada é tão importante que mereça a glória. Pode-se acreditar, quando se toma um objeto isolado, que, isolando-o e fazendo-o girar lentamente na sua mente num vazio ideal, ele é o próprio umbigo do mundo. Porém, eu prefiro basear toda a minha conduta na idéia de que todas as coisas existem da mesma forma e que, por isso, não possuem graus de hierarquia entre si. É nesse sentido que uma casa é feliz da mesma forma que uma pessoa é. Mas óbvio que essa crença desenvolvida aqui igualmente é uma &amp;nbsp;dentre tantas coisas, e, por isso mesmo, ausente de qualquer significado quando isolada. Risos, pois agora eu tornei todo esse texto desnecessário. Com licença, senhores, que agora tentarei salvá-lo de sua autodestruição.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1243985065577519954?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1243985065577519954/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1243985065577519954&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1243985065577519954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1243985065577519954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/07/diario-de-uma-paixao.html' title='Diário de uma paixão'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3077416628889136496</id><published>2011-07-03T22:29:00.004-03:00</published><updated>2011-07-03T22:43:00.565-03:00</updated><title type='text'>Comandante, estamos sem</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Caro comandante, nossa nave encontra-se sem. Sem tudo. Sugiro um pouso forçado nas terras de exílio. Seus tripulantes tiveram que, pelo bem de todos, comer todo o suprimento de combustível. Muitos que passaram mal, alguns que morreram e tantos outros que ainda sofrem de males dos quais os médicos apenas comentam, mas nada fazem. Sugiro, comandante, que estacionemos no planeta mais próximo por um ano e talvez um pouco mais. Nesse tempo, plantaríamos aquilo de que precisássemos, estocaríamos água e renovaríamos nosso oxigênio. Uma segunda alternativa é, certamente, possível, mas creio que os danos não compensariam os proveitos. Teríamos que... usar alguns tripulantes como combustível. Uma pequena parcela, uma razão de 10% da população da nave. Os cachorros igualmente poderiam servir de comida. Nossos troféus, as medalhas, diplomas e certificados também poderiam ser usados para alimentar as fornalhas. Espero, contudo, não precisar explicar as implicações óbvias de uma medida assim. Na verdade, comandante, estamos assumindo o controle, e qualquer decisão que já tenha tomado terá que passar por nosso parecer. Na verdade comandante, estamos atando suas mãos e pernas, e dentro em breve seu corpo será ejetado para o espaço. A decisão é nossa e não mais sua. Seus serviços prestados foram muitos, e somos muito gratos por isso. Trabalhou e sofreu talvez mais do que nós. Mas a outorga concedida está por nós agora revogada. Aproveite esse novo período de vida para descansar, apreciar novas paisagens. Vá em paz, comandante. Pousaremos a nave e viveremos da agricultura de subsistência. Depois construiremos templos, mercados, faremos comércio com outros povos, ergueremos estátuas de nossos mais importantes membros e faremos poemas de nossos anseios. Somos muitos agora e vamos destruir as riquezas naturais de nosso habitat. Desrespeitaremos os autóctones, seus costumes, imporemos nossa língua e nossa religião. Teremos escravos, nossas cidades serão imensas e as criaturas homogêneas. O tédio dominará nossos corações, ficaremos insensíveis aos demais seres vivos. Então, quando tudo houver terminado, partiremos. Comandante, não sei como demoramos tanto!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3077416628889136496?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3077416628889136496/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3077416628889136496&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3077416628889136496'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3077416628889136496'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/07/comandante-estamos-sem.html' title='Comandante, estamos sem'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5953291029662087237</id><published>2011-06-24T00:03:00.002-03:00</published><updated>2011-07-03T22:50:15.569-03:00</updated><title type='text'>Conta com vontade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vou dizer uma coisa que me fascina. Não, vou dizer uma coisa que me faz ser brilhante. Isso mesmo. Aquela mania peculiar que todo ser humano, um belo dia, num encontro em patamares superiores de civilização, descobre para si e faz hastear no mastro. Então ele se dependura na beirada de sua gávea e faz assim com as mãos, como quem olha o horizonte e muito mais além. E todos lá embaixo, personagens coadjuvantes por um instante fugaz, contemplam o misterioso observador, boquiabertos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não, não adianta dizer. Eu sei o quanto isso me torna especial. A minha especialidade, inclusive, eu suspendi num anzol, e sei que todos os peixes do mundo virão fisgá-lo. Amarão tanto quanto eu, e isso nem é meu coração que diz, mas minha sagacidade humana, a qual tão sabiamente eu surpreendo pilotando um automóvel desgovernado numa metrópole sem vias. Daí, sim, eu posso dizer que aquilo que me torna especial é surpresa igualmente nos corações alheios.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas não pode ser anseio, porque o anseio é algo bem mais íntimo, e é bom que os demais desejem de uma forma totalmente diferente da minha. Essa força motora não se põe no mostruário juntamente com seu objeto. O afã, que está por trás daquilo que suponho ser admirado pelos outros, não dá sua cara. Quem gosta de mostrar sua intensidade já é outra coisa, é exibicionismo, como quem beija os músculos, e provavelmente sequer desconfia quão fútil e desinteressante é essa força perante os demais.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5953291029662087237?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5953291029662087237/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5953291029662087237&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5953291029662087237'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5953291029662087237'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/06/conta-com-vontade.html' title='Conta com vontade'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5484015117018592851</id><published>2011-06-11T16:45:00.078-03:00</published><updated>2011-06-15T22:35:41.448-03:00</updated><title type='text'>Calmaria, com quem combates</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Como foi o banho, senhor?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Oh, maravilhoso! Mandarei construir uma réplica de seu banheiro em meu quarto!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Despedi-me na porta, deslizando para fora antes mesmo que a houvesse aberto totalmente. Tinha permanecido pouco tempo dentro do box, não esfregara os cabelos e nem atrás das orelhas, apenas deixara-me estar debaixo da água quente, incomodado com aquela posição forçada em pé. Havia trazido meus sais de banho, porém não havia banheira, o que motivou minha saída afoita, fazendo-me esquecer o relógio no ralo da pia. Alfredo ainda permaneceu na soleira, acompanhando-me com o olhar, as mãos nos bolsos, talvez desconfiado. Emprestara-me o banheiro por aquela noite, deveras, e certamente eu deveria retribuir o favor. Mas com o quê? Um presente. Um lindo chapéu de bruxo, encimado com plumas de corvo. Não, sua esposa detestaria. Talvez, então... Cerâmica! Todos adoram, enfeita a casa, põem-se flores, as crianças derrubam, há de se criar encantadoras epopéias em seu entorno. Um belo presente, um belo presente... Virei a esquina e comecei a subir para casa, os postes pouco iluminando a via. Era noite, pessoas já haviam voltado do trabalho, as ruas, enfim, pouco a pouco se esvaziavam.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O calor do banho logo ia se desfazendo de minha pele conforme eu atravessava o ar frio. Murchei as orelhas e me cerrei mais perto de meu casaco, o qual se estirava levemente para trás com os passos rápidos, embora trêmulos e incertos em minha ineficiência em reter o calor interno. Mais dez minutos apenas e logo estaria em casa, ao abrigo do aquecedor. Um pouco mais de convicção e num instante todo o frio se findaria desde a soleira de meu lar. Margot poria mais carvão nas fornalhas, e toda a casa se levantaria em meio aos vapores quentes e macios. Essa amálgama orgânica de folhas e umidade sobre a qual pisava abandonaria meus sapatos, e um brando sopor acolheria meus pés, agora gelados e rijos como tábuas. Minha casa ficava realmente muito perto da de Alfredo, e, embora eu habitasse a parte superior da colina, não via nisso qualquer relação de superioridade, da mesma forma que não me sinto inferior aos seres que habitam a Lua. Meus pensamentos alongavam-se, a calmaria abatia-se sobre a noite e nem mesmo o vento agitava a neblina que se formara.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já no segundo quarteirão, no entanto, o calmo silêncio que me acompanhava parecia esmaecer-se aos poucos, e, agora, era possível ouvir o ruflar das asas dos morcegos, encapuzados em seu negrume, sobrevoando a poucos metros do chão. Parece mais frio agora, eu me espantei. A altitude é um fator determinante da temperatura, mas isso não é suficiente, não explica, e deve-se, certamente ao fato de que o banho não foi quente o bastante, eu calculava. Ao longe, um longo silvo deslizava por sobre as copas, um chamado soturno estendendo-se juntamente com as névoas, enrolando-se em volutas ao redor de minhas pernas, de minha cintura. Qualquer outro já teria visto nisso terrível presságio. Eu, porém, nunca dera importância a fantasias. Que bobagem, eu pensei. Isso é o que dá conviver com gente inferior. Isso me faz lembrar tia Rita e seus vaticínios, que, no máximo, eram versos graciosos, embora por vezes macabros. Genaro, igualmente, com seus corvos e sua corujas, abutres e negros cães. Jamais pensaria em extrair qualquer fundo de verdade de suas repetitivas histórias. Monstros, bruxas, todos macaqueiam a troco de nada. Não fazem sentido senão para entreter tolos e crianças, eu repetia. O silvo, então, foi-se apagando, diminuindo, até que cessou, incógnito tal qual havia surgido. Nem mesmo os morcegos voltaram a esvoaçar acima de minha cabeça. O frio, porém, parecia cada vez mais intenso. Acalmei-me, ervilhas fresquinhas haviam de me esperar, Dona Ana ligaria o rádio e Cláudio Eleonor passaria meu terno.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, mal havia se instalado o silêncio, o silvo voltava a tocar, bruxuleando desta vez pelas minhas costas, fatal e misterioso. Olhei para trás, receoso. Um vulto moveu-se rápido detrás de um tronco ao outro, pálido. Não lhe pude adivinhar a matéria, talvez... Minhas espinhas eriçaram-se, mas não me dignei a relançar qualquer olhar em sua direção. Continuei caminhando, dessa vez mais rápido, sem me importar com o frio. Mera impressão, certamente, eu divagava, respirando de modo acelerado e já empunhando o guarda-chuva à minha frente. Homem-pássaro, fantasma, vampiro, todos eles têm de alguma forma aparecer primeiro para só então atacar, não é? Nenhum protagonista é vítima do nada. Isso só acontece com os outros personagens, e essa voz íntima é prova de que o que acontecerá comigo de algum modo revelará antes seu semblante. Tentei me tranqüilizar, imaginando iniciar mais um plano para pôr-me em forma assim que chegasse. A escuridão, contudo, me envolvia cada vez mais profundamente, enquanto a umidade das árvores e todo o resto iam se perdendo distantes além da neblina. É noite como qualquer outra noite, e tendo eu saído, retornarei tal como sempre fiz, eu dizia. Arcanos, eu murmurei, não esvoaçam em uma simples noite de banho. Nada, no entanto, mexia-se.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De repente, um insólito peso improvisou-se sobre a minha coluna, fazendo-me tombar sobre o chão, e, embora sua dureza e realidade mostrassem-se a mim com a dor, minha mente consumia-se atônita em espirais de terror e incompreensão. Caído sobre as folhas úmidas, senti um forte cheiro pútrido, exalando de todos os lados. Um fraco sussurro jazia em meus lábios e meu corpo tremia arfante. Em pânico, girei o corpo para cima, meus olhos desesperados por enxergar o motivo, mas, diluídos no ataque, nada viam e nada percebiam, a não ser as névoas e o frio quase material ao meu redor. Não era possível, eu pensava. Talvez tenha sido um galho, ou um animal grande... como um cavalo. Despencando de alguma árvore? Não faz sent... Foi então que senti algo envolvendo-me os tornozelos, gélido como o ar das catacumbas. Olhei então para baixo e vi. Um esqueleto agarrava-se a mim, os ossos brancos e reluzentes, a olhar-me de suas órbitas vazias e a entreabrir seu maxilar sem que som algum proferisse. Aproximava-se, acendendo-se sobre mim, enquanto meus músculos esmoreciam com o medo. Como em um sonho ruim, ao meu redor a paisagem ruía, meus membros não obedeciam e as árvores ao redor eram sombras cúmplices.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Larga-me, larga-me - eu repetia, roufenho, indefeso. Sua caveira, no entanto, impassível, tremeluzia de um fúnebre alvor. Arrastando-se sobre mim, deitou sequiosa uma de suas garras sobre meu peito, e, com a outra, envolveu-me o pescoço, possuindo-o em suas descarnadas falanges. Sequer me debati. Meu cérebro sufocava e meus pulmões padeciam de um inane desespero. A caveira aproximou suas órbitas de meus pasmados olhos, assomando sua estranha face em sombrio plenilúnio, a desfazer-me os sonhos e as horas presentes. Um vago estrídulo começou a ecoar em meu crânio, o mesmo silvo que havia ouvido antes, mas agora vindo de dentro. Como um esquecido sentimento, um passado inteiro a pungir-me o corpo, o terrível grito inumano perseguia-me nos mais esconsos recantos de minha alma. Abismos inteiros, crateras, mundos outrora habitados, mas agora em completa desolação, saltavam e giravam em convulsos vórtices. “Dá-me, dá-me!”, eu ouvia murmurar-se em minha mente. A despeito do frio, minhas vestes encharcavam-se de suor. Sentia suas costelas deslizando por sobre mim, arrefecendo-me qualquer esperança, suas mãos agora pressionando forte meu pescoço e meu peito. “Arranca-o e dá-me, arranca-o e dá-me”, dizia a voz, febril. A caveira aproximou-se, então, ainda mais, e meus olhos cerraram-se e meu coração desfaleceu, sucumbido sob a terrível mortalha de ossos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acordei na manhã seguinte, estendido sobre a calçada. Tênues raios de luz chegavam-me à face, e todo um cansaço dominava meus membros. De início, nada entendi. Lembrava-me somente de ter me dirigido a minha casa após ter tomado banho. Depois disso, apenas névoas, um silvo e uma espécie de sonho, um pesadelo ruim. Levantei o tronco, procurando nos bolsos minha carteira, minhas chaves - sabe Deus o que poderiam ter feito comigo naquele estado. Ao deslizar, porém, minha mão, notei que havia um rasgo no casaco, na altura do coração. O pano encontrava-se todo esgarçado, e a lembrança daquela noite voltou. O silvo, a caveira, a dor. Então não era um sonho. Levantei a camisa, tomado de pavor, apalpando minhas costelas, meu esterno, algum indício. Nada. Não havia qualquer sinal de violência, nenhum arranhão, nenhum sangue manchava as vestimentas. Agora, no entanto, tudo retornava. O sentir de suas mãos esqueléticas sobre o meu peito, apertando-me o pescoço, infligia-se novamente sobre mim, como se sua presença não houvesse desaparecido com a chegada do dia. O que teria sido aquilo? Como era possível? Que sortilégio? Talvez Alfredo... Sim, eu pensava. Ele teria entendido a fina ironia em minhas palavras e decidiu vingar-se mandando um esqueleto e... Bom, certamente que não.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pus-me de pé, ainda um tanto trêmulo, absolutamente confuso e um tanto terrificado. A aurora já despontava no horizonte, e nenhuma neblina mais turvava minha visão. Certifiquei-me o pulso. Ainda havia um coração, certamente. Pensará que é bobagem minha, porém era o que parecia tão convulsivamente querer extrair. Até então nunca havia ouvido falar de nenhum relato a respeito de esqueletos que atacavam transeuntes durante a noite, e bem que poderia não ter passado de um devaneio. A sensação, no entanto, perdurava, e mesmo agora não estou certo se de fato me livrei de seu terrível peso, ou se, em sempre o trazendo, acostumei-me a ele. De qualquer modo, é uma rua que evito desde então, e hoje mesmo, ao ir comprar pastéis - e eu adoro pastéis -, utilizei um trecho bem mais longo, tamanho o medo, a terrível lembrança e esse peso que não cessa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5484015117018592851?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5484015117018592851/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5484015117018592851&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5484015117018592851'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5484015117018592851'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/06/calmaria-com-quem-combates.html' title='Calmaria, com quem combates'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5145570577513390150</id><published>2011-06-03T19:21:00.040-03:00</published><updated>2011-06-05T15:21:34.691-03:00</updated><title type='text'>Humano com peruca cai</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-1EzZDvtQlDE/Teld50CJHzI/AAAAAAAAAMc/zB43oH5tPVo/s1600/Humano+com+peruca.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://2.bp.blogspot.com/-1EzZDvtQlDE/Teld50CJHzI/AAAAAAAAAMc/zB43oH5tPVo/s320/Humano+com+peruca.jpg" width="261" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sei que parecerá absurdo, mas eu já quis ser humano. Não é tão divertido quanto dizem, com exceção dos patins. Adotei-os para a minha vida em definitivo. E as perucas. Ah, sim, as perucas... Mas, como eu estava dizendo, em querer ser humano, tornei-me insaciável. Não, não falo de cartões de crédito. É outra coisa. Eu queria ser mais do que um humano, queria poder mais do que eu podia, significar mais do que eu conseguia suportar. De meu quarto, centrifugado em meio aos lençóis, sonhos estranhos atormentavam o que devia ser a minha alma. Eu passava horas olhando pela janela, tentando abarcar todo o horizonte de edifícios com uma única pretensão, um único estigma. Um dia, inevitável como eu só agora posso assim dizer, sombras intermináveis atravessaram minhas órbitas, espalhando a loucura pela cidade, empalhando desertores ao longo das avenidas, seus fantasmas de idéias e suas vaidades. Então, quando toda a cidade restou rendida perante meus pés, resolvi que era hora de parar. Liguei os propulsores e parti. Anos de terapia com nossos melhores médicos não seriam suficientes. De manhã, ainda sou capaz de senti-la, interminável, em eterno abismo, agitando-se de entre minhas costelas, meu esôfago. Quando pergunto se podem retirá-la, eles não entendem, respondem que não há nada. Então me levanto e sacudo meus maxilares frouxos. Saio pelo portal e arrasto-me em palidez pelas imediações do palácio, vagando, intransponível em palavras e anseios. E sempre com ela que, temo, nunca me abandonará.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5145570577513390150?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5145570577513390150/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5145570577513390150&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5145570577513390150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5145570577513390150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/06/humano-com-peruca-cai.html' title='Humano com peruca cai'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-1EzZDvtQlDE/Teld50CJHzI/AAAAAAAAAMc/zB43oH5tPVo/s72-c/Humano+com+peruca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1055580871450760928</id><published>2011-05-28T12:20:00.001-03:00</published><updated>2011-05-28T13:42:45.068-03:00</updated><title type='text'>"Antes te houvesse roto na batalha"</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Porque é assim: espero meses pela resposta, em dúvidas agonizantes, vendo brumas em meu destino, a cada momento checando a caixa de correio, que quando finalmente chega, já não há surpresa nem ansiedade que me prema o peito. Se sequer houvesse chegado, acho que nem me importaria. Respostas tardias não adiantam de nada&amp;nbsp;-&amp;nbsp;talvez de consolo em saber que não fui ignorado. Mas, mesmo assim, só é consolo se de alguma forma ainda se espera pela resposta. Quando nem isso, é só um "&lt;a href="http://dejalit.blogspot.com/2010/10/sobre-supersticoes.html"&gt;humpf&lt;/a&gt;" que me resta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De qualquer forma, ali está a água, ali na terceira porta do armário está o alpiste. Alimente esse corvo cansado que me entregou a resposta e deixe que parta. Para essa terra misteriosa de negras torres e vazios guardiões, que talvez seja o limbo, no fim do mundo, onde de tudo se esquece, até mesmo do cansaço. Onde a sua carta tremula desolada presa nos galhos secos de uma árvore morta, e onde seres encapuzados caminham em silêncio pela amurada, sem anseios e sem qualquer interesse pelo horizonte que os espreita.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1055580871450760928?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1055580871450760928/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1055580871450760928&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1055580871450760928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1055580871450760928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/05/antes-te-houvesse-roto-na-batalha.html' title='&quot;Antes te houvesse roto na batalha&quot;'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-4940462635539503223</id><published>2011-05-23T22:20:00.006-03:00</published><updated>2011-05-23T22:32:33.371-03:00</updated><title type='text'>Venham, venham ver</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No episódio de hoje (levando-se em conta que, para o bem ou para o mal, eu vivo no Brasil), Sheldon Cooper lançou o seguinte problema:&lt;/div&gt;&lt;ol&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em um contrato entre duas pessoas, que chamaremos singelamente apenas para fins didáticos de A e B, B propõe a seguinte cláusula, que deverá ser necessariamente avaliada por ambos antes de encerrado o contrato: "em havendo&amp;nbsp;desacordo entre A e B, de modo que um diga "sim" e outro "não", B decidirá como instância última;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sendo assim, A, analisando essa cláusula, diz que não concorda. B, ao seu turno, diz que concorda. Desta forma, temos um empate: B diz sim à cláusula e A diz não;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tendo havido empate, B, então, assume a posição, conforme&amp;nbsp;a cláusula descrita, de árbitro, e decide por sim.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em decorrência disso, a cláusula é validada e regerá todo o restante do contrato. Basicamente, temos que a única vontade válida é de B.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ol&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acho que, procedendo dessa maneira, a falta de lógica do problema fica bastante evidente. Porém, em defesa de Sheldon Cooper, eu alego que isso só prova que ele é tão humano quanto os demais, não porque seu raciocínio falhou, mas simplesmente porque ele apenas é ilógico quando o interessa ser. Nos demais casos, é infalível e imparcial (talvez atue em defesa do Universo como um todo indissociável, ainda não sabemos).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E é assim que eu salvo a série e dou-me permissão para divertir-me com ela. Não porque eu saiba identificar erros propositais de Sheldon Cooper, nem porque eu digo sim para tudo o que ele faz, mas porque me interessa interpretar dessa forma, e assim vou vivendo. Por exemplo, David Bowie pode fingir dar um chute no traseiro de seu guitarrista que eu tolero. Há todo um contexto ao seu redor que será necessário ele dar muitos chutes para destruir a imagem que faço dele. O que não significa que eu ache essa atitude digna, mas simplesmente porque: todo mundo erra, comete gafes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas talvez ele possa fazer muitas outras bobagens que eu não me importarei. Tudo isso, gostar e não gostar&amp;nbsp;é bastante arbitrário. Nem cotas as pessoas têm: mesmo que a barrinha de vergonha delas extravase, nossos motivos são unidades absolutas, e não funcionam com regras de aritmética. Não é possível subtrair nem somar pontos, e não deixarão de existir enquanto houver razão de ser que os sustente. Eu sei muito bem os motivos que me levam a gostar de Sheldon Cooper, e estão tão dissociados do quão não-engraçado sejam suas piadas que não me importarei.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-4940462635539503223?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/4940462635539503223/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=4940462635539503223&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4940462635539503223'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4940462635539503223'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/05/venham-venham-ver.html' title='Venham, venham ver'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-9122389692241415360</id><published>2011-05-13T20:39:00.004-03:00</published><updated>2011-05-13T20:40:06.011-03:00</updated><title type='text'>Albatroz visitante</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi assim que tudo começou. Ele veio se debatendo na nossa janela. Era um dia frio e tempestuoso. O mar estava agitado, as ondas chegavam a vários metros de altura e alguns barcos morriam despedaçados. "Um albatroz!", gritou Durvalina. Fraco, desengonçado, o mal tempo fizera ruína de suas asas. Abrimos a janela e ele entrou, desesperado. "Comam-me, vim do céu", foram suas últimas palavras. Seu corpo desabava no chão da cozinha. Cortamos a sua carne em cubos. Pusemos pimentões, batatas e cebola. Fervemos tudo até engrossar o caldo. O relógio soava meia-noite e os pratos fumegavam em cima da mesa. Foi a sopa mais gostosa que já havíamos tomado.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-9122389692241415360?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/9122389692241415360/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=9122389692241415360&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/9122389692241415360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/9122389692241415360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/05/albatroz-visitante.html' title='Albatroz visitante'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-2773475055817147333</id><published>2011-05-13T20:38:00.000-03:00</published><updated>2011-05-13T20:38:46.645-03:00</updated><title type='text'>Presépio</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Voltando para casa em meu carro-forte, de volta ao meu sobrado geminado, parei na loja para escolher os personagens de meu presépio. Todos teriam um lugar na história, inclusive eu, que não gostava de luzes. O seu papel seria o dos Reis Magos, indissociáveis em sua busca. Perdidos na estação rodoviária, mendigando informações a respeito dos portões de embarque para que uma a uma fossem formando o caminho. E uma vez de bilhetes nas mãos, partiriam, cegos e seguros. Jurando, porém, que a sua longa jornada era na verdade a sua própria busca, se dispersariam no meio do caminho, distribuindo olhares pelas vitrines, pelas escadas rolantes, pelas praças de alimentação, até que, um dia, se cansassem de seu desejo. E eu, já elencado em um cenário brejeiro e religioso, apagar-me-ia sob o monte de feno enquanto os Reis Magos,já sem suas posses e já sem suas iniciais vestimentas, confundiam-se à multidão, sem elo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No entanto, não conseguia vislumbrar mais ninguém para os papéis restantes, nem mesmo um para mim. Na verdade, o elenco já estava completo. Acabei saindo da loja com apenas três bonequinhos. O presépio ficaria, assim, vazio, de modo que, quando enfim chegassem os Reis Magos, não encontrariam ninguém na manjedoura. Um preço que teriam que necessariamente pagar. Plantando, assim, a ilusão em seus peitos, eu dava-lhes cordas para que buscassem até que o mundo se acabasse. Confesso que a mim próprio causava-me estranheza, e, dirigindo absorto, não percebia que me perdia pelas ruas, cruzando semáforos sem olhar e assustando pedestres carregados de sacolas. "Quantos sapatos vermelhos você tinha que comprar?", eu gritei pela janela. Seria realmente excêntrico.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mesmo assim montei o presépio na sala. Abri uma garrafa de champagne e esperei. No relógio, os ponteiros marcaram meia-noite em ponto, e, mesmo sem badalo, soou a noite. Abri a escotilha do porão e busquei mais provisões de vinho e pão. Não sabia quantos magos seriam, nem se sendo três reis magos não seriam na verdade já seis. Desabotoei o casaco que eu sempre quis ter e sentei. Enquanto esperava, fiz de mim peru assado, mingau de ervilha, arroz temperado. Tudo o que eu imaginava que alguém pudesse gostar. Deitei na manjedoura e cochilei. Se eu não conseguisse acordar, os convidados tocariam a campanhia e ninguém viria lhes abrir a porta. Ninguém comeria o jantar e ninguém entregaria os presentes. Pelas janelas fehadas do sobrado veriam que as luzes estavam apagadas e assim iriam embora. Era um risco que eu corria.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas era no ponto de ônibus que eu me encontrava, sozinho, olhando para um cachorro vagabundo que se abrigava debaixo de uma marquise. O presépio emudecia, vazio, no canto da sala, sobre o aparador. O que existia era a espera do último ônibus do dia. Fechei a jaqueta de tactel para mais perto do corpo, pois que fazia frio. Meu tênis impermeável não podia, contudo, evitar que a chuva molhasse o cano da meia que a barra curta das calças expunha. Os Reis Magos eu já tinha, embrulhados no fundo dos meus bolsos, e eu faria de tudo para que chegassem ao seu destino. Ao cobrador do ônibus ofereceria a minha alma e o meus antepassados. E se isso não funcionasse, lhe daria o relógio de pulso. E se não houvesse a trajetória, seria necessário entregar os próprios Reis Magos. Mas então de nada adiantaria chegar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entrei no ônibus, arrastando os calçados úmidos pelo chão metálico como se patinasse. Tentei abrir a janela, mas estava trancada, e embora eu tentasse desembaçar o vidro, conforme avançávamos, menos podia ver lá fora. Sentei os Três Reis Magos nos bancos da frente e um ao meu lado. Perguntei a um deles se esse era mesmo o ônibus certo, pois eu não conseguia ver o caminho. "Disfarça", ele disse, "que tem gente olhando pra você". Achei deveras tolo, pois no ônibus não havia quase ninguém, e, estando as luzes apagadas, não haveria como me reconhecer. "Presta atenção você", retruquei, "que da última vez você não conseguiu achar nem o endereço. E vê se faz bonito, porque não vai ter ninguém lá para lhe corrigir". E, de fato, quando enfim chegássemos, não haveria ninguém no presépio esperando.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-2773475055817147333?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/2773475055817147333/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=2773475055817147333&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2773475055817147333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2773475055817147333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/05/presepio.html' title='Presépio'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1583836929851366237</id><published>2011-05-09T23:37:00.001-03:00</published><updated>2011-05-09T23:54:32.438-03:00</updated><title type='text'>Desertor porque desertor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Algumas situações me pegam pelo braço com a força de quem quer me ver famoso, fazendo sucesso como um&amp;nbsp;artista de filme americano. Há outras, porém, que igualmente me pegam pelo braço. Sim, mas é para arrastar-me ao armário de limpeza, confundindo o meu &lt;em&gt;lindo&lt;/em&gt; terno amarelo com pregas que&amp;nbsp;o meu alfaiate&amp;nbsp;levou&amp;nbsp;&lt;em&gt;semanas&lt;/em&gt; fazendo com o uniforme de algum agente da faxina; ou simplesmente&amp;nbsp;porque eu estava parecendo um esfregão. Essa coisa de vestir peruca com tiras de pano retangulares e andar como se estivesse com as juntas das pernas imobilizadas; não funciona, como empiricamente comprovei.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu não sirvo para o papel de quem distribui o bolo. Eu nasci para comentar mal do bolo e fazer beicinho com o copo, para ornar a samambaia com os meus braços e jogar-me no chão aos berros: "Derrubaram suco na toalha! E molho também!". Meu coração se fatia quando é obrigado a&amp;nbsp;dar sem amor verdadeiro. Eu digo para ele: "Coração, não se estrangule, não se mate". Mas ele está muito além de mim, e inevitavelmente se suicida para o escândalo dos demais órgãos vitais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando me pediram para que eu distribuísse os copinhos de refrigerante tive vontade de ser a Shadowcat e ir-me lentamente afundando pelo chão até o térreo. Mas, como a gente é gente, e como tal nos sujeitamos a leis físicas e morais que não controlamos, tive de aceitar o encargo e comecei a distribuir. Após o quarto copinho,&amp;nbsp;já estava com&amp;nbsp;vontade de entorná-lo no conviva. Sinceramente, o refrigerante estava ali, sem zona de proibição ou de segurança, sem alarmes e atiradores de elite. Quem quisesse que atingisse a autonomia de pegar. Saí de fininho e não voltei, para longe desses seres prestativos e nocivos ao meu espírito.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por quê? Porque o Murilo é um moço excelente que descobriu muito cedo que existe o &lt;em&gt;nosso&lt;/em&gt; mundo e esse mundinho aí no qual vocês vivem.&amp;nbsp;E lutou bastante para conseguir passar para o lado de cá. E passou. Porque o Murilo não é moço de ficar distribuindo bolinho, copinho de refrigerante... Nasci para ser uma ponte, um rio e só, enrolado em zibelina e fazendo barquinhos de dinheiro. Quanto ao resto, que se limite a&amp;nbsp; pagar o meu táxi, ou, se preferir, a minha passagem de ônibus, que não sou assim tão ruim que não consiga sustentar ares de paciência e benignidade.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1583836929851366237?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1583836929851366237/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1583836929851366237&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1583836929851366237'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1583836929851366237'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/05/desertor-porque-desertor.html' title='Desertor porque desertor'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3031475814094388426</id><published>2011-05-05T22:25:00.010-03:00</published><updated>2011-05-05T23:30:55.599-03:00</updated><title type='text'>Eu vos apresent... Ei!</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-qSKBaMbFp3E/TcNdQU22sfI/AAAAAAAAAMY/T5tz1LrINzk/s1600/Dr.+Cebola.png" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="361" j8="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-qSKBaMbFp3E/TcNdQU22sfI/AAAAAAAAAMY/T5tz1LrINzk/s400/Dr.+Cebola.png" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Aforismas&amp;nbsp;do Dr. Cebola:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;I - "Nas gôndolas não hesitar, no sol não bobear"&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;II - "Para um bom caldo, coração não basta"&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;III - "Doença de alma se arranca pelo nariz"&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;IV - "Eu não sei, não, mas terra boa mesmo é só da nossa hortinha"&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;V - "Cebolinha, por que tão caprichosa se é teu o meu tempero?"&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Agendinha do Dr. Cebola:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Segunda-feira: Dia Feliz - não trabalhar&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Terça-feira: Insurgir-se contra o sistema&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quarta-feira: Feira do produtor com a Dona Marta&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quinta-feira: Olhar a chuva&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sexta-feira: Dormir na terra&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sábado: Sopa no jantar, tempero na carne, rodelas na salada&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Domingo: Renascer da mãe-terra&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3031475814094388426?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3031475814094388426/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3031475814094388426&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3031475814094388426'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3031475814094388426'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/05/eu-vos-apresent-ei.html' title='Eu vos apresent... Ei!'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-qSKBaMbFp3E/TcNdQU22sfI/AAAAAAAAAMY/T5tz1LrINzk/s72-c/Dr.+Cebola.png' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5041715182669713255</id><published>2011-05-02T23:12:00.005-03:00</published><updated>2011-05-03T12:14:01.545-03:00</updated><title type='text'>Florença</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu estava aqui pensando em como enciclopédias e livros de história abusam da expressão "cidade florescente". Né? Qualquer vilarejo com quinhentos habitantes torna-se "cidade florescente" se está às margens do Mediterrâneo e vende azeite ou cerâmica. Como é que pode? Toda cidade&amp;nbsp;com que me deparo&amp;nbsp;e lá está: florescente cidade ou expressão equivalente. Qual é o critério afinal? Repentino inchaço populacional? Mas daí, iluminando-me mais um pouco, eu pensei: mas é claro, né, Murilo. Você esperava o quê? Que os livros mencionassem as cidades medíocres? "Mitzbeu'h Am-Zalam: surgida no ano de 2.000 a.C às margens do Pirapó. Criavam ovelhas.&amp;nbsp;Submeteram-se a toda e qualquer potência regional. Nunca se rebelaram. Inicialmente com&amp;nbsp;cerca de 15 edifícios, hoje conta com 13. Sem expressão política ou cultural. Uma vez tentaram construir uma biblioteca mas o projeto não chegou a ser votado pois a população havia se recolhido nas cavernas durante as enchentes ocorridas naquela época". Não, né? Der...&amp;nbsp;O que fica nos registros históricos são as cidades florescentes, e mesmo as decadentes pressupõem esplendor&amp;nbsp;em algum momento de sua história. As medíocres, as inexpressivas só servem mesmo como curiosidade arqueológica, e poucos se ocuparão delas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Conclusão: Há que&amp;nbsp;se esperar o ato de molhar o bico.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5041715182669713255?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5041715182669713255/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5041715182669713255&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5041715182669713255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5041715182669713255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/05/florenca.html' title='Florença'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1363251628983576860</id><published>2011-04-21T00:00:00.000-03:00</published><updated>2011-04-21T00:00:01.463-03:00</updated><title type='text'>Oh, Caudilho, leva-me este cacto</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Por que você quer saber? - eu pergunto.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Porque é isso o que pessoas normais fazem! - responde-me a sabedoria encarnada.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bom, se concordo ou discordo, a verdade é que eu realmente não sei o que pessoas normais fazem, o que&amp;nbsp;pensam, como interagem, e quanto mais as analiso menos quero saber. Vejamos, segundo esse ser superior que se ergueu contra minha reclusão, pessoas normais fazem perguntas. Pessoas normais igualmente trapaceiam, tecem comentários incoerentes, fazem cálculos errados. Se um fenômeno ocorre com determinada freqüência, a sua correção não será proporcional a essa mesma freqüência. A natureza fede, apodrece. Espécies inteiras esforçam-se para se adequarem ao ambiente, o qual as condiciona e as maltrata, e a todo instante correm o risco de serem dizimadas. A natureza (sinceramente, isso devia ser óbvio) erra. Logo, normalidade não é critério, é fato, e não serve como argumentação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para mim, o mundo bem que poderia se parecer com aquilo que imagino que Titã deva ser: um mundo gelado, encoberto de brumas e povoado de lagos silenciosos. E, nesse mundo, não haveria chatos a me fazerem perguntas que não devem. Não porque suas perguntas sejam esdrúxulas, mas pelo singelo fato de que, quando educadamente indago do motivo de sua pergunta, é porque não o considero autorizado a saber. Entenda, não porque o considero burro, ou mesmo pedante, ou mesmo de modos asquerosos e impertinentes, mas se eu mesmo não contei a você é porque eu não quero que você saiba. É difícil?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mundo é assim: uma algazarra aviltante a que eu pacientemente tento enxergar uma ordem. Por favor, não pense que eu me juntarei a isso pelo mero fato de que eu o compartilho com você. Há fatos que eu não posso controlar, e nem por isso os encaro como corretos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1363251628983576860?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1363251628983576860/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1363251628983576860&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1363251628983576860'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1363251628983576860'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/04/oh-caudilho-leva-me-este-cacto.html' title='Oh, Caudilho, leva-me este cacto'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5102781040507607871</id><published>2011-04-19T23:39:00.000-03:00</published><updated>2011-04-19T23:39:57.114-03:00</updated><title type='text'>Melhores dias</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu inventei uma piada e não sei o que faço com ela. Infelizmente tive a idéia durante meu estágio, distante de qualquer pessoa que pudesse rir dela. Minha ansiedade era tanta que tive ímpeto de contá-la ali mesmo, mas demoraria tanto para explicar os detalhes, e seria tão penoso para mim gesticular de modo que entendessem melhor (eu não precisaria gesticular em outras ocasiões, o entendimento se daria por intermédio da imaginação), que desisti.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É assim: os alienígenas chegam à Terra, encontram um humano e falam: "Nós viemos destruir a Humanidade &lt;strong&gt;inteira&lt;/strong&gt; porque ela se tornou uma &lt;strong&gt;ameaça&lt;/strong&gt; a &lt;strong&gt;todo&lt;/strong&gt; o planeta Terra, e não podemos nos dar esse luxo porque mundos que suportam a vida são &lt;strong&gt;raros&lt;/strong&gt; no Universo". O humano, que é um professor/cientista/intelectual, responde: "Oh, meu Deus, vocês têm toda a razão. Somos maus mesmo. Ok, aceito". Mas então os alienígenas percebem que o humano estava ouvindo uma música e falam: "Oh, meu Deus, eles &lt;strong&gt;também&lt;/strong&gt;&amp;nbsp;ouvem Cat Power! Ok, não mais. &lt;u&gt;&lt;em&gt;Ainda há esperança&lt;/em&gt;&lt;/u&gt;". Daí eles&amp;nbsp;desistem de destruir a Humanidade e vão embora.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A piada aceita qualquer outro artista. Coloquei Cat Power apenas como exemplo, mas poderia ser qualquer outra coisa.&amp;nbsp;Aconselho um artista badalado, não necessariamente pop, mas de compreensão geral. Você pode contar para quem quiser, eu deixo. Atingi um ponto de não-egoísmo hoje. Nada me pertence. Sou átomo do Universo [&lt;em&gt;abrindo os braços e empurrando a cabeça para trás com os olhos fechados&lt;/em&gt;].&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5102781040507607871?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5102781040507607871/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5102781040507607871&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5102781040507607871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5102781040507607871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/04/melhores-dias.html' title='Melhores dias'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3714420547045065081</id><published>2011-04-17T20:59:00.004-03:00</published><updated>2011-04-17T21:16:37.299-03:00</updated><title type='text'>Roleta Russa, que me fizeste?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi numa sexta-feira, numa ocasião de faxina. Eu estava aqui, em meu apartamento, limpando o chão da cozinha, rabiscando a parede com molho de salsicha, quando então veio. Não bateu na porta, entrou rolando pelo chão úmido, se jogou contra o meu esfregão e&amp;nbsp;não largava de jeito nenhum. Agarrado às tiras de pano,&amp;nbsp;gritava meu nome, berrava que iria vencer antecipadamente todas as minhas contas, disse-me coisas atrozes. Eu, claro, botei no colo, afaguei, dei sopa. Na sujeira em que esperneava, eu, do alto de minha recém-indolência, tão arduamente adquirida, me condoía. Uma jóia rara, um anel que caía assim no dedo, não podia ser desperdiçado. A oportunidade escolheu a minha porta entre tantas outras, não cabia a mim, já hipnotizado pelo tempo, desprezá-lo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nem de longe, no entanto, quis tê-lo. Não o estimava, na sala não lhe velava, no centro da mesa não me chamava a atenção. Quando o encontrava, era como um tropeço. Dentro do meu armário, na gaveta da escrivaninha, no fundo da geladeira, logo atrás da alface, guardado para supostamente mais tarde. Mas se me lembrava era somente em ocasiões de surpresa, de susto. "Você ainda aqui?". Os únicos momentos juntos foram no sofá, assistindo&amp;nbsp;à novela das oito, enquanto ele servia de suporte para a minha bandeja de chá com pipoca. Às vezes chorava, soluçando um tanto, fazendo trepidar a xícara. Eu mudava o canal à sua revelia, sem me importar, distraído. Confuso, me olhava, súplice, e eu, clarividente como uma rocha pode ser, perguntava se queria mais gelatina ou se o som estava muito alto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não demorou e&amp;nbsp;acabei enrolando-o em meu tapete. Era já noite, deixei minha sopa esfriando em cima da mesa. Abri a porta de meu apartamento e, do corredor,&amp;nbsp;o desenrolei pela escada do edifício, e ele foi rolando, assim, até o térreo. Eu era tão pleno que não poderia perceber. Desci sobre o mesmo tapete e encontrei-o estendido, ofegante, quase morto lá embaixo. Abri a porta e ele foi saindo, deixando um rastro de terra às suas costas. Voltei e terminei o meu jantar. A sobremesa demoraria, mas eu a esperava como esperaria a sua volta. E, de hipótese em hipótese, vaguei, imaginando seus próximos destinos, até que, de cômodo em cômodo, se desfizesse e eu também. Olhei pela janela, pelas ruas pairava uma densa neblina. De vulto em vulto, ele poderia estar em qualquer um daqueles carros. Permaneci em vigília até que amanhecesse.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3714420547045065081?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3714420547045065081/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3714420547045065081&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3714420547045065081'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3714420547045065081'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/04/roleta-russa-que-me-fizeste.html' title='Roleta Russa, que me fizeste?'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6221816252137377447</id><published>2011-03-29T23:17:00.005-03:00</published><updated>2011-04-08T22:03:56.595-03:00</updated><title type='text'>Ponto Euxino</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;À minha vitória desta tarde, uma saudação. Como vou explicar o gosto da vitória? Melhor não. Antes mais calmo, menos ufano, menos estrídulos de talheres. Meu coração agora está no Ponto Euxino, e em nenhum outro lugar senão em sua distância. Por que tudo isso? Porque ninguém melhor para se vencer que o seu próprio vencedor, sem que para tanto houvesse sido necessário qualquer estratégia. O acaso se encarregou de minha vingança, e prostrado o fez ante meus pés. Que direi agora? Que o meu valor está longe, em voluntário exílio, e de lá o observa, contente. Não necessitar sujar as mãos deste mundo, essa é uma vitória que não tem preço. Em minha nobreza nunca desacreditei, e foi isso que me fez velar por ela. Se me desconcentro e caio nas parvalhices que costumam me dizer, como se eu não soubesse e como se eu não os desprezasse, como se eu não me aturdisse e não me fizesse absolutamente desiludido, que serei eu? Não restou nada a não ser isso. Muitos que se transformaram em monstros, ou talvez sempre tenham sido, eu não sei. Mas eu não. Minha vitória foi bradada no Ponto Euxino, há milhares de quilômetros daqui,&amp;nbsp; cujas águas ninguém vai ouvir, e eu mesmo só sinto por inspiração. Alguém como&amp;nbsp;a Chiquinha, alguém como a Umbanda. Lambada e outros ritmos decadentes.&amp;nbsp;Eu não. Trabalho e tomo banho que é para ser limpo. Sentar na mesa e comer meu prato honesto. As sujeiras reservo para o meu lenço, o qual guardo muito apropriadamente em meu bolso. Afinal, e é bom relembrar, fazer de seus próprios vícios bandeira é cinismo e não sinceridade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hipocrisia também é um assunto que me incomoda e me pertence. Mas hoje não é o dia. Talvez para Botânica. Talvez para Heráldica. Hoje é um dia de vitória, e não importa o que é o passado, o que são as minhas marcas, o que fui. A aparência&amp;nbsp;me redimiu, de&amp;nbsp;minhas escolhas e de meu sombrio íntimo. A minha atualidade lava minhas vestes, longe, nas águas frias do&amp;nbsp;Ponto Euxino. E basta. Como diria Sheldon (The Big Bang Theory): "&lt;em&gt;Para a sua sorte, a metáfora acaba por aqui&lt;/em&gt;".&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6221816252137377447?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6221816252137377447/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6221816252137377447&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6221816252137377447'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6221816252137377447'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/03/ponto-euxino.html' title='Ponto Euxino'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-2955314462439271457</id><published>2011-03-27T15:21:00.004-03:00</published><updated>2011-03-28T17:55:06.311-03:00</updated><title type='text'>Fica esperto, Sieyès</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em minha busca entediante, quase aflitiva, por conhecimentos acadêmicos, deparei-me com o seguinte trecho de um artigo na Revista de Direito Constitucional e Internacional: "&lt;em&gt;Segundo Sieyès (1982), o supremo poder no Estado não cabe ao povo, ao conjunto de homens num determinado momento e em um determinado território, mas à nação, que é uma entidade abstrata, a personalização dos interesses permanentes e profundos de um povo, das gerações em sucessões. Quem é representada é a nação, e não o povo. Este ao votar age como órgão da nação para a escolha de seus representantes. Assim, ao votar o indivíduo formula a vontade da nação soberana&lt;/em&gt;".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Curioso para saber mais e... Bom, na verdade mais por dever mesmo, resolvi ir atrás desse tal de Sieyès, tendo como única pista a referência bibliográfica deixada pela cara autora, de onde supostamente teria inferido a assertiva citada. Para minha sorte, a referência em questão era apenas um panfleto escrito à beira da Revolução Francesa, de poucas páginas e facilmente encontrável na internet: "&lt;a href="https://www.college.columbia.edu/core/students/cc/settexts/sieyes.pdf"&gt;O que é o Terceiro Estado, por Abade Emmanuel Joseph&amp;nbsp;Sieyès&lt;/a&gt;".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pois bem, tendo lido e relido o panfleto, ficou a pergunta: onde diabos Sieyès disse isso? Pois eu não encontro em lugar algum, e mesmo que fosse possível assim inferir, só se por meio de interpretação em conjunto com outros textos, o que aparentemente não aconteceu. Se é verdade que em algum lugar ele disse isso, certamente não foi nesse panfleto,&amp;nbsp;o qual&amp;nbsp;talvez ela nem tenha lido. Mas se leu o panfleto, dolosamente mentiu, por indolência ou egoísmo,&amp;nbsp;que tal informação ali poderia ser encontrada.&amp;nbsp;E se essa informação realmente existe,&amp;nbsp;onde quer que ela tenha lido isso, não foi diretamente através de uma obra de Sieyès, mas de um autor qualquer que dolosamente omitiu em sua bibliografia final.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que aprendo com isso é a desilusão, o ceticismo, o cansaço de mundo. O que faz uma pessoa agir assim? Indolência, pressa, ganância, sei lá eu. Não confio mais, eis tudo. Essa questão já havia passado pela minha cabeça repetidas vezes, mas até ter experimentado concretamente não pretendia levar a sério. Afinal, precisamos confiar nas informações que nos transmitem. Não é possível vivermos o tempo todo alertas. A desconfiança em demasia é nociva, beira à loucura. Mas é surpreendente como a mentira chega aos detalhes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Isso é um aviso pro Sieyès, a fim de que tome as providências que achar necessário.&amp;nbsp;Quanto aos outros, fica dado o alerta:&amp;nbsp;acaso resolvam agir da mesma forma, fiquem sabendo que, sim, há chatos como eu que não se importarão nem um pouco em conferir e difamá-los. Aliás, o nome da autora é &lt;strong&gt;Regina Macedo Nery Ferrari&lt;/strong&gt;. Vejo um dedo podre apontado para você.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-2955314462439271457?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/2955314462439271457/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=2955314462439271457&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2955314462439271457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2955314462439271457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/03/fica-esperto-sieyes.html' title='Fica esperto, Sieyès'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7345572054972458189</id><published>2011-03-23T22:31:00.002-03:00</published><updated>2011-03-23T22:39:52.536-03:00</updated><title type='text'>Álibi</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sequer mais é ódio, é luxo. Treze portentos, treze destroços na praia. Há mais, eu pergunto. Porque se houver, quero que venha com diamantes. Caixas enormes, pesadas deles. Vou pôr diamantes em minha banheira, em meu cabelo e em meu café. Meu cachorro vestirá pulôver, e meu cacto se sentará à mesa de jantar, junto aos demais. Desde o dia em que comecei a suspeitar que toda pessoa merece ser tratada dignamente, não importa o que seja (e nós sabemos que a maioria de nós não vale&amp;nbsp;a&amp;nbsp;lasca de&amp;nbsp;meu anel de&amp;nbsp;zircônio), resolvi que então todos comerão diamantes. Eu comerei diamantes e vocês também, com ou sem tempero. Não arcarei esse luxo sozinho, não se iludam. Não, não é rancor. É vaidade. Inclusive confesso que é pertinente tão só a mim. Para que se sentem diante de seus pratos, mandarei casacos em suas portas. Bolsas. Chapéus. De que mais precisam? A dignidade ornamental daquilo que carece em inteligência. É razão mesmo de que falo, não se precisa sequer de conhecimentos em química ou outra ciência que seja (desde que verdadeira). Inteligência sei que não têm, por isso mando convites analíticos. E gravações, para que não se esqueçam durante o caminho. De beleza igualmente são desprovidos, e os que a&amp;nbsp;têm a estragam da forma mais deprimente que podem. Mas as suas caras pastosas combinam tão bem com meu ranço e com a sopa amarga que lhes servirei que não me importo. Não esperem de mim sequer o tédio. Esperei tanto por vocês, e de uma forma tão ridiculamente egoísta, que não há espaço em mim para fingir o tédio. Eu os concebi em meus planos, objetos, orgânicos, compostos de qualquer coisa. Abro a porta, mostro-lhes o saguão. Seus lugares já estão marcados: desenhei flechinhas. Acredito no meu livre-arbítrio, não no de vocês. Puxo-lhes as cadeiras, penduro seus casacos. Que cor bonita eu não lhes escolhi, admiro-me.&amp;nbsp;Cumprimentem o cacto, eu lhes peço. O pobre sequer sabe que é uma peça do meu xadrez.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7345572054972458189?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7345572054972458189/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7345572054972458189&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7345572054972458189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7345572054972458189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/03/alibi.html' title='Álibi'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5284928943691983207</id><published>2011-03-22T22:07:00.003-03:00</published><updated>2011-12-18T16:05:02.482-02:00</updated><title type='text'>O que farias por um milhão de guaxinins</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A insistência de fazer da vida mais insuportável do que já é é um encargo de que me incumbo. Não por cansaço, não por ousadia ou desamor aos valores de nossa sociedade. Mas por ignorância mesmo. Bestial assim como me tomam. Fazer-me tolo e servil ante vossa gloriosa indolência é um regozijo que não encontro em fontes alternativas de energia. Como o carvão. Como as usinas nucleares. Ai, minhas mãos secas de fuligem e esse inefável sabor de derrota. Como poderia viver sem? Como alguém poderia imaginar viver sem? Insuportável em minha grafia e em minha dicção, contorno esses obstáculos tão cuidadosamente postos na esperança de que me edificassem. Mas edifícios já existem de monte, eu digo. A minha construção pessoal eu a toco tão egoisticamente quanto posso, até que eu atinja esse espaço intangível que, gosto de acreditar, foi projetado muitos milênios antes por uma civilização alienígena compadecida de criaturas&amp;nbsp; do meu tipo. Quero distância e tão só. Seja na lama ou nos páramos em que vos inoculais. Pois tolo igualmente sou, e não faz diferença a forma como se procede. Burrice é uma coisa que transcende níveis culturais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, modernidade, que me cansa e me atropela. E em não acreditar em minha própria boçalidade, e em descrer de minha própria inaptidão, refestelei-me em meu paiolzinho. Mandem minhas lembranças para os obeliscos, os grandes Budas de pedra. Digam que sempre me lembrarei delas, as pirâmides. Minhas considerações às catedrais, aos arranha-céus. Hoje eu como no cocho.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5284928943691983207?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5284928943691983207/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5284928943691983207&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5284928943691983207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5284928943691983207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/03/o-que-farias-por-um-milhao-de-guaximins.html' title='O que farias por um milhão de guaxinins'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-4422109911851784112</id><published>2011-03-18T23:56:00.009-03:00</published><updated>2011-04-08T20:49:53.753-03:00</updated><title type='text'>Obituário</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há cinco coisas pelas quais nutro efetivo ressentimento: a) refinamentos; b) inaptidão para o trabalho; c) misericórdia desmotivada; d) excesso de alimentos; e) tomada de decisões fundamentadas no coração. Por outro lado, há cinco coisas pelas quais prezo, independentemente do quão equivocadas e absurdas na prática sejam: a) racionalização dos sentimentos; b) destruição da camada de ozônio; c) estatização das formas de exploração dos recursos naturais; d) dialética na argumentação; e) lógica.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Embora não elencado, há o sexto elemento de minha lista. O que realmente faz meu cérebro doer, o que arde em minha alma e suja o lenço do meu bolso&amp;nbsp;é o feito que, se feito por mim, teria sido incomparavelmente melhor. Acho injusto, imoral, humilhante que alguém ganhe dinheiro com uma coisa tão ruim, enquanto eu, que poderia fazer muito melhor, fico aqui a engolir artigos secos e a defender leis e ordens. Do que estou falando? Ora, das frases&amp;nbsp;sortidas do&amp;nbsp;Serenata de Amor da Garoto! Esse bombom que quer mais romance e sei lá o quê. Olha só que triste:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"&lt;strong&gt;E assim tudo começou. &lt;/strong&gt;Se você não consegue dizer o que sente, dê uma dica e espere. Antigamente, as pessoas faziam serenata. Hoje, uma boa idéia é comprar um Serenata em qualquer supermercado."&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Ou seja, declare-se com uma frase do tipo "quem tem um amor platôni&lt;/em&gt;co..&lt;em&gt;." ou "pesquisas científicas indicam que...", que é o que você vai encontrar nesses bombons.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Boca seca, taquicardia e tremedeira configuram o que chamamos de 'amor à primeira vista'. Segundo a psicanálise, a expressão correta é 'paixão à primeira vista'. Seja qual for o nome, é bom pra caramba."&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Em que pese a linguagem jornalística e as informações pseudocientíficas (afinal, todos sabem que a psicanálise não é uma ciência),&amp;nbsp;era para ser uma frase de amor. Fail. Sem falar no final, que é uma espécie de "vamos usar nossas bundas para viver".&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Amor platônico só existe na imaginação de uma pessoa, e o outro nem desconfia que é amado. Se você está nessa situação, só temos uma coisa a dizer: não queríamos estar na sua pele".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;O que é isso, meu Deus? Lança desconfiança onde ainda não tem, e&amp;nbsp;depois se pretende um bombom a ensejar 'romansse'? HAHAHAHAHAHA. Parece um cartão ruim de feliz aniversário!&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"&lt;strong&gt;Amizade pode se transformar em amor?&lt;/strong&gt; Pode. Mas, se você já está apaixonado, dificilmente esse papinho de amizade vai colar."&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Não faz sentido algum. Se se afirma inicialmente que uma amizade transformou-se em amor, como é que depois... Qual é o seu QI? 90? HAHAHAHAHAHA. [Engasga com o chá].&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há mais, mas os bombons acabaram. Céus, era para ser algo tão fácil, mas tão fácil, que eles devem ter feito isso de propósito. Não é nem um pouco difícil. O assunto justamente mais explorado e procurado em poesia, principalmente quando em música. Qualquer poeta vagabundo de esquina pensa melhor. Por experiência própria. E fazem rimando, inclusive. Sinceramente, eu é que deveria estar ganhando dinheiro com isso. Eu faço muito melhor, mas muito melhor. Sou eu que mereço uma banheira. Sou eu que mereço lenços bordados. Eu. Eu. E não esses que não possuem senso algum de lógica. Garoto, contrate-me. Mas eu cobro caro, sim? Muito caro. Credo, é como se fossem o ranho de meu lenço.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Malditos. Eu, aqui, usando sachê e adoçante porque o açúcar acabou. Ah, prostrem-se ante meus pés de prata gélida. Beijem os anéis de sangue de minha mão. Contemplem minha imagem terrível e curvem suas sombras ao vale profundo de minhas órbitas. Quero que todos desabem em minha superfície de ódio e destruição. Quero limousines, mansões e bancarrotas! Vou afogar&amp;nbsp;as mágoas em&amp;nbsp;minha xícara e comer&amp;nbsp;meus rins com as torradas. Pois não é justo, não é justo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-4422109911851784112?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/4422109911851784112/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=4422109911851784112&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4422109911851784112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4422109911851784112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/03/obituario.html' title='Obituário'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7945479526104720604</id><published>2011-03-14T23:20:00.002-03:00</published><updated>2011-03-14T23:30:22.523-03:00</updated><title type='text'>Sepulcros no ar</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há horas em que paro, fito as estrelas e penso: "Está na hora de passar uma mensagem de paz, amor e harmonia, uma mensagem que faça as pessoas se sentirem bem e que motive o bem acima de tudo". Mas então logo me ocorre&amp;nbsp;que o maior bem que almejo para a&amp;nbsp;Terra&amp;nbsp;seria uma humanidade toda trabalhada na engenharia genética, um mundo de natureza 100% controlada, um lugar totalmente feito por humanos e para humanos. Daí eu me lembro porque as pessoas não deveriam votar em mim caso eu me candidatasse a um cargo político.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Mas, meu filho, não tem consciência do perigo que isso seria?". Tenho, claro, sou estudado nessas coisas. Porém não sou eu, é o mundo que caminha nesse sentido, e não vejo problema algum nisso. Se você pudesse garantir que uma pessoa nascesse sem doenças genéticas, você não garantiria isso? Ou será que você confiaria nos místicos processos da natureza que, por sinal, fazem tanto sentido quanto você pretender que têm? Eu acho que não. Você projetaria o mais perfeito que pudesse. Riscos? Bem, é difícil confiar totalmente na Ciência, e projetos semelhantes quando ainda se dispõe de pouco conhecimento a respeito realmente poderiam trazer mais mal do que bem. A começar pelo singelo fato de que a natureza, por enquanto, seleciona genes de um modo muito mais adequado do que se estivesse em nossos cuidados.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas a natureza não é uma deusa, e suas falhas podem ser corrigidas. O bom de se viver na modernidade é que o impossível e o inalcançável é uma questão técnica, e não mais metafísica. Marte não é um mundo inóspito porque a humanidade está fadada por uma ordem superior a rastejar na Terra, mas tão somente porque não dispomos de tecnologia que possibilite a nossa vida lá. Ainda. Os limites são paupáveis e cognoscíveis, não dependem de nossa fé. Não é maravilhoso? Profilaxia. Exatidão. Beleza tecnológica e genética. A modernidade tem muito ainda por nos proporcionar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Terrível, não? Eu sei. Pergunte-se agora porque a história de "Admirável Mundo Novo" não assusta as nossas gerações. Tornou-se tão paupável. Eu não vejo muitos problemas no apocalipse que pretende o autor. A ruína da civilização não é relativa? Não tendemos a ver a mudança dos atuais valores como decadência? Acontece, entretanto, que nem mesmo isso é possível garantir, e mesmo a destruição de toda a humanidade é uma possibilidade tão real quanto a sua sobrevivência. Podemos fracassar a qualquer momento, seja pelas nossas mãos, seja por meio de causas externas. E não há nada lá fora que diga qual é o certo e qual é o errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, engenharia genética, ouve a minha prece. Pode ser que, por nossa própria limitação cultural, destruamos muitas possibilidades. Por outro lado, muito sofrimento, tão inútil e tão não-edificante para si e&amp;nbsp;para os seus ao redor, poderia ser eliminado. Tudo o que eu quero é um mundo mais bonito, onde seja possível garantir que uma pessoa não nascerá com um corpo degenerado. É errado? Problemas serão muitos. Mas serão novos problemas, e não há razão para permanecermos nos debatendo com problemas cuja solução já se encontra ao nosso alcance. Não faz sentido, entende? Não, você não entende. Entende sim.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7945479526104720604?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7945479526104720604/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7945479526104720604&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7945479526104720604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7945479526104720604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/03/sepulcros-no-ar.html' title='Sepulcros no ar'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3075918750061165505</id><published>2011-03-13T23:37:00.008-03:00</published><updated>2011-03-14T21:49:47.707-03:00</updated><title type='text'>Gólgota iluminado</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há um fenômeno que vem ocorrendo em meu quarto há pelo menos cinco anos.&amp;nbsp;À noite, uma única abelha entra em meu quarto através de pequenos buracos em minha janela e voa em direção à lâmpada. A lâmpada, por sua vez,&amp;nbsp;é protegida por uma cúpula de vidro, de modo que a abelha, voando em direção à lâmpada, consegue facilmente entrar mas não sair. Ela luta desesperadamente por sair e ao mesmo tempo sentindo-se atraída pela luz.&amp;nbsp;Certamente seu corpo deve sentir dor&amp;nbsp;enquanto se debate contra a lâmpada, ou algo semelhante a dor. "O constante contato com o forte calor da lâmpada e o excessivo dispêndio de energia são causas fatais", garantem os especialistas. A abelha zumbe por muito tempo até morrer. Minhas reações, ao seu turno,&amp;nbsp;consistem em:&lt;/div&gt;&lt;ol&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sentir medo, pois se não morrer e conseguir escapar, ela vai voar para cima de mim e... me matar;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sentir irritação, pois não consigo me concentrar com seu zumbido de agonia;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sentir pena, pois afinal é um ser vivo, que produz mel e é bonitinho;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sentir ânsia, pois a expectativa da morte não é das mais agradáveis.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ol&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Geralmente acabam morrendo. Em casos mais raros, há as que conseguem escapar. Das que conseguem escapar, algumas delas acabam morrendo no chão do meu quarto pois, ou estão muito fracas para voar, ou suas asas estão bastante danificadas, ou mesmo ambos, enfim. Uma delas eu&amp;nbsp;tentei salvar resgatando-a do chão e&amp;nbsp;colocando-a para fora de meu quarto em uma folha de papel, mas ela não voou e acabou caindo feito um inseto sem asas&amp;nbsp;no chão da garagem.&amp;nbsp;Ela ainda estava viva. Fracassara.&amp;nbsp;Mas há, no entanto, aquelas que escapam completamente da morte e conseguem voar através da janela rumo às suas casas, vitoriosas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Minha conclusão: estou presenciando a evolução natural das abelhas. Só aquelas inteligentes e fortes o bastante para escaparem da prisão de vidro e sobreviverem à armadilha transmitirão seus genes superiores às gerações seguintes. Meu trabalho: observar e não ajudar as fracas,&amp;nbsp;garantindo, assim,&amp;nbsp;que somente as aptas sobrevivam. A natureza: sutil e asquerosa como a picada de um inseto. A lâmpada de meu quarto: um pequeno gólgota&amp;nbsp;randomicamente escolhido pelas abelhas para ali acharem a sua ruína e seu futuro geneticamente melhor. Amém.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3075918750061165505?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3075918750061165505/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3075918750061165505&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3075918750061165505'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3075918750061165505'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/03/golgota-luminoso.html' title='Gólgota iluminado'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6432443388551539799</id><published>2011-03-08T13:01:00.010-03:00</published><updated>2011-03-08T16:39:05.897-03:00</updated><title type='text'>Traço 9</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;O PROBLEMA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, a constituição do que denominamos de "boa-vida" tem se tornado cada vez mais difícil, e os caminhos que a ela conduzem estão cada vez mais raros e difíceis de serem tomados. Dados obtidos da Universidade de Colúmbia demonstram que, hodiernamente, a formação rápida e fácil da fortuna não pode ser obtida através senão da patente de um invento. A apropriação psiquíco-privatístico-financeira de uma descoberta, embora moralmente controvertida nos meios vulgarmente denominados "hipongas", permite ao seu autor não somente fama, coisa que cada vez é mais dispensável e vago em nossa sociedade, mas, sobretudo, dinheiro suficiente para condicionar uma vida de ócio e luxo. Há os que aduzem que resultados semelhantes podem ser observados em atividades como "apostar" na bolsa de valores. No entanto, "apostar" na bolsa exige perspicácia, coisa não muito observável em quem procura o ócio. Ou, ao menos, o que procuro não pode ser&amp;nbsp;alcançado senão por métodos intuitivos e desconcentrados em objetivo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi&amp;nbsp;pensando nisso que resolvi dedicar o meu tempo em busca de algo absolutamente novo e útil, algo pelo qual as pessoas sonham em ter mas sequer imaginam como isso seria possível. E, olhando para o meu quarto, percebi que certo objeto ocupa&amp;nbsp;estranha e insistentemente&amp;nbsp;pelo menos um&amp;nbsp;oitavo do espaço disponível: o armário.&amp;nbsp;Pode não parecer muito, mas leve-se em consideração que em um quarto deve haver minimamente uma cama, uma cadeira, uma mesa/escrivaninha e um armário. Se um quarto possui 12 m², supondo que uma cadeira ocupa 1 m², uma cama&amp;nbsp;2,16 m², uma escrivaninha&amp;nbsp;1,8 m² e um armário&amp;nbsp;1,5 m², temos então que pelo menos&amp;nbsp;6,46 m² do espaço encontra-se ocupado por um objeto sólido e relevante, restando, ainda, 5,54 m² por onde transitar. O que foi? Ainda não conseguiu visualizar o problema? Pois saiba agora.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O seu armário ocupa, em geral, um&amp;nbsp;oitavo do espaço não porque um armário deve ocupar um&amp;nbsp;oitavo do espaço, mas simplesmente porque esse é o máximo de tamanho que&amp;nbsp;consegue alcançar. E, no entanto, sabemos que&amp;nbsp;esse tamanho não é suficiente para abrigar todas as nossas coisas. Ventiladores, casacos, cachecóis, miniaturas de ídolos pagãos, patins, balas de hidrogênio, jogos de tabuleiro. Todos eles e muito mais competindo aguerridamente por um espaço tão limitado. "Onde guardarei o meu exoesqueleto?", você pensa. "Onde porei meus vestidos de casamento?", você se espanta. As portas não ficam maiores através da vontade. Novas prateleiras não surgem por mágica, nem que você pranteie o mundo. Seu armário&amp;nbsp;é diminuto&amp;nbsp;para fins práticos, e não porque você precisa de menos coisas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Além do que, repare que o espaço ocupado pelo armário impossibilita a plena manifestação da vida em seu quarto. Imagine como seria bom ter um sofá de três lugares em seu lugar. Imagine que incrível poder dar uma festa em seu quarto, com direito a luminárias, castiçais e pista de dança. Contudo, contudo... O seu armário ocupa um&amp;nbsp;oitavo de seu quarto, e nada disso poderá ser feito. Esqueça aquele mostruário de elementos químicos raros. Esqueça aquela&amp;nbsp;coleção de enciclopédias. Ele ocupa um oitavo da sua vida, e nada pode ser feito.&amp;nbsp;Se seu armário fosse menor, tanto seria possível, e tanto espaço você teria... Para comer, dançar, comemorar e correr. Percebe agora?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eis, portanto,&amp;nbsp;o nosso problema:&amp;nbsp;o armário é pequeno demais para todas as coisas que você pretende guardar, e, ao mesmo tempo, grande demais em relação ao tamanho de seu quarto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;A SOLUÇÃO&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Então eu pensei: como fazer um armário que fosse simultaneamente espaçoso e compacto? Parece impossível? Einstein sabe que não. Quando imprimimos velocidade a um objeto, este ao mesmo tempo ganha massa e sofre contração em seu tamanho. Deste modo, se fizermos com que um armário viaje a uma velocidade próxima à da luz, teremos um objeto menor e mais massivo. Isso nos permitirá construir enormes armários que ocupam um reduzido espaço dentro do quarto. As vantagens? Muitas:&lt;/div&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A enorme velocidade fará com que&amp;nbsp;o armário fique muito maior e muito mais compacto,&amp;nbsp;proporcionando-lhe mais&amp;nbsp;espaço interior e exterior;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Coisas que antes eram reservadas para o porão poderão ser acondicionados em seu armário, como bicicletas, material de construção, ferramentas, etc;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Você poderá organizar um ateliê de costura, pintura ou fotografia, ao seu gosto, e ainda assim sobrar espaço para a sua coleção de sapatos e casacos;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As suas roupas, devido ao efeito da dilatação temporal,&amp;nbsp;parecerão envelhecer mais devagar, o que significa roupas mais duradouras e preservadas;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Você poderá dormir dentro do armário, e assim envelhecer mais lentamente;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O seu dinheiro estará livre dos efeitos inflacionários;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E muito mais.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"O que acontece quando unimos a Física Moderna com a indústria moveleira?", eu brinco. "Armários viajando a uma velocidade próxima à da luz", eu respondo.&amp;nbsp;Minhas lentes de contato já conseguem refletir as verdinhas; meu coração já se refestela em ouro e porcelanas caras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ah,&amp;nbsp;o brilhantismo... Tão raro e tão fugaz. Como eu sempre digo, o mundo está na palma de sua mão, bastando poder. Digo, querer. Não, é &lt;em&gt;poder&lt;/em&gt; mesmo. Quem quer não pode se não pode. Mas quem pode e quer é alguém em ação. Dêem-me um pouco de velocidade da luz, um&amp;nbsp;pouco de conhecimento elementar em física e um pouco de cega confiança em meus valores estéticos,&amp;nbsp;e eu transformarei a Terra em uma parque de diversões. Para o bem. Para o mal.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6432443388551539799?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6432443388551539799/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6432443388551539799&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6432443388551539799'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6432443388551539799'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/03/traco-9.html' title='Traço 9'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6900430377696005053</id><published>2011-02-23T21:35:00.010-03:00</published><updated>2011-02-24T10:35:52.932-03:00</updated><title type='text'>Sobre o que é descoser</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ante o fato de que, enquanto uma garrafa pequena de&amp;nbsp;Sprite possui 300 ml, uma garrafa de Fanta possui apenas&amp;nbsp;290ml, nós podemos tirar três conclusões principais:&lt;/div&gt;&lt;ol&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As empresas de refrigerante sabem que o sabor de laranja é mais doce e por isso mais enjoativo, o que necessariamente forçaria a produzir refrigerantes de laranja em uma quantidade inferior aos de limão, haja vista que para cada sabor há uma quantidade limite ideal, minuciosamente estudada e prevista, de modo que, a partir do momento em que é superada, torna-se menos agradável para o consumidor;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os refrigerantes de laranja exigem matéria-prima mais cara ou processos de&amp;nbsp;fabricação mais custosos que os de limão, de modo que, embora os refrigerantes de laranja sejam vendidos em menor quantidade, os preços entre ambos sejam exatamente os mesmos para uma garrafa pequena;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Trata-se, na verdade, de uma prova de que vivemos inseridos em uma realidade simulada, não passando esse fato senão de um erro de computador causado por processos randômicos e ainda não solucionáveis pela tecnologia atualmente disponível.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ol&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Embora as três conclusões sejam igualmente possíveis, e embora as três possuam o mesmo grau de verificabilidade, seja lógica ou empiricamente, nosso contexto sentimental induz-nos a raciocinar de tal forma que apenas uma resposta seja verdadeira, ou seja, apenas uma possui existência em nosso universo. Tal seleção não é absolutamente aleatória, e podemos igualmente postular pelo menos três princípios não excludentes entre si, os quais nos permitirão um maior esclarecimento a respeito da&amp;nbsp;conclusão que deverá ser imediatamente sobreposta&amp;nbsp;às demais:&lt;/div&gt;&lt;ol&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entre 0 e -1, temos que este último ainda possui existência, e, portanto, será necessariamente preterido em relação ao que é nulo;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entre -1 e 1, temos que este último é que possui existência real, de modo que será preferido em relação ao que possui existência meramente abstrata;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Contudo, se -1 significar dimensão realizável atrás da linha e logo abaixo ou acima do horizonte de expectativas do sujeito, então -1 será preferível a 1, ainda que este seja o único possível.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ol&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tendo isso em conta, conclui-se que: o refrigerante de laranja por mim consumido, embora fosse esperado que tivesse a mesma quantidade de 300ml que o de limão, possuía no mundo existente 290ml. Entretanto,&amp;nbsp;o desejo&amp;nbsp;de que o refrigerante de laranja possuísse a mesma quantidade que o refrigerante de limão levou meu universo sentimental a construir uma dimensão realizável atrás da linha e logo abaixo ou acima do meu horizonte de expectativas, de modo que o refrigerante passou a existir duplamente: o primeiro como uma garrafa de 290ml, e outra como uma garrafa de 300ml. Aquele é consumível e sujeita-se a processos causais e necessários que inevitavelmente levarão à sua destruição e transformação. A segunda é perene e autônoma ao próprio refrigerante, de modo que bebê-la não é bebê-la, pois que intangível ao meu corpo físico.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, nós podemos dizer que cindimos necessariamente os objetos em duas realidades: a que nós sentimos, concebemos e compartilhamos com os demais, de modo que aquilo que eu vejo, outros necessariamente o vêem; e a que nunca existe, não importa o quanto se deseje -&amp;nbsp;não é possível sequer dizer se morre, e mesmo a sua origem é bastante nebulosa, pois que surgida no íntimo. Contudo, se processos randômicos são capazes de causá-la, da mesma maneira podem encontrar seu fim. Se eu bebo meu refrigerante de laranja 300ml, não estou fazendo outra coisa senão dar-lhe continuidade. Mas se meu universo sentimental for capaz de parar sua reprodução como existência paralela ao objeto real, então&amp;nbsp;será como se nunca houvesse existido: não cessa, mas desaparece em absoluto, sem passado. Basta que eu olhe na embalagem e perceba que a garrafa possui 290ml, e não 300ml como havia pensado inicialmente. Pronto, é aqui que se rompe, se quebra, se morre, como quiser.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E foi exatamente assim que passei a beber meu refrigerante de 290ml sem jamais tê-lo feito em 300ml. Porém, fazer com que a dimensão desejada interrompa-se exige, obviamente, que se corte a própria vontade,&amp;nbsp;o que, convenha-se, não é algo nada fácil, só possível através da fé ou da melancólica entrega da única coisa que o mundo ainda não foi capaz de negar&amp;nbsp;o&amp;nbsp;seu exclusivo pertencimento.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6900430377696005053?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6900430377696005053/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6900430377696005053&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6900430377696005053'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6900430377696005053'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/02/ante-o-fato-de-que-enquanto-uma-garrafa.html' title='Sobre o que é descoser'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6738537314375115134</id><published>2011-02-06T17:46:00.008-02:00</published><updated>2011-03-08T16:47:55.898-03:00</updated><title type='text'>Ovos de páscoa mesopotâmicos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Homens, cachorros, mulheres e bicicletas, todos agora devem saber de meu achado. E se for verdade que falo coisas sem sentido, e se for verdade que invento coisas e falseio emoções, quero que algo bem impossível aconteça. Pelos céticos, jejuarei e guardarei os dias de Lua Cheia, e se isso não for o bastante, mandarei lembranças de meu jazigo. Quanto aos demais, que as doninhas os comam. Ou os corvos, não faço distinção onde há.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pois bem. Enquanto eu circunavegava o mundo, povoado de vermes, insetos, lodo e outras asquerosidades da natureza, planejando convertê-lo sob o jugo de minha tirania em vidro e aço cinzento, eu os descobri. Sim, os próprios. Mesopotâmicos ovos de páscoa embrulhados em papel alumínio policromo, surgidos assim, inesperados, bem diante de meus olhos. E ante sua extravagante, aberrante e desarmoniosa aparição, prostrei-me fiel. Mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o seu encanto, abri os meus salões, e até mesmo a Joelma e o Pixinguinha puderam entrar. Qualitativamente, não houve restrição, e qualquer um que se dispusesse a vestir mais de três cores, e qualquer um que ousasse se emaranhar em tecidos espelhados e serpentinas tinha a chance de divertir-me e de merecer meu agrado. Alguns, não devo esconder, tiveram a minha piedade, mas jamais o meu desprezo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois tais ovos mesopotâmicos não são meros prismas, mas religião; alienada, dramática e deslumbrante. Positrônico, cachos de banana, propulsores intergalácticos; não são definições, mas seus rebentos. Eles crescem com plástico amarelo, em painéis eletrônicos, variando facilmente entre o ridículo e o bizarro, sempre em excesso. São como florestas tropicais, mas as folhas são de celofane e a chuva de etano líquido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, é claro que ninguém gostaria de viver entre eles. Pertencem à mesma dimensão dos sonhos, não é possível sequer tocá-los, ao menos que você tenha perdido a noção de realidade. Estão envolvidos com a liberdade de fluxo, ou melhor, com a espontaneidade, trajetórias sem coordenadas e sem cálculo. Não vou mentir, eles têm mais de um aspecto: o encanto e a repulsa, a idiotice e a genialidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível trajá-los por certo tempo, mas deles se enjoa rapidamente, e mesmo é aconselhável que se enjoe e os largue a um canto qualquer. Caso contrário, provável que se torne um ridículo irresponsável. Em verdade, são idéias sublimadas, e por isso idéias para algumas ocasiões. Não há como vesti-las para ir à padaria ou ao cinema. Exigem para a sua aparição um espaço especial onde a sua excentricidade possa ser desejada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exige um espaço especial? Sim, mas ele não está pré-configurado em lugar algum: os ovos mesopotâmicos desencadeiam tal espaço, de modo que o que eu falei a respeito de vestir ovos mesopotâmicos para ir na padaria é bastante relativo,&amp;nbsp;pois não é verdade que existem lugares próprios para a sua aparição, no sentido de predeterminados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se estou sendo claro. Exclua o lado sombrio, o lado profano e o lado fashion, e ainda assim não se chega aos ovos mesopotâmicos. É algo mais específico. Está próximo do fashion, mas o fashion é demasiado sisudo perto dos ovos mesopotâmicos. É preciso um salto maior. Um salto de maior liberdade para se atingir uma beleza bastante peculiar: se você dançasse ovos mesopotâmicos, você não dançaria sexy, embora você exalasse carne e sangue. Enfim, enfim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu venderia a minha alma por tais ovos. Infelizmente, o jarro estava vazio quando fiz a oferta, e eu não tinha mais nada que pudesse interessar o dono dos ovos. Então quebrei o jarro na cabeça dele e saí correndo com a cesta. Mas, chegando em casa, a cesta encontrava-se vazia novamente. Sentei no parapeito da janela e comecei a escrever. Sem jarro, sem, alma, sem ovos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não ficou claro o que é um ovo de páscoa mesopotâmico, isto aqui é um bom exemplo: &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=BW3gKKiTvjs"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=BW3gKKiTvjs&lt;/a&gt;. Sim, a letra é baseada no livro homônimo: O Morro dos Ventos Uivantes [:)]. Sim, ela está dançando como um legítimo ovo de páscoa mesopotâmico.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6738537314375115134?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6738537314375115134/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6738537314375115134&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6738537314375115134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6738537314375115134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/02/ovos-de-pascoa-mesopotamicos.html' title='Ovos de páscoa mesopotâmicos'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6516125445244087019</id><published>2011-01-30T23:51:00.011-02:00</published><updated>2011-03-08T16:46:58.995-03:00</updated><title type='text'>Carta aberta aos chineses</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Caros chineses,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo desses meus anos de estudo e meditação, venho observando esse estranho fetiche pelo qual dinastias inteiras se entregaram, e pelo qual todo um povo nele ainda se identifica e se une. Sim, estou falando da Grande Muralha, e é em atenção a ela que vim até vocês, pois o que me surpreende é que ninguém ainda se apercebeu&amp;nbsp;de seu real significado na História da China. O que eu quero lançar é na verdade muito simples, e tão simples que permite a uma pessoa como eu questionar. Quero dizer, olhem para a Grande Muralha! Ela é enorme, estende-se ao longo de mais de&amp;nbsp;oito mil quilômetros. Compreende todo um complexo militar de fortes e estalagens, e no entanto jamais foi capaz de preservar totalmente o país da incursão dos estrangeiros.&amp;nbsp;A Grande Muralha não impediu que hordas&amp;nbsp;do norte&amp;nbsp;assolassem a China, nem impediu que estrangeiros usurpassem o trono imperial. A Grande Muralha não amenizou a fome nem a opressão, e nada fez quando os japoneses desembarcaram as suas tropas. A Grande Muralha nunca impediu que pessoas fossem e viessem&amp;nbsp;pelo singelo fato&amp;nbsp;de que&amp;nbsp;é uma &lt;em&gt;grande&lt;/em&gt; muralha. Quero dizer, o fato é que a Grande Muralha simplesmente cuida da Grande Muralha. A Grande Muralha apenas se importa para com a Grande Muralha. E isso porque o que melhor pode fazer uma &lt;em&gt;grande &lt;/em&gt;muralha é velar por si mesma, e a sua maior ambição não é barrar tanques de guerra ou oferecer abrigo a refugiados das enchentes, mas tão somente resistir à&amp;nbsp;deterioração do tempo. Para provar isso, basta recordar que as sentinelas de uma &lt;em&gt;grande&lt;/em&gt; muralha não fazem nada senão avisar ao imperador que tribos bárbaras transpuseram as fronteiras, e dentro em breve estarão às portas de Pequim. Percebem agora? E não importa que eu esteja baseando todas as minhas assertivas em um filme da Disney (ver Mulan). Os fatos falam por si mesmos. Eu posso pôr tijolo sobre tijolo, e fazer disso um monumento. Mas o espaço ganha espaço, e coisas tendem a se transforma em espaço. A Grande Muralha é agora mais um espaço. Ou pelo menos é bom acreditar nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, chineses. Isso é para que reflitam mais a respeito de uma &lt;em&gt;grande&lt;/em&gt; muralha. Vocês podem até ambicionar cercar todo o seu território com pedra e Deus sabe lá mais que material ou feitiço, mas saibam que a maior glória neste mundo é resistir e ser lembrado. E, vejam só, a própria Grande Muralha não se tornou senão um monumento, e que isso lhes sirva de prova e lição.&amp;nbsp;É claro que&amp;nbsp;há outras glórias (imagino), mas certamente barrar fluxos não está entre elas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6516125445244087019?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6516125445244087019/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6516125445244087019&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6516125445244087019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6516125445244087019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/01/carta-aberta-aos-chineses.html' title='Carta aberta aos chineses'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6439077742133292147</id><published>2011-01-18T22:30:00.005-02:00</published><updated>2011-01-18T23:32:35.428-02:00</updated><title type='text'>Estiolasse-me</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estou corado, meu cabelo levemente mais dourado, minhas pernas mais magras. Jejum? Vitaminas de cenoura? Nada disso é necessário quando se tem atitude. Atitude para vender o que não se tem. Atitude para usar jóias roubadas nas galerias da *vida*. Atitude para... Ser-se, de pá virada, do avesso, como bem entender. A atitude alonga o passo, define as pernas, arrasta brumas e olhares de glíter. Atitude veste bem, em casaco justo nos ombros, levanta queixos com um dedo, sussurra no ouvido. Atitude abre portas de vidro, gira banquinhos de bar, anda em vigas de metal e profana belezas naturais. Os médicos vêm, fazem prognósticos, diagnósticos, prescrevem pílulas, mas você, de óculos escuros, resume-se a&amp;nbsp;olhá-los por debaixo das lentes. Eles cochicham e falam alguma coisa sobre eríneas esperando debaixo do horizonte, mas você tem taças enormes&amp;nbsp;de limonada para tomar, e sente que&amp;nbsp; poderia protelar&amp;nbsp;o encontro por toda a vida.&amp;nbsp;Isso é atitude. Ah, espere, isso aí não é, não. Mas não vou mentir, vim aqui só para postar esta imagem, de Douglas Allen - quem? É, esse mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TTYtobNJ1BI/AAAAAAAAAIg/iDH_erj6vgA/s1600/mechanicb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="271" n4="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TTYtobNJ1BI/AAAAAAAAAIg/iDH_erj6vgA/s400/mechanicb.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Enfim, atitude. Para entender o outro lado? Claro que não. Atitude apenas para exibir uma bela silhueta em roupas plastificadas. Não se precisa nem de verdades se se sabe sorrir. Cinismo? Imoral? Eu chamo isso de atitude. O mundo do crime? O que é a marginalidade, o desprezo às liberdades alheias, o desenquadramento e a violação dos limites quando se tem atitude? Pratique isso e... Ah, espere. Não pratique, não. Já tem muita gente fazendo isso, se é que me entende. Mas não fique triste, você ainda pode ser... Sempre haverá lugar para o que abre a cortina, ou mesmo para quem não se importa em interpretar a pedra&amp;nbsp;ou a&amp;nbsp;árvore. Er... vai lá! Eeeeee.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6439077742133292147?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6439077742133292147/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6439077742133292147&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6439077742133292147'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6439077742133292147'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/01/estiolagem.html' title='Estiolasse-me'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TTYtobNJ1BI/AAAAAAAAAIg/iDH_erj6vgA/s72-c/mechanicb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-586459742809059896</id><published>2011-01-03T22:59:00.017-02:00</published><updated>2011-01-19T22:41:04.902-02:00</updated><title type='text'>Retrospectiva</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Após tantos sonhos de luxúria, resolvi narrar eu mesmo a minha história, quero dizer, expor as minhas percepções acerca de minha própria vida, o que nem sempre achei prudente, haja vista o risco que se corre em cair nas garras de gente fofoqueira ou mesmo até ser preso por alguma confissão indevida. Sim, as minhas histórias. Então pensam que somente vocês têm suas histórias? Sei que farão as objeções de costume, dirão que o máximo que eu poderia conhecer das esfinges, das pirâmides, dos castelos e dos palácios são as cópias plastificadas de alguma loja de fast-food. Mas, como eu estava dizendo, eu tenho sonhos de luxúria. Memoráveis? Gosto do termo “satisfatório”. Encantadoras? Eu diria que estão mais para o mundo do pequeno inefável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu visitei príncipes e cortes inteiras que haviam se instalado recentemente no vaso de orquídea. Vi rainhas e seus filhinhos reais refestelando-se em enormes banquetes à luz de milhares de lustres orvalhados. Vi cortejos e pompas, e eu mesmo tive a honra de presidir um torneio de cavalaria. Vi seu reino conhecer a glória e a decadência, até que foram finalmente dizimados por substâncias tóxicas e condições não propícias à reprodução de seu estilo de vida. As ruínas de suas casas e castelos agora dão espaço às raízes. Não há turistas nem peregrinos, apenas fantasmas perambulando por seus escombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu estive presente quando o boneco do Jaspion foi eleito Favorito do Achocolatado após um acalorado concurso. Vi quando lhe entregaram a taça de leite achocolatado, e vi como minutos após ter bebido morreu por excesso de açúcar. Sim, eu vi o médico pegar-lhe nos pulsos e sentenciar em assombro que agora "esse homem está morto". Descemos seu caixão ao profundo jazigo e nunca mais tomamos leite com achocolatado. Durma em paz, Jaspion, eu disse espargindo folhas de laranjeira sobre o túmulo. Parti para a Floresta das Sombras e lá permaneci por dois ou três anos de luto, rememorando seus dias de glória enquanto as estações se revezavam em meus olhos baços.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu conheci a presidenta. Eu mesmo escrevi o seu discurso de posse numa máquina de escrever. Aceitava insinuações e dicas de tias, primos e eventuais bêbados. Um dia antes de sua proclamação, fiz-lhe promessas e ela me fez promessas, e então permanecemos em silêncio olhando para a Lua Argêntea. Ela se levantou e disse: "Vou estatizar tudo". Que bom, eu disse. Ela então pegou no meu braço e disse: “Estou falando sério”. A partir de então aprendi a nunca mais duvidar de sua palavra. Precisei ir ao médico devido às luxações. Está bem, está bem, melhor ainda para mim, eu respondi esfregando onde ela havia apertado. Tomo remédios e faço tratamento psiquiátrico uma vez por mês desde então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, explorei a Antártida e suas montanhas geladas. Tive que ser consolado por pingüins após descobrir que não havia nada de inédito em explorar a Antártida, e que muitos outros já haviam feito isso. Sim, eu dizia-lhes entre lágrimas, mas nenhum deles fez isso por amor. Eles então cochicharam entre si e tiveram que concordar que realmente isso nunca havia sido feito. Entretanto, não me deram ouro, jóias ou qualquer recompensa, de gratidão ou de admiração. São mesmo muito esquisitos. Brinquei durante dias com eles, até que eu enfim estivesse cansado de meus dias de gelo, e decidi que já era hora de abandonar as plataformas da Antártida e seguir para terras mais quentes. É a vida, eu explicava. Eles então disseram que era possível que eu esperasse que um bloco de gelo se desprendesse, ou eu simplesmente poderia usar o cadáver de uma baleia como esquife, digo, como jangada. Esperei, claro, o tal iceberg.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Sim, fiz a minha própria fortuna vendendo empadinhas e empadões na praia, e comi muita areia e grosseria dos banhistas em troca. Eu oferecia tudo ao vento, e surpreendentemente sempre havia quem entendesse isso como um chamado. Eles diziam: "Tem gosto de areia com siri". Mas é claro, eu retrucava, se são empadinhas e empadões de areia com siri. Fiquei cinco dias preso até que alguém me pagou a fiança. Infelizmente a fiança não era para mim, mas para seu filho, mas que, devido a um erro de pronunciação, acabei livrando-me. O dinheiro foi entregue a uma&amp;nbsp;instituição de caridade que, fiquei sabendo&amp;nbsp;há alguns meses atrás, acabou em um incêndio anônimo e sem explicação. Antes eu tivesse apostado em corrida de cachorros, fico a lamentar-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E muitos e muitos outros. Não vi elefantes, leões nem águias. No máximo baleias, marmotas e águas-vivas, e&amp;nbsp;quem sabe ouriços-do-mar, corais e sargaços. Afora isso não vi nada. Nem deserto nem florestas selvagens, no máximo a Antártida e formigueiros. De tudo ficaram as ruínas e as sombras, como convém à minha idade. Mas, como dizia Florbela Espanca ("não, você não ousaria!"):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;Se é sempre Outono o rir das primaveras,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Castelos, um a um, deixa-os cair...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que a vida é um constante derruir&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;De palácios do Reino das Quimeras!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E deixa sobre as ruínas crescer heras.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Deixa-as beijar as pedras e florir!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que a vida é um contínuo destruir&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;De palácios do Reino das Quimeras!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Deixa tombar meus rútilos castelos!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tenho ainda mais sonhos para erguê-los&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mais altos do que as águias pelo ar!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sonhos que tombam! Derrocada louca!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;São como os beijos duma linda boca!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sonhos! ... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...&lt;/em&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás (vai ficar feio a formatação, contudo), olha&amp;nbsp;só a confiança, é disso que gosto nela:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;O mundo quer-me mal porque ninguém&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tem asas como eu tenho! Porque Deus&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Me fez nascer princesa entre plebeus&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Numa torre de orgulho e de desdém.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Porque o meu Reino fica para além...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Porque trago no olhar os vastos céus&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E os oiros e clarões são todos meus!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;— O jardim dos meus versos todo em flor...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A seara dos teus beijos pão bendito...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;— São os teus braços dentro dos meus braços,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Via Láctea fechando o Infinito.&lt;/em&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;Se é sempre Outono o rir das primaveras&lt;/em&gt;". Não sei se há outro poeta que eu leria com tanto prazer quanto ela. Quero dizer, outros há, mas que importa agora?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-586459742809059896?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/586459742809059896/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=586459742809059896&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/586459742809059896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/586459742809059896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2011/01/retrospectiva.html' title='Retrospectiva'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7396240326266623105</id><published>2010-12-27T12:47:00.004-02:00</published><updated>2010-12-27T13:18:33.304-02:00</updated><title type='text'>Nossa imagem de glória</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes que outro alguém resolva ter a mesma idéia, deixo já aqui registrado para que no futuro todos reconheçam a grandiosidade e o pioneirismo de meu pensamento. Um pouco que se assiste de Discovery Channel já basta para perceber que a concorrência no campo está crescendo, e cada vez estão mais ousados, e acho que chegou a minha vez de tomar parte.&amp;nbsp;Os projetos vão desde cobrir as geleiras do Pólo Norte com capas de cor branca, a infestar os mares com navios onde se produziria energia solar. Eu, ao meu turno, não decepciono. Bem é verdade que de tanto eu repetir já deve ter ficado enjoativo, porém ainda não há registros sólidos o suficiente que possam resistir à minha morte. No máximo tenho ouvintes esporádicos que, muito provavelmente, não espalharão a minha boa-nova, nem se importarão em mencionar a minha autoria. Sim, uns malditos. Entretanto, eu mesmo já estou trabalhando para enviar essa mensagem em ondas de rádio e fazê-las propagarem através do espaço.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bom, a questão é: encontrar novas formas de produção de energia que sejam ao mesmo tempo eficientes e limpas. A energia solar e eólica, embora limpas, são muito caras e ineficientes comparadas com, por exemplo, a energia nuclear. Então resolvi olhar um pouco mais para cima, e lá encontrei a Lua, vagando vagabundamente ao redor da Terra. Pensei: por que não fazer de seu inaproveitado movimento orbital uma solução para o problema do aquecimento global? Por óbvio que não estou insinuando painéis que captariam a luz lunar, embora isso seja particularmente interessante. Mas acho que estou me demorando. A minha idéia é bastante simples. Sugiro a construção de uma ferrovia ao redor do planeta, que atravessaria oceanos e continentes inteiros. Uma imensa locomotiva percorreria seus trilhos, fazendo girar milhares de gigantescas turbinas construídas ao seu redor. Pergunta: e qual seria seu combustível? Resposta: Nenhum. Através de um cabo amarrado à Lua, enquanto esta orbitasse naturalmente a Terra, moveria a locomotiva ao longo dos trilhos, em uma velocidade espetacular. Eficiência: total. Conseqüências para a natureza: nenhuma, a não ser a gradual desaceleração de nosso satélite, o que, mesmo assim, demoraria muito tempo para que sofresse uma significativa redução.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O meu projeto possibilitaria, além de uma eficiente e limpa produção de energia, um rápido sistema de transporte ao longo de todo o Equador, conectando populações de diferentes regiões, como África, Brasil, Indonésia e... Bom, se é verdade que o slogan "conectando regiões pobres a regiões pobres" não é muito atrativo, certamente a imensa produção de energia é. Teremos problemas? Nem tudo é perfeito, eu direi. Se haverá certa dificuldade em imaginar como seria o embarque e desembarque desse hipotético trem, uma vez que não há como parar ou sequer freá-lo, penso que se as populações do século passado puderam acostumar-se aos bondes, nós também conseguiremos. Da mesma forma, deve-se levar em conta que este é apenas um esboço, e será fácil imaginar como podemos aperfeiçoar o sistema através de um engenhoso sistema de roldanas, possibilitando não apenas uma locomotiva, mas muitas, que poderiam percorrer diferentes latitudes e, até mesmo, longitudes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ademais disso, pense no espetáculo que não será nosso mundo se nós, ao longo dos trilhos e dos cabos, criarmos um sistema de iluminação que poderia ser vista do espaço. As civilizações alienígenas hão de reconhecer que conseguimos transformar nosso planeta no mais divertido do Universo, e que, no final das contas, não somos tão patéticos assim se podemos fazer da Terra um imenso brinquedo (pense nas montanhas-russas, nas rodas-gigantes, tudo movido a energia lunar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, é isso. Ainda estou hesitante quanto a contactar o Discovery Channel. Minha promessa? Um futuro de energia lunar, muitas luzes e glória sobre trilhos e loopings em alta velocidade.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7396240326266623105?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7396240326266623105/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7396240326266623105&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7396240326266623105'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7396240326266623105'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/12/nossa-imagem-de-gloria.html' title='Nossa imagem de glória'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6240010481195081671</id><published>2010-12-17T23:13:00.002-02:00</published><updated>2011-01-20T11:51:34.360-02:00</updated><title type='text'>Fantasma das águas</title><content type='html'>Atado à cauda em brumas de trêmulo peixe&lt;br /&gt;Sobre as mesmas pedras sibilante circulo&lt;br /&gt;Qual fantasma sem sonhos de lúgubre azul&lt;br /&gt;Que no vazio das órbitas fundas em luto&lt;br /&gt;Sacode-se desfeito em véus sem som ou luz&lt;br /&gt;Dos frios cristais contra o meu peito insepulto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu crânio ardeu ébrio do noturno trago&lt;br /&gt;Os mudos lábios desvanecidos em névoas&lt;br /&gt;Nas bordas em lâminas de um cálice incauto,&lt;br /&gt;E soturnas contornaram as rodas férreas&lt;br /&gt;O périplo das estrelas mortas nos passos&lt;br /&gt;Descarnados do destino fremente em trevas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agitam-se as palmas áridas e sem cor&lt;br /&gt;Atrás do vitral partido em vozes sem rosto&lt;br /&gt;Que murmurantes rastejam folhas de sangue&lt;br /&gt;Em vão pelas réstias esquecidas dos rotos&lt;br /&gt;Vórtices de sol acendidos sobre o estanque&lt;br /&gt;Lago onde agora jazem em sombras envoltos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes jamais houvesse em fulgor fustigado&lt;br /&gt;Pelos cabos gotejantes de claros ventos&lt;br /&gt;Tremeluzente íris de tergiverso fado&lt;br /&gt;Sobre o orvalho esvoaçante em meu degredo,&lt;br /&gt;Do que saber-me agora em cinzas transtornado&lt;br /&gt;Dos ásperos anéis de cobre ferrugento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fantasma que em pálidos sussurros transpõe&lt;br /&gt;A garganta das escuras águas moventes&lt;br /&gt;Em lentos braços agonizantes em vida,&lt;br /&gt;E os gélidos pés que em desalento dormentes&lt;br /&gt;Vão-se vaporosos pelas rochas esguias&lt;br /&gt;Do cálido seio feito pórtico ausente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6240010481195081671?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6240010481195081671/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6240010481195081671&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6240010481195081671'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6240010481195081671'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/12/fantasma-das-aguas.html' title='Fantasma das águas'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-789635603226822531</id><published>2010-12-10T21:50:00.027-02:00</published><updated>2010-12-12T00:01:19.811-02:00</updated><title type='text'>Uma história de lágrimas e panquecas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu vivia em uma cidade pequena, no interior da província. Fazia trabalhos com ferro e usava uma banheira para cozinhar a sopa,&amp;nbsp;a mesma que&amp;nbsp;Tom e Fran de vez em quando alugavam para tomar banho.&amp;nbsp;Um dia&amp;nbsp;alguém levantou uma pedra à beira de um regato e descobriu a minha cidade. Não houve manchetes, apenas uma transmissão local de um rádio amador, que nunca foi ouvida, pois a mocinha que costumava ouvir naquela estação tinha se levantado para ir ao banheiro.&amp;nbsp;De todos os habitantes, eu&amp;nbsp;fui o primeiro a saltar, e por isso eles me chamaram de&amp;nbsp;João I. No início isso deixava as pessoas um tanto confusas, e facilmente eu era confundido com alguma espécie de monarca, o que, claro, trazia uma série de regalias gastronômicas, culturais e geológicas. Mas logo eles começaram a perceber que monarca algum andaria vestido em um saco de batatas, e monarca algum ofereceria um balde de madeira para as visitas sentarem. Então, quando eu já não convencia a mais ninguém, fui expulso da Corte e forçado a trabalhar para viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arranjei um trabalho nas minas de ouro e assim permaneci durante anos. Todas as manhãs partia em um vagão e não retornava até que estivesse cheio. Infelizmente não fiquei rico, pois gastava todo o ouro na construção de um navio de madeira. E quando finalmente ficou pronto, chegaram-me notícias de que já não havia mais ouro no oeste americano, e desisti de minha viajem. Era uma tarde de sol e fiquei olhando desconsolado para o meu navio de madeira, que já não serviria para mais nada a não ser atração turística&amp;nbsp;ou ponto de encontro para bêbados. Então o desmontei e construí uma panquecaria. Era a única coisa que eu sabia fazer e precisava ganhar dinheiro. Ao lado ergui uma torre de madeira, que era onde ficaria o meu quarto. Você podia subir por uma corda de cipó e depois descer por um tronco em forma de espiral. Também havia uma escada, mas não era muito eficiente, pois em alguns pontos havia faltado tábua. Tinha uma vista que alcançava toda a baía, e de noite eu recebia astrônomos de todos os cantos do país, pois, diziam, era um lugar muito propício para ver as estrelas. Passei assim&amp;nbsp;a vender&amp;nbsp;panquecas a preços módicos. Tinha de framboesa, chantilly e frango com milho. Também vendia cerveja e mariscos cozidos, que não eram lá essas coisas, mas as pessoas comiam. Elas não conheciam mesmo o que era uma cozinha limpa e por isso não se importavam. Nem eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia eu estava passeando pela praia, colhendo mariscos para o jantar, quando vi um velho marinheiro sentado em uma pedra. Olhava para o que restava do sol e voltava a esconder o rosto entre os seus braços, chorando. Ele tinha uma barba muito grande e negra. Aproximei-me e perguntei-lhe se acaso a minha vista era o motivo de seu pranto. Ele então me respondeu algo em norueguês, e voltou a chorar copiosamente. Passei o meu dedo nos cantos de seus olhos e experimentei. Tinha um gosto bom e ao mesmo tempo amargo. Resolvi pôr em minhas panquecas. Foi um sucesso. Todas as noites as pessoas vinham à minha panquecaria, e noutro dia sempre voltavam, querendo mais e mais. Foi então que em menos de uma semana os casos em toda a cidade começaram a ocorrer. Todos os dias centenas de pessoas&amp;nbsp;dirigiam-se à baía e&amp;nbsp;atiravam-se ao mar, convulsionadas de uma estranha querência que não podiam satisfazer ou explicar. Eu tentava impedi-las, mas elas me empurravam, presas em seu profundo e incompreensível delírio. Gatos, mulheres e crianças. Foram-se todos, levados pelas ondas, angustiados de uma saudade que não podiam aplacar, os seus corações apertados e vivos como nunca o foram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus!, eu pensei, olhando a cidade vazia ao meu redor, apenas as casas e as suas portas mudas. Sem saber o que fazer, corri para a&amp;nbsp;capela que ficava no&amp;nbsp;topo de um pedregulho,&amp;nbsp;dependurada em direção&amp;nbsp;ao mar. Abri as portas de madeira, que já estavam velhas e rangeram de um&amp;nbsp;jeito medonho, e entrei, pálido e já sem olhos para o mundo. Minhas pernas estavam bambas como maria-mole, e tombei sobre o chão empoeirado, com a mão apertando um bilhete sem número, sem sorte. Não sei por quantos dias dormi. Acordei com um barulho que vinha do vitral, logo atrás do púlpito, como se alguém quisesse entrar. Havia sombras coloridas mexendo-se atrás do vidro, e por um instante cheguei a pensar que eram as pessoas que voltavam do mar. Mas eram apenas pombos, que levantaram vôo assustados quando abri a janela. Olhei para a brisa e assim permaneci por uma semana ou mais, salgando as minhas narinas. Então despedacei o meu bilhete no vento, que na verdade era onde eu havia escrito o nome de quem havia limpado as minha botas há muito tempo atrás,&amp;nbsp;e voltei para casa, arrastando os meus sapatos de madeira pela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passou e hoje eu trabalho na cabine da estação de trem. Vendo passagens de ida, ida e volta, e volta. Para Zurique, Milão ou Petrópolis. Pelas catracas eu fico espreitando o senhor de olhar estranho que todos os dias pega o trem das&amp;nbsp;seis para trabalhar. Por um momento pensei que esta manhã estivesse zangado comigo, ou apenas chateado. Eu realmente não sei. Acabo de botar um recado em sua carteira enquanto ele procurava os óculos, como quem arma uma bomba. E quando ele embarcar no trem e sentar-se no lugar de costume, vai conferir a sua identidade e vai ver que há também um papel cuidadosamente embrulhado. E quando ler, vai voltar e devolver-me&amp;nbsp;como se fosse uma dinamite de pavio aceso. De vez em quando, no banheiro, eu olho por aquela janelinha redonda, e fico a observar se aparecem sombras como aquelas que vi no vitral da capela. Antes de dormir, eu ponho uma vela em minha cabeceira e fico escrevendo sob a sua meia-luz os nomes dos que partiram pelo mar. Depois eu sempre acabo esquecendo eles nos bolsos ou devolvendo sem querer junto com as moedas do troco.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-789635603226822531?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/789635603226822531/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=789635603226822531&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/789635603226822531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/789635603226822531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/12/uma-historia-de-lagrimas-e-panquecas.html' title='Uma história de lágrimas e panquecas'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1594159376374540435</id><published>2010-12-02T21:57:00.005-02:00</published><updated>2010-12-14T20:34:38.363-02:00</updated><title type='text'>Perfunctório cenho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Filosofias utilitaristas são bastante razoáveis. Eu mesmo raramente consigo evitar um pensamento utilitarista, e&amp;nbsp;freqüentemente&amp;nbsp;acho que o útil é sempre o melhor critério para tomar decisões. Mas é uma idéia tão feia que eu prefiro tangê-la só de leve,&amp;nbsp;e&amp;nbsp;quando tento me esquivar, pareço mais&amp;nbsp;como alguém que sustenta bolinhas de Natal no ar. Fútil? Talvez. Mas veja pelo meu ponto de vista. Se tudo está lentamente se deteriorando (tudo, tudo mesmo), então não é lógico concluir que toda utilidade no fim será inútil? Meus valores são muito melhores, ainda mais quando me pego no mais flagrante pensamento acrítico, e não se preocupam em serem úteis, pois sabem que tudo termina e que nenhuma utilidade pode ser útil por muito tempo. Não é difícil imaginar como o útil pode levar a uma conclusão absolutamente absurda,&amp;nbsp;dependendo apenas&amp;nbsp;do ponto de partida que se toma.Se visássemos apenas o útil, restaria saber a que fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, o&amp;nbsp;Estado não precisa submeter toda a população a uma cirurgia nos olhos para que vejam tão somente em preto e branco e assim não precisem mais gastar dinheiro com tintas. Mas se o fizesse, não estaria sendo útil? Afinal,&amp;nbsp;gasta-se muito tempo, imaginação e recursos naturais com algo que&amp;nbsp;pode ser&amp;nbsp;dispensado.&amp;nbsp;Da mesma forma, o Estado não&amp;nbsp;precisa ser&amp;nbsp;uma agência bancária onde você pode sacar mensalmente a sua parte nos lucros. E se assim fosse, também aqui não&amp;nbsp;se vê na justificação do Estado como uma utilidade para o indivíduo?&amp;nbsp;Não é isso ser útil?&amp;nbsp;Mas o&amp;nbsp;Estado não&amp;nbsp;é o cocho do povo,&amp;nbsp;nem tampouco&amp;nbsp;é uma espécie de forno que precise ser constantemente alimentado. Não, Estado. Senta aqui que eu&amp;nbsp;lhe explico: você não é apenas uma utilidade, nem é um fim último como é a fabricação de um móvel para um carpinteiro. Você é um fim que, digamos, consuma-se a cada instante. Bom, na verdade nunca se consuma, nem mesmo você é um fim, e o verbo melhor seria: Estado, você se realiza. O Estado não é somente uma utilidade para mim e para você, mas algo que se realiza. Se bem que acaba de ocorrer-me que isso pode não ser mais verdade quando todo o aparato estatal for controlado por robôs, e é bom não duvidar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De qualquer modo, estarei aqui: "Eu jogo golfe assim. Você joga assim" [dá uma rebolada e finge acertar uma bola com o taco]. Por que mesmo? Porque eu acho que a minha opinião nunca vai ser lá muito fixa, e, no entanto, estarei esperando, nos jardins do monastério, depois do arco de pedra, atrás do carvalho sem rosto.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1594159376374540435?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1594159376374540435/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1594159376374540435&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1594159376374540435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1594159376374540435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/12/perfunctorio-cenho.html' title='Perfunctório cenho'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1307128061387927865</id><published>2010-11-21T20:32:00.011-02:00</published><updated>2010-12-17T23:16:02.850-02:00</updated><title type='text'>Bem melhor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Oh! Por favor, Mr. Bonestell, assim você me comove! Não devemos alimentar nossos sonhos com semelhantes emoções, ainda mais quando a sua realização mostra-se bastante nebulosa. Mas quem sou eu para jogar uma pá de areia em cima? Eu mesmo venderia todas as minhas jóias e... Bom, eu não tenho jóias. Mas eu daria todo o meu ordenado e...&amp;nbsp;Sei que o&amp;nbsp;dinheiro que eu tenho é obviamente insignificante, e mesmo que eu fosse rico eu não poderia fazer volume frente aos recursos exigidos para tal empreitada. Então darei meu sincero e caloroso apoio (o que já vale por si, diga-se de passagem).&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TOmVx47hjDI/AAAAAAAAAIY/GW4_3c-V4tI/s1600/Mars_chesley_bonestell.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="165" ox="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TOmVx47hjDI/AAAAAAAAAIY/GW4_3c-V4tI/s400/Mars_chesley_bonestell.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por falar em viagem tripulada a Marte...&amp;nbsp;Fico a pensar&amp;nbsp;quão tolo é opor qualquer objeção a empreendimentos dessa natureza alegando que os recursos exorbitantes de que carecem poderiam ser melhor empregados na solução de problemas urgentes. Sei que resolver a fome na África ou em algum cantão de sua cidade realmente parece de suma importância. E, para ser sincero, eu também acho. Mas ora, a fome sempre é e sempre vai ser um problema de primeira necessidade. Ir ao banheiro também. Pode gastar quanto dinheiro você quiser para abafar tudo isso, mas amanhã isso tornará a ser uma necessidade de igual urgência. Marte pode até esperar, mas a troco de quê acham que&amp;nbsp;existe algum objetivo na vida? A vida pode até ser um bem, mas fim eu tenho certeza que não é, e ninguém que eu saiba age de forma diferente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Além do que, há tantos outros recursos que poderiam ser mais bem&amp;nbsp;direcionados para garantir a vida de todos (e eu não vou nem falar dos gastos militares) que é uma maldade botar esses olhos de mendigo em cima do&amp;nbsp;orçamento das agências espaciais. Na verdade, a maioria das coisas são inúteis para garantir a vida, a começar pelo seu cachorro&amp;nbsp;e o seu xampu; e olha que estou sendo bonzinho.&amp;nbsp;A vida não é mesmo muito exigente, e poderíamos muito bem sermos condicionados em cápsulas, mergulhados em algum líquido especial, com simuladores ligados ao nosso cérebro.&amp;nbsp;Uma viagem a Marte, ou mesmo a construção de um jardim enorme e suntuoso em nada têm de essencial, não prestam a garantir a sobrevivência, e tanto melhor seria se fossem uma horta. Entretanto, os recursos são igualmente abundantes, e há espaço de sobra para empreendimentos fúteis. Muito mais do que abundante, daria para reproduzirmos à vontade palácios de Versailles, sem que isso implicasse necessariamente em fome.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas&amp;nbsp;mesmo que não houvesse recursos o bastante, eu venderia minhas jóias (se eu as tivesse) e passaria meus dias com um sanduíche de manteiga no estômago se isso fosse necessário para permitir uma viagem a Marte. E a conclusão a que eu chego disso é que tanto melhor é um empreendimento quanto mais fútil ele for à vida. A vida, que nem mesmo chega a ser um valor, pode ser de qualquer um, é mesmo invariável, substituível. A vida de hoje será a mesma de amanhã, com algumas leves alterações genéticas conforme o vir das gerações. Mas viver por viver não é bem a nossa especialidade, e a maioria dos seres vivos fazem isso de uma maneira muito mais eficiente. Precisamos de viagens a Marte não porque isso dê algum sentido a tudo, mas porque... é legal.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1307128061387927865?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1307128061387927865/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1307128061387927865&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1307128061387927865'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1307128061387927865'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/11/bem-melhor.html' title='Bem melhor'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TOmVx47hjDI/AAAAAAAAAIY/GW4_3c-V4tI/s72-c/Mars_chesley_bonestell.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-706776252664911985</id><published>2010-11-20T14:56:00.003-02:00</published><updated>2010-11-20T19:43:41.346-02:00</updated><title type='text'>Sobre a toalha</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu, aqui, lentamente estirado sobre a mesa de jantar, entre o pudim de leite e&amp;nbsp;o que restou&amp;nbsp;do ensopado de camarão, seguro resignado a vela acesa sobre o meu peito, suando de tédio e tristeza. Os outros riem, parecem mesmo felizes, nunca pensei que uma festa pudesse ser assim... alegre. Mas eu não. Desde que me fizeram sou pesado, carregado demais, duzentos gramas de gordura em cada dobra de meus lábios. O que me conforta é essa bandeja, embora a posição não é das mais agradáveis. Pobre ensopado de camarão... Foi o primeiro a ser dilacerado, vilipendiado, chafurdado no tumulto dos convivas. Pouco restou. Havia algo nele de distinto que me encantava, mas agora jaz irreconhecível em algum lugar, sem que tivesse a chance de nos ser apresentado como se deve. Olho para eles e não vejo nada que justifique isso. Se ao menos fossem mais altos e magros, se ao menos suas maneiras fossem mais altivas e delicadas, talvez fosse compreensível essa sem-cerimônia com que tratam tudo ao seu redor. Não os detesto, por óbvio... Nutrir semelhante sentimento está muito aquém de meu papel. Eu não diria isso de ninguém aqui. Exceto pelas crianças. São inconvenientes, babam, beliscam, não têm pena de mim. Seus olhos têm um quê de leviano, uma ousadia de gente gorda, mais imprudente do que sagaz. São desastradas como galinhas e&amp;nbsp;impertinentes como cabelo no macarrão. Gostaria que parassem de me fitar, pois já está ficando excruciante suportar esses olhos famintos, úmidos de ingenuidade e pouca sensatez.&amp;nbsp;Gostaria que um piano de cauda caísse em cima de seus dedinhos. Uma mulher muito encorpada e coberta de&amp;nbsp;colares tenta mantê-las afastadas e comportadas. Mas que preceptora mais indolente... E que pescoço musculoso. Deveria ter vergonha de vestir um decote tão aberto; poupasse-me de mais uma cena grotesca. E as crianças simplesmente não se contêm. Onde estão seus pais, afinal? Ah, claro... Conversando, naturalmente,&amp;nbsp;atrás da samambaia, escondidos atrás do pilar, refugiados na sala de televisão e fingindo não ouvir o choro que vem pela janela. Gostaria que pianos de cauda caíssem&amp;nbsp;sobre suas&amp;nbsp;cabeças também. Sério, elas estão dando-me aflição. Olhem, vejam! Um delicioso pudim de leite! Não, elas não estão muito interessadas em pudim. Também... Esse jeito pálido e doentio não deve mesmo fascinar mentes selvagens. Selvagens gostam de brilho, explosões, coisas assim que se mostrem por si mesmas sem grandes esforços. Mas sinto que... Sinto... Nem todo o glacê do mundo poderia confortar-me. Tudo é tão breve e confuso. Mal entrei e vi-me cercado de conversas ininteligíveis e descabidas. Eu poderia escrever em meu diário: "Querido diário, hoje assisti inerte o massacre do ensopado de camarão, e descobri que odiar é querer que um piano de cauda caia sobre os dedos de alguém". Mas não tenho tempo. Agora estão todos reunidos ao redor da mesa, apagaram as luzes e entoam vivas ao dono da festa. Olho para o pudim de leite, mas ele mesmo parece estar triste demais para conversar. Um profundo pesar desceu sobre a mesa de jantar, em meio a uma salva de palmas e assobios. Queria ao menos que o fim não fosse esse fim, seco e incoerente, como se mostrassem a nós que os arquivos da memória não passam de documentos de papel, tão frágeis quanto seus autores. Se o mundo fosse maior do que essa toalha lambuzada de molho... Onde poderei encontrá-lo, pudim de leite? Tão distante e incomunicável, assim nos puseram. Creio que devo dizer que em toda a minha vida nunca vi gênero mais belo, como tudo aquilo que porta a debilidade do ser. Adeus, pudim de leite, adeus. Esses lábios, sensuais como a morte, posso já sentir a longa inspiração que se anuncia. Ele fecha os olhos, aproxima-se, eu também fecho os meus e contraio as minhas camadas. Se o seu desejo não é o mesmo que o meu, ao menos que nossos sonhos sejam feitos da mesma matéria. Adeus, pudim de leite. Eu... um bolo... de aniversário. Morrer, enfim.[&lt;em&gt;A vela se apaga&lt;/em&gt;]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-706776252664911985?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/706776252664911985/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=706776252664911985&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/706776252664911985'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/706776252664911985'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/11/sobre-toalha.html' title='Sobre a toalha'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7324843458072342044</id><published>2010-11-13T14:49:00.024-02:00</published><updated>2010-12-13T02:10:55.227-02:00</updated><title type='text'>Nós, felizes na soleira,</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De braços caídos como os de um chimpanzé. Sei que parece loucura - oh, eu sei! -, mas olhe ao seu redor. Vamos... oooolhe. Não resta muita coisa, vê? Bom, é claro que certamente tem aquela sorveteria ali do outro lado, e - veja só - bibliotecas, museus e um clube de ioga a menos de trinta metros de sua casa. Entretanto, entretanto... Não há nada ali exceto a poeira das eras, e o fluxo causal da história carcome suas já porosas bases. É o que dizem, e eles sabem dizer muitas coisas. Era essa a liberdade que queriam lhe propor, livre como um vento é no campo? Bom, eu até poderia desenhar uma cena muito bonita de você flutuando como um espírito em meio às ruínas, as ruínas de algo que você jamais chegou a tocar e que nem mais venera, e talvez sequer enxergue. Mas eu tenho algo melhor (mesmo porque eu não sei desenhar). Eu, na verdade, iria elaborar tudo em forma de receita - para ir fazendo agora mesmo, nesse instante, mandar você pegar os ingredientes que certamente tem no armário, acompanhar as minhas instruções -, mas penso que o fogão anda um tanto ocupado. Agora mesmo Dona Borboletinha está mexendo o tacho de chocolate, e não vamos atrapalhar-lhe o afazer. Dona Baratinha chega às sete para o desjejum, e a mesa já está posta com a jarrinha de orvalho e o pote de compotas de pólen. Deixemo-la em paz. [&lt;em&gt;Introibo&lt;/em&gt;].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você acorda todas as manhãs de sábado ansiosamente para encontrar o seus amigos, e quando chega no playground, o que encontra? A quadra está alagada. Os balanços estão enroscados de uma maneira inextricável. O salão de festa está alugado para uma conferência presbiteriana. E, para coroar, Sauron novamente ficou preso nos galhos do pé de pitanga -&amp;nbsp;e nós temos medo dele. Então você volta, desanimado, e chama o elevador. No entanto, o elevador demora séculos, pois aparentemente alguém apertou todos os botões, e agora ele&amp;nbsp;descerá lentamente de andar a andar. Você, então, tenta ir de escadas, mas acaba tropeçando em seus cadarços, que estavam misteriosamente amarrados um no outro, e despenca pelos degraus. Você se pergunta: o que é isso, Murilo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o seu porteiro. Como todos sabemos, os porteiros pertencem a uma antiga linhagem de nobres que foram destituídos de suas propriedades e de seus títulos nobiliárquicos quando do advento das repúblicas. Tal os deixou em uma situação bastante constrangedora, sendo forçados a abandonarem os salões e a dormirem em caixinhas de fósforos. Só lhes restaram, como um resquício de nostalgia e piedade, as suas xícaras de porcelana e algumas jóias, que levaram consigo em baús de madeira em sua viagem para a América. Todas as manhãs eles revivem sua antiga glória, vestindo suas perucas e seus gibões de musselina, seda&amp;nbsp;ou veludo, dependendo do fetiche. Fazem pôr em suas mesas suas melhores xícaras, desenhadas a ouro ou pintadas a mão em algum país do Oriente. Depõem as jarras de mel, chá e leite, e bebericam fazendo consoantes francesas, vogais italianas e fungadas inglesas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, as xícaras não são conhecidas por sua durabilidade. Vão-se quebrando ao longo de seu uso. E, infelizmente, esse também é o destino das xícaras dos porteiros. Por mais arabescos que tenham, por mais encantos e prazeres que despertem, tal não impediu que fossem se perdendo, até que todo o armário ficasse vazio. E suas mesas já não podiam ser decoradas, nem a cerimônia podia prosseguir, e o sonho morria, assim, em estilhaços de porcelana. Esse é o motivo do mau-humor de seu porteiro, o que provoca a sua ira e sua irritação, a despeito de jamais ter afetado suas boas maneiras. Eles não porão uma nota de ressentimento embaixo de seu travesseiro, nem farão confidências. Seu jeito de punir o mundo por sua desgraça é sutil e revela-se secretamente, por detrás do retrato de parede e de dentro do relógio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que fazer? Comprar um novo jogo de xícaras? Não me faça isso, não seja tão tolo! Aceitariam com toda a amabilidade do mundo, pois são nobres, mas acabariam jogando no lixo ou mostrando mais tarde aos seus companheiros e fazendo piada com as coisas que os plebeus encontram nas lojas. Nem que você tivesse dinheiro o suficiente para encontrar um jogo inteiro feito no séc. XIX. Não é aconselhável. Se sentiriam humilhados por serem presenteados com artigos que, teoricamente, são de primeira necessidade e devem ser adquiridos com seu próprio provento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único jeito é dançar. Sim, dançar. Não uma dança qualquer, mas uma dança medieval, aquela que é basicamente um movimento de cortejo. Mostre-se genuinamente interessado em ter a honra de dançar com seu porteiro, e - pelo amor de Deus - finja o máximo possível que vocês estão a pelo menos três séculos atrás. É essencial que você fantasie uma cena da nobreza, digna de um salão, a fim de que ele possa sentir-se deliciado em relembrar seus tempos de glória. Arranjar o figurino é essencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feito isso, é bem provável que ele se sentirá tão enlevado que pegará de seu esfregão e, após ungi-lo com a água do balde, tocará levemente em seus ombros e o nomeará Cavaleiro do Edifício Tibagi. É também provável que amanheça debaixo de sua cama um baú de jóias e um pôster de um castelo da Romênia ou da Síria -&amp;nbsp;tudo dependerá do contexto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Eu ainda não sei como faz para tirar o Sauron do pé de pitanga. Aparentemente, isso não é obra dos porteiros, mas uma espécie de fenômeno natural que ocorre geralmente após a chuva.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7324843458072342044?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7324843458072342044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7324843458072342044&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7324843458072342044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7324843458072342044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/11/nos-felizes-na-soleira.html' title='Nós, felizes na soleira,'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8305589846634173187</id><published>2010-11-01T23:44:00.020-02:00</published><updated>2012-01-10T12:26:54.098-02:00</updated><title type='text'>Nesse fim de mais uma era</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que dizer? O poder simplesmente me fascina. Foi com grande pesar que depositei o meu crachá sobre a mesa, e só o fiz porque me pediram, pois, se tivessem esquecido o protocolo, teria levado comigo para casa, assim como fiz com a caixa de correios e o poste de luz. E, agora que meu peito está nu, sinto-me oco de verdades,&amp;nbsp;as quais&amp;nbsp;tão bem&amp;nbsp;soubera&amp;nbsp;erigir&amp;nbsp;sobre as costas alheias, como quem pendurasse, a cantarolar contente consigo, os enfeites de Natal nos galhos de um&amp;nbsp;pinheiro. Mas sem as medalhinhas assim é melhor, pois até já consigo ver a cor de minha blusa. E eu mesmo não era um pinheiro de Natal? Ah desconsolo... Antes jamais&amp;nbsp;houvesse saído do campo, onde eu arava a terra sem reclamar,&amp;nbsp;tendo&amp;nbsp;como&amp;nbsp;única preocupação a hora do almoço em que, ávido,&amp;nbsp;tomaria de&amp;nbsp;meu pão e&amp;nbsp;de meu café, largados a um canto à sombra de uma árvore e&amp;nbsp;enrolados numa trouxinha de bolinhas vermelhas presa a um cabo de vassoura. Mas agora é tarde, e ter visto e sentido uma única vez bastaram para que eu nunca mais passasse um dia sem voltar os meus olhos para aquela direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas e quantas&amp;nbsp;marcas não&amp;nbsp;deixará isso para o resto de minha vida -&amp;nbsp;fico a pensar.&amp;nbsp;Ainda bem velhinho, em uma tarde quente de dezembro,&amp;nbsp;posso imaginar-me&amp;nbsp;ministrando uma&amp;nbsp;pequena palestra&amp;nbsp;em uma sala de um colégio municipal&amp;nbsp;&amp;nbsp;-&amp;nbsp;as crianças apoiadas em suas carteiras, algumas babando, outras deixando cair sonolentas suas cabeças para trás, a professora encostada a um canto mordiscando uma maçã&amp;nbsp;- E, então,&amp;nbsp;diria&amp;nbsp;que "en dos mily des, dos mily des, en uma amena prrimaverra, eu&amp;nbsp;fui convocado&amp;nbsp;parra trrabalhar&amp;nbsp;como&amp;nbsp;2ª Mesárrio na seçión 44. Non nos derron água nem sanduhiche, apenas uma dinherro inutil que não podia serr gasto em lugarr algun".&amp;nbsp;E&amp;nbsp;narrar-lhes-ia todos os procedimentos realizados naquela eleição, desde o momento em que ligamos as urnas eletrônicas até a contagem regressiva para as cinco horas, quando, muito emocionados, brindamos o fim em copinhos&amp;nbsp;de plástico, transbordantes do&amp;nbsp;café que a 1ª Mesária havia trazido de casa. Sim, o fim de uma era. Certamente, aos&amp;nbsp;meus olhos nebulosos e contemporâneos, não sou ainda capaz de compreender a extensão de minha perda, e só realmente o saberei quando, sentado em minha cadeira de balanço a ler o Código Eleitoral,&amp;nbsp;estalar-me de súbito e quase desprevenido&amp;nbsp;o entendimento de&amp;nbsp;que o que eu tinha em mãos não eram prerrogativas ou "idéias legais", nem mesmo privilégios ou títulos&amp;nbsp;aleatórios de nobreza. "Eu portava Autoridade", direi eu, enfim, quase&amp;nbsp;num balbucio, deixando cair de minhas mãos trêmulas o pequeno volume.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu era feliz e não sabia. As minhas ordens eram prontamente obedecidas, sem hesitação ou questionamento, e esse é o verdadeiro sentido da Autoridade. "Assine aqui", eu dizia, e a pessoa assinava. "Mostre-me seu título de eleitor", e a pessoa seria capaz de fornecer-me até a senha de seu orkut. "Abram passagem para o Segundo Mesário", eu&amp;nbsp;anunciava, dando pancadinhas com minha bengala em suas pernas e&amp;nbsp;forçando-as a abrir um corredor em meio à multidão. "Não lata para um funcionário público, animal tolo", e o cachorro abaixava suas orelhas e retornava a sua casinha sem voltar-me as costas. Ah... a&amp;nbsp;Autoridade: tão doce e ao mesmo tempo tão penosa... Bem é verdade que há sorvetes de nuvens, manjares de cereja e sanduíches de chantilly. Entretanto, meus caros, há responsabilidades&amp;nbsp;de cujas forjas as mãos jamais sairão ilesas, e o peso desse encargo acompanhar-me-á pelo resto de&amp;nbsp;minha vida, até que todos os meus ossos tenham virado pó e até que o meu nome tenha sido apagado de todos os livros e de todos os anais. Em meu túmulo, escreverão o epitáfio: "Aqui jaz o Segundo Mesário, cuja responsabilidade ainda&amp;nbsp;paira sobre&amp;nbsp;as Eleições de 2010". Então, viúvos da Terra e do Céu, dirão consternados ao vento, as lágrimas confundindo-se à chuva, enquanto meu caixão desceria lentamente ao profundo jazigo: "A Autoridade é maior do que os homens que a portam, e senão os esmaga, é porque ela nunca esteve acima de nada ou ninguém, mas era apenas um vínculo forte o sufciente para fazer mover sem sequer tocar". Mas então já seria tarde, e mais um filho assim fenecia, seco e corroído pela ânsia de poder, quando, julgando possui-la, entregara-se à paixão&amp;nbsp;de uma&amp;nbsp;ilusão, perseguindo no horizonte aquilo que a verdadeira Autoridade jamais&amp;nbsp;quisera proporcionar: vaidade e fortuna.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Diderot e D'Alembert&lt;/em&gt;: Ficamos imensamente estarrecidos com o seu proeminente esclarecimento a respeito do conceito de Autoridade, e gostaríamos de agraciá-lo com a nossa mais importante solenidade inaugural. Incomodá-lo-íamos se acaso lhe pedíssemos que acendesse esse candelabro?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Sr. 2º Mesário&lt;/em&gt;: Oh, mas seria uma honra! Quão lisonjeado não me sinto por sua respeitosíssima consideração. Finalmente me vejo reconhecido pelos meus! [&lt;em&gt;acende o candelabro quase aos prantos&lt;/em&gt;].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Voltaire&lt;/em&gt;: Bravíssimo! Veja com que maestria não o faz!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Montesquieu&lt;/em&gt;: Belíssimo! Os salões de toda a Paris estão encantados!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Benjamin Constant&lt;/em&gt;: Ah, vejam como resplandece em suas mãos!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Aristóteles&lt;/em&gt;: Desculpem-me. Salão errado.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Rousseau, com inveja e batendo o leque&lt;/em&gt;: Uh...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Sr. 2º Mesário&lt;/em&gt;: Obrigado, obrigado...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[&lt;em&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=JSAd3NpDi6Q"&gt;Música de fundo&lt;/a&gt;.&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Sr. 2º mesário despede-se de todos após uma longa e exagerada&amp;nbsp;reverência, e encaminha-se até as imensas portas do salão, a passos largos e lentos, puxando a todo instante pela corrente um macaquinho uniformizado: "Mais modos, Alfred".&lt;/em&gt;]&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em uma desesperada homenagem a tudo aquilo que eu perdi e simplesmente não compreendo. Deixo, aqui, se ao menos posso fazer desse fim, que é um fim de algo outro, não deste, um terno registro das coisas mais belas que&amp;nbsp;já me ocorreram. E se beleza não é remição... Paciência.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*Fim*﻿&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8305589846634173187?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8305589846634173187/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8305589846634173187&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8305589846634173187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8305589846634173187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/11/nesse-fim-de-mais-uma-era.html' title='Nesse fim de mais uma era'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-275469969052688268</id><published>2010-10-28T22:34:00.006-02:00</published><updated>2010-10-28T23:31:52.467-02:00</updated><title type='text'>Estudos pragmáticos domésticos, cap. XII</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bem é verdade que a vida civilizada pode proporcionar-nos condições materiais necessárias ao pensar metafísico ou mesmo puramente estético. Entretanto, alguns incômodos são inevitáveis, a não ser que se aprecie viver como um hippie imundo e sem direção, o que, obviamente, não é o nosso caso. Assim o são as regras sociais que, embora possam trazer certo desgaste físico e mental, sua observância é capaz de criar um mundo agradável e prático ao nosso redor, de modo a preservar-nos&amp;nbsp;a intimidade e poupar-nos de ter que criar constantemente maneiras de relacionamento, bastando seguir alguns protocolos comportamentais.&amp;nbsp;Por outro lado, dominar as artimanhas da prática social pode promovê-lo aos mais altos estamentos da sociedade, sem que, para isso, seja necessário possuir algum talento especial, sendo suficiente o pleno domínio dos padrões de comportamento, os quais o ajudarão a abrir brechas no denso emaranhado de interesses conflitantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mesmo&amp;nbsp;modo, devemos submeter-nos a certos usos e modas correntes na sociedade se realmente queremos participar nela como uma pessoa civilizada, e boa parte das regras começam pelas vestimentas, pois lidam diretamente com a arte de esconder e aparentar. Porém, como nem sempre as vestimentas foram desenvolvidas para serem práticas, faz-se necessário aprender alguns truques que pouparão sacrifícios. A questão a ser abordada neste capítulo é: espartilhos. Quantos e quantos de nós não sacrificamos horas e horas de nossa manhã apenas para ter sua caixa torácica prensada em espartilhos, cujos elásticos estão tão tensos que&amp;nbsp;nem&amp;nbsp; as leis de Newton&amp;nbsp;logram explicar sua efêmera estabilidade?... Apesar do grande dispêndio de energia, são capazes de manter a massa extravagante em ordem, surrupiando, ao menos temporariamente, alguns quilos dos olhos alheios, de modo que são indispensáveis para uma boa apresentação em sociedade. Acontece, todavia, que o esforço em vesti-los é de tal magnitude e exaustão que se chega a duvidar se realmente seu uso vale a pena, desejando-se intensamente que a moda passe ou que ao menos alguém encontre uma solução que alivie o encargo. Pois a dificuldade em vesti-los chegou a tal monta que o seu uso começa a atrapalhar outros hábitos igualmente importantes, resultando em uma perda que põe sua observância em franca desvantagem. Mas há os que digam: "E daí?&amp;nbsp;Que me importa se eu gasto duas horas com espartilhos... O importante é que eu estou bonita e blá blá blá". Insolente,&amp;nbsp;você devia ser&amp;nbsp;afogado na fonte pública. Essas duas horas deveriam estar sendo gastas lendo Thackeray, e não espremendo-se ofegante na frente do espelho. Nada mais deplorável do que uma esposa iletrada, cuja cabeça é tão oca que o marido tem que atravessar um salão enorme ladeado com os bustos de todos os imperadores de Roma para chegar até a sua mulher.&amp;nbsp;É exatamente o que acontece com os espartilhos, cujo prejuízo de tempo compromete outras atividades mais frutíferas e úteis no meio social como a leitura, haja vista o tempo que se leva para vesti-los, tempo este que poderia ser bem melhor aproveitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o&amp;nbsp;que fazer para continuar usando-os sem que isso comprometa tempo e força física?&amp;nbsp;Muitas mulheres tentaram suprimir essa penosa rotina dormindo com os espartilhos, de modo que, quando acordassem, não precisariam chamar Beth, Liza e Mary. O problema, porém, é que pela manhã elas simplesmente não acordavam mais. Muitas foram as que morreram durante a noite, sufocadas debaixo dos lençóis, levando ao túmulo horríveis caretas. Essa não é, certamente, a solução. Mas o momento da rendição chegou. Após muitas experiências e catástrofes científicas, encontrei o mecanismo ideal, que não só eliminará tempo e esforço, como também dor. É, contudo, muito simples, e pode ser realizado por qualquer um, não exigindo grandes custos ou inteligência. Você precisará:&lt;/div&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;um espartilho (dã);&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;2 pregos&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;2 ímãs;&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;cola.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Imagino que não será difícil obter esses objetos. Acaso tenha dificuldade, repita essas palavras (mas para a sua empregada, e não para as paredes -&amp;nbsp;não vá dar uma de tonta): "Beth, vá até a caixa de ferramentas de meu marido e arranje-me pregos, cola e ímãs". Em um passe de mágica, estarão devidamente em cima de sua cama. Em seguida, estique o seu espartilho de maneira que fique bem amarrado entre o armário e a penteadeira. Pregue as extremidades em ditos móveis. Feito isso, e certificando-se de que o espartilho encontra-se bem esticado, cole (usando a cola) os ímãs nas pontas do espartilho. Imprima seu corpo com os braços levantados contra o espartilho, de modo a fazer um brando "v". Chame Liza e Mary. Liza e Mary deverão despregar os pregos ao mesmo tempo. Essa regra deverá ser cuidadosamente observada pois,&amp;nbsp;caso contrário, os acidentes poderão ser drásticos. Retirados os pregos, as extremidades do espartilho serão impelidas uma em direção a outra, atraídas pelo ímã e impulsionadas pela tensão física, de forma a envolver o seu corpo,&amp;nbsp;deixando seu tórax firmemente preso e comprimido. Como pode ver, tal sistema não leva mais do que alguns minutos: sem dor, sem esforço, sem delongas. E agora você pode gastar a manhã inteira lendo Thackeray, ou qualquer outra coisa que preste, e&amp;nbsp;as suas criadas, claro, poderão dedicar-se a fazer uma deliciosa torta de amora. No final, todos saem ganhando.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-275469969052688268?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/275469969052688268/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=275469969052688268&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/275469969052688268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/275469969052688268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/10/estudos-pragmaticos-domesticos-cap-xii.html' title='Estudos pragmáticos domésticos, cap. XII'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-4765208566041348859</id><published>2010-10-24T22:16:00.005-02:00</published><updated>2010-11-15T15:48:15.035-02:00</updated><title type='text'>Por que nós não precisamos de carros?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ontem notei que eu não tinha um carro, quero dizer, não um que seja propriamente meu, o que foi, obviamente, uma surpresa, pois eu sempre tive a impressão de que eu estava indo para algum lugar. Então todos aqueles carros, limusines e ônibus não eram meus? Estou estarrecido e acabo de despejar a água do vaso em minhas costas, pois, francamente, eu realmente tinha a impressão de nunca precisar pedir ou implorar para que o carro começasse a andar. Eu&amp;nbsp;embarcava, fechava os olhos, e... voilà! Lá eu estava. No começo achei que fosse alguma espécie de teletransporte acionado pela força do pensamento, ou&amp;nbsp;algo como uma&amp;nbsp;irresistível obediência à simples presença de minha autoridade. Mas agora sei que eu estava apenas pegando uma carona. Entretanto, após muito pensar, acabei concluindo que nós não precisamos de carros. Isso&amp;nbsp;é o que tentam nos convencer, mas a verdade é que veículos motorizados são simplesmente dispensáveis, e nós podemos chegar a qualquer lugar em que queiramos ir, não importa a distância, porque:&lt;/div&gt;&lt;ol&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nós, seres humanos, somos portadores de um dom que recebemos muito antes de nascer, e os contos de fadas estão repletos de relatos que comprovam que esse dom sempre esteve presente entre nós, a despeito de todo ceticismo. Não precisamos de carros porque, simplesmente, os pássaros podem nos carregar, bastando chamá-los e dizer-lhes o destino pretendido. Branca de Neve não foi a primeira nem a última a utilizá-los. Rápidos e singelos, os pássaros não requerem mais do que um punhado de alpiste para levá-lo a qualquer lugar além das colinas.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mesmo que você não tenha uma voz angelical para chamar os pássaros, há sempre a opção de virar um monge. Como todos sabemos, os monges adquirem, após muito treinamento, a capacidade de viajar através da luz dos vitrais, bastando para isso algumas horas de meditação e jejum. Há um amplo sistema de monastérios integrados ao redor de todo o mundo à disposição dos monges, de modo que todo monastério - não há erro - acabará dando em outro monastério, e isso pode tornar-se uma oportunidade única para conhecer toda a Cristandade.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, caso não haja monastérios em sua cidade, ainda pode-se contar com um sistema descoberto na Inglaterra vitoriana, que, embora haja controvérsias a respeito de sua moralidade, não há dúvida de que funcionou muito bem. Consiste em dar pancadinhas com a bengala nas juntas das pernas, quero dizer, na parte anterior dos joelhos, entre a coxa e a panturrilha. Uma pequena pancadinha nas pernas de uma criança proletária é capaz de transportá-lo de sua suíte até o teatro. Uma pancadinha nas pernas de um estivador o fará atravessar o Atlântico, proporcionando-lhe uma viagem de negócios até Boston rápida e sem enjôos. Nunca foi tão fácil apostar na bolsa de Nova York.&lt;/div&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ol&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Como podem ver, não precisamos de carros. Nosso sistema de transporte é sem dúvida poluidor, caro e de dúbia comodidade, e não hesito em dizer que em breve estará moral e economicamente defasado quando souberem disso.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-4765208566041348859?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/4765208566041348859/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=4765208566041348859&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4765208566041348859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4765208566041348859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/10/por-que-nos-nao-precisamos-de-carros.html' title='Por que nós não precisamos de carros?'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7912989394338243823</id><published>2010-10-19T20:08:00.002-02:00</published><updated>2010-10-19T21:19:09.948-02:00</updated><title type='text'>Roldanas, apenas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vim aqui apenas para conciliar-me. Gostaria de mostrar que, por trás dessa máscara de pó-de-arroz e debaixo desse chapéu de plumas, esconde-se um humilde&amp;nbsp;ser humano&amp;nbsp;pronto a montar na frente de sua propriedade uma fila do sopão, acendendo nos tambores de lixo dos necessitados uma ardorosa chama da caridade e dando a todos, sem&amp;nbsp;olhar a quem, uma bela caneca de legumes e carne. Deixo a frente de combate e assumo meu lugar no mundo mais uma vez, para dizer a todos sobre "as terras por onde andei, e os amigos que lá deixei". Abro então um grosso volume da estante - não que precise estar algo escrito, mas apenas enquanto uma maneira de abrir um livro suspirando e relaxando a musculatura das costas no&amp;nbsp;estofado - e chamo para mais perto minha caneca de chocolate-quente. É preciso deixar os rosnados de lado, ao menos por um tempo, e esquecer o olhar nas fagulhas que ascendem em estrépitos da lareira, pois o mundo - eu sei, vai ser um choque - não é aquilo que eu disse. Bem é verdade que o mundo supra-sensível tem seus encantos, e que deixar-se seduzir pela plano das estruturas lógico-normativas é tão fácil quando não se tem que preocupar-se com&amp;nbsp;o objeto de&amp;nbsp;carne e osso que ficou para trás no processo objetivo de intelecção. Porém, meus irmãos, é como se o real morresse um pouco cada vez que se avança nessa pureza de pensar, e morrendo o mundo, perece o pensamento, e todas as terras que ele busca atingir afundam-se igualmente no horizonte das categorias abstratas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu havia dito que nada&amp;nbsp;mais inútil que a caridade. Sim, em certo sentido, mas nada mais vivo e belo que os pequenos gestos que&amp;nbsp;tentam manter&amp;nbsp;estáveis os pilares de nossa civilização, como se fossem úteis roldanas a tirar a sobrecarga por alguns instantes. Pois, embora meras roldanas, são roldanas, e fazem mover benfazejas os corações daqueles privados de todo o esplendor do Ocidente, quando então uma pequena parte de suas sombrias figuras são resgatadas da lama e trazidas à tona [para depois novamente naufragarem mal viram&amp;nbsp;os voluntários&amp;nbsp;as costas]. Roldanas podem parecer insignificantes diante de toda a enorme engrenagem. Mas é verdade que roldanas, apesar de meras roldanas, são muito bonitas e úteis, pois distribuem peso e aliviam&amp;nbsp;a dor do&amp;nbsp;trabalho. Lembro-me agora de um cenário do jogo do Pato Donald (que por sinal era em vários pontos aterrorizador, sombrio, místico e instigante), onde você tinha que conduzir o personagem através de varais, apoiando-se em roldanas e deslizando até o lado oposto. Ao fundo havia um cenário perturbante de uma cidade de tijolos alaranjados em um entardecer. Era muito bonito e ao mesmo tempo... qual é a palavra? Desolador, como todo fim de tarde.&amp;nbsp;Enfim, roldanas são belas em aspecto e função, assim como pode a caridade ser, pois bondade também é beleza e razão, quero dizer, senão ao menos conversíveis entre si, apóiam-se como condições de existência. Pois certas coisas não são possíveis de valorar-se pelos seus efetivos resultados, mas aquilo que lhes deu origem já vale por si mesmo, e indica que as coisas existem e acontecem não importa o aproveitamento que se lhes possa tirar. Caridade já vale por aquilo que é, independentemente de quão&amp;nbsp;fútil e efêmero seja seu resultado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dentre outras mentiras e veleidades que me esqueci enquanto lia esse livro imaginário que eu tirei, mas que, sem dúvida, mancham igualmente meu semblante. Apenas para dizer que eu deposito mais confiança no que os outros falam do que em minhas próprias palrações. Bom, na verdade somente em alguns, evidentemente, nos quais deponho o dever de corrigir-me, pois sei que detêm a tão desejável ilustração pela qual exponho o meu pensamento. Mas o que estou a dizer! Não devo satisfações de meus negócios! [joga a a caneca de chocolate-quente na cara da anfitriã&amp;nbsp;e começa a dançar ao som de &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=Y3KQzPkZV0M"&gt;Gipsy&lt;/a&gt;. Na verdade, todos começam a dançar].&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7912989394338243823?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7912989394338243823/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7912989394338243823&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7912989394338243823'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7912989394338243823'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/10/roldanas-apenas.html' title='Roldanas, apenas'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-2230178281939435134</id><published>2010-10-11T22:31:00.004-03:00</published><updated>2010-10-19T20:18:05.461-02:00</updated><title type='text'>Coração de areia</title><content type='html'>Nos pálidos nodos das espáduas desliza&lt;br /&gt;O negro manto de súbito despertado&lt;br /&gt;Sobre o silêncio da torre de brilhante hulha&lt;br /&gt;Onde de trás sequiosas esconsas polias&lt;br /&gt;Erguem&amp;nbsp;pesados anéis do velo de sombras&lt;br /&gt;E vestem-me a opalina pedra erigida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcham os úmidos pés sobre o promontório&lt;br /&gt;Emerso dos braços de estrelas esgarçadas&lt;br /&gt;Nas rochas da noite, e no cinzento zimbório&lt;br /&gt;Das nuvens finco-me o gume de rouca ânsia&lt;br /&gt;Vertida das pulmonares bolsas inchadas&lt;br /&gt;Das notas contorcendo-se em amarelo óleo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espraio-me nas douradas trompas do abismo&lt;br /&gt;E deixo levar-me o vento a inútil espuma&lt;br /&gt;Dos cabelos cobertos em sinos de sal,&lt;br /&gt;Como se&amp;nbsp;o silvo&amp;nbsp;me arrefecesse aos ouvidos&lt;br /&gt;O sentido de meu rastro pelo ermo gelo&lt;br /&gt;Onde estremece a aurora em semblante esquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pairo lúcido espectro sobre a vela ardente&lt;br /&gt;De uma insone memória que em luz de cinábrio&lt;br /&gt;Rasga-me o odre de ferro como a um ventre,&lt;br /&gt;E em febre nas trevas em asas de quitina&lt;br /&gt;Arrasto-me extinto de todo o antigo anelo&lt;br /&gt;Perdido em roxas brumas dos olhos pungentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revolvem no lodo as rodas o frágil vulto&lt;br /&gt;Que submerso decanta seus veios de cálcio&lt;br /&gt;Pelo pântano como um coração de areia,&lt;br /&gt;E nas dragas de lúrida fronte convulso&lt;br /&gt;Enfim descubro a mais dura pedra colhida&lt;br /&gt;Vazar em lama de ervas dos punhos oclusos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-2230178281939435134?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/2230178281939435134/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=2230178281939435134&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2230178281939435134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2230178281939435134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/10/desfazer-se.html' title='Coração de areia'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3916271316508723356</id><published>2010-10-09T12:00:00.006-03:00</published><updated>2010-10-11T19:41:00.163-03:00</updated><title type='text'>Ao pé de uma macieira</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao expor a minha dúvida quanto à possibilidade de haver a multiplicação de riquezas diante de um mundo natural que apenas se reproduz através de si mesmo, sem que isso signifique qualquer espécie de aumento quantitativo de matéria, fui acusado, e bem justamente, de portar uma concepção medieval da economia. Eu reconheço a minha ingenuidade, mas, embora eu não devesse, senti-me orgulhoso disso. É como se eu me visualizasse encostado em uma macieira, a escrever um tratado sobre a agricultura em latim, cunhando sentenças de tom moral, mas solidamente calcadas na antiga lógica aristotélica. E,&amp;nbsp;volta e meia, eu volveria meu olhar&amp;nbsp;para a vista do campo, dominado por um castelo erguido no sopé de uma pequena colina,&amp;nbsp;onde os servos semeiam as valas abertas e empurram o arado pelo solo, um tanto duro, mas que logo&amp;nbsp;vai cedendo ao instrumento puxado por dois&amp;nbsp;bois de olhar brejeiro. E então, suspendendo a&amp;nbsp;pena por esses longos momentos de contemplação, iria compondo lentamente sobre a verdadeira origem da riqueza de um país.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É que as idéias dos antigos parecem-me muito mais simpáticas e pacíficas, como se a sua manifesta ignorância, que só agora nos parece manifesta ignorância, não fosse senão a revelação de um mundo mais terno e calmo, de ritmo lento como as passadas de um boi. Tão diferente dos modernos moralistas, que parecem gritar em meus ouvidos, conclamando o céu e o inferno para que venham às suas fileiras e marchem em direção a um destino&amp;nbsp;hipotético e pseudocientífico. Parecem ter perdido a capacidade de falar em um tom sereno e sério, como se o discurso não pudesse fazer efeito nos ouvintes senão através de expressões de violência e dados assustadores, como se o nosso sono não pudesse ser despertado senão através do medo e de mentiras, engenhosamente disfarçadas para servir a&amp;nbsp;sua boa-causa. Porque a verdade, para eles, não passa de uma concepção parcial da realidade, amoldada por interesses de grupo ou classe, e a sua&amp;nbsp;busca objetiva é uma ilusão, da qual estão cansados e agora tomam as ruas queimando pneus e fazendo chantagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles tocam o meu interfone e começam a falar uma série de coisas, que eu não entendo bem, pois há muito barulho de buzina no fundo. Eu&amp;nbsp;até tento discernir algum sentido racional em seus discursos de palanque, mas&amp;nbsp;só consigo&amp;nbsp;escutar aqui e acolá "hipocrisia", "nova ordem", "pró-ação", "tira essa bunda do sofá". Eu vou, mas é para colher maçãs e para pôr &lt;a href="http://rashomon.blogspot.com/"&gt;essa&amp;nbsp;bonita fotografia&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TLCDWVXfyPI/AAAAAAAAAIU/d49df53ESto/s1600/giacomelli.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ex="true" height="305" src="http://3.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TLCDWVXfyPI/AAAAAAAAAIU/d49df53ESto/s400/giacomelli.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3916271316508723356?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3916271316508723356/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3916271316508723356&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3916271316508723356'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3916271316508723356'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/10/ao-pe-de-uma-macieira.html' title='Ao pé de uma macieira'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TLCDWVXfyPI/AAAAAAAAAIU/d49df53ESto/s72-c/giacomelli.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5570668101320712173</id><published>2010-10-05T21:55:00.017-03:00</published><updated>2010-10-08T18:00:34.879-03:00</updated><title type='text'>Eu aqui, polindo os meus óculos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Muitas vezes a conveniência faz com que conceitos fundam-se um aos outros, como se não fossem mais do que digressões de um mesmo ser, e como se cada fragmento do vitral pudesse ser tomado como a origem primeira e o destino último dos demais. E assim&amp;nbsp;torna-se possível a criação de um monopólio de um conceito sobre todos os outros, forçando-os a comprimirem-se em uma mesma moeda, na qual não é mais possível manter intactos os antigos limites que os circunscreviam. Então a posição do observador passa a ser não apenas o início de toda especulação, mas o denominador comum, que não somente paira sobre os conceitos como uma sombra, mas envolve-os e imiscui-se em suas essências, confundindo-os em um mesmo plano artificialmente ampliado. É o que muitas vezes acontece quando algumas pessoas resolvem enxergar as coisas pelo "prisma social",&amp;nbsp;pretendendo interpor entre o sujeito e o objeto uma teoria científica e, ao mesmo tempo,&amp;nbsp;"desmascarar" a realidade, sem que isso implique em qualquer contra-senso em seu discurso, como se as máscaras caíssem automaticamente sob a luz dessa teoria, que já não é mais mero discurso hipotético, mas verdade revelada. Porém, enxergar as coisas por outro prisma é algo curioso para mim, pois eu mesmo penso os prismas como a metáfora perfeita para os seres imutáveis, sólidos e exatos, e não como transparências diante das quais tudo parece relativizar-se em miríades de posições. Da mesma forma, não consigo entender como e quando foi que a universidade passou a ser entendida como instituição social,&amp;nbsp;nem entendo em que sentido&amp;nbsp;poderia realizar qualquer espécie de função junto à sociedade, como tão fastidiosamente tem-se comentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ouço falar em universidade, o que me vem à mente - e não só à minha, mas imagino que à de muitos ainda – é aquele velho conceito de universidade, construído pelos séculos e levada até os nossos dias pela tradição, que nos fala de um lugar voltado para o ensino e pesquisa científicos, preocupado na formação profissional de técnicos e na transmissão da cultura. Mas parece que os fins que persegue já não são suficientes para justificar a sua existência, e agora urge que adote uma postura mais ativa no meio social, desenvolvendo programas que beneficiem diretamente a sociedade como um todo, e não agindo como se fosse uma nave alienígena, voltada para si e alheia às mazelas de nosso sistema. Afinal, ela recebe recursos públicos provindos da contribuição de todos, de modo que a universidade não é mais do que uma servidora, cuja principal preocupação deveria estar centrada nas necessidades de seu meio, e não em perseguição a fins esdrúxulos e fúteis, sem utilidade imediata que possa ser aproveitada por toda a população. Não pode ser mais vista, portanto, como uma mera instituição de ensino e pesquisa, mas um agente social, calcado nos valores da justiça e da igualdade, como mesmo convém a uma verdadeira democracia. E então ela segura na barra da saia e faz uma leve flexão com os joelhos, pois não é justo que tão-somente uma pequena parcela da população se beneficie de todo o seu aparato, pois aquilo que todos ajudaram, de uma forma ou de outra, a construir, deverá ser por todos acessível, e aqueles que, devido a condições sócio-econômicas desfavoráveis, mantiveram-se afastados de sua instituição deverão ser incluídos, numa entediante tentativa de aliviar em seus quadros as desigualdades econômicas, raciais, étnicas, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ocorre, entretanto, que a universidade nada tem a ver com tais condições sócio-econômicas, e pouco lhe importa que camadas inteiras da população sejam sistematicamente eliminadas de suas carteiras e laboratórios. Os valores que constituem a sua natureza institucional não são o da justiça e da igualdade, pois o espaço em que se desenvolvem as pesquisas e o ensino não é um espaço social, muito menos um espaço político, pois a maneira como promove suas ações não se dá baseada em necessidades econômicas ou em interesses comuns que atinjam a todos, nem mesmo pretende ser um espaço de decisão ou determinado por regras comportamentais. Os valores que regem o ambiente universitário são o do mérito pelo conhecimento e o da iniciativa científica, de modo que constitui-se não em uma estrutura eminentemente democrática, mas em uma hierarquia entre aqueles que sabem e aqueles que querem saber. O que promove suas relações é o conhecimento, e só em torno deste é que se promove o debate, não no sentido em que se dá em um ambiente político, pois não almeja nenhuma tomada de decisão, mas apenas no sentido da promoção da ciência, no aprimoramento da técnica e do conhecimento. É por isso que um professor não pode esperar aprender muito com seus alunos, a não ser que se esteja diante de um claro déficit de formação acadêmica, pois não são iguais que se encontram no ambiente universitário, mas indivíduos hierarquizados pelo conhecimento. É claro que semelhante hierarquia não é a mesma que se dá em um espaço social, pois é muito mais volátil e relativa, e os pólos entre aquele que sabe e aquele que quer saber podem facilmente inverter-se conforme a situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se quer dizer é que a universidade não pode vincular-se à subsistência da sociedade, pois visa à produção de conhecimentos de forma livre, e semelhante intromissão só tem a atrapalhar toda a iniciativa científica. Do mesmo modo, a formação profissional e a promoção cultural que desenvolve não pode transformar-se em mero serviço público, pois não se trata de extensão de um departamento da administração. É importantíssimo que mantenha autonomia face à política e à sociedade, pois os fins que estas perseguem são absolutamente impróprios na consecução de um de seus principais objetivos: a busca pela verdade. Quando se atrela as iniciativas científicas da universidade às necessidades sociais ou aos interesses políticos, a pesquisa está fadada ao condicionamento, e a produção do conhecimento perderá o seu tão essencial caráter objetivo e neutro. Os interesses, sejam sociais ou políticos, amoldam a produção dos fatos, vinculam os objetivos e tecem verdades falsas e parciais, que nada têm de científico, mas, ao contrário, constroem ideologias, contra as quais não parece haver verificabilidade ou provas em contrário que possam desmenti-las ou iluminá-las. Mesmo as promoções culturais, que talvez sejam as atividades que mais se aproximem a um conteúdo político ou social, não podem sobreviver durante muito tempo como ação autônoma e espontânea quando começam a perseguir algum tipo de finalidade que não a própria produção cultural. Pois se a universidade em vários momentos pretende a transmissão e cultivo de idéias, tradições, filosofias, o faz no sentido de manter o conhecimento vivo e livre, e sua liberdade cessa exatamente quando passa a perseguir fins alheios à sua natureza institucional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mesmo modo, transportar artificialmente&amp;nbsp;valores de justiça e igualdade para um lugar que é tradicionalmente formatado pela hierarquia do conhecimento não é fazer mais do que a anfitriã que encobre os móveis de sua casa com lençóis floridos. A universidade não é lugar para justiça ou igualdade social, pois tal deve ser feito muito antes, em sua verdadeira origem. Tentar mascarar problemas sérios de ensino sob a égide de um pretenso valor social que deve buscar a universidade, assemelha-se mais à ação caritativa do que a um ato de justiça, e nada mais inútil do que a caridade.&amp;nbsp;Esta se parece com&amp;nbsp;uma espécie de um mal necessário, como uma &lt;em&gt;ultima ratio&lt;/em&gt;, quando nada mais é possível de ser feito e quando tudo parece já não adiantar. Então temos a caridade, que apenas consegue&amp;nbsp;sustentar, manter em movimento&amp;nbsp;as pás de um moinho, mas nunca construir um outro moinho. Assemelha-se mais ao trabalho solitário e&amp;nbsp;recôndito do burrinho, que faz&amp;nbsp;girar as engrenagens&amp;nbsp;enquanto se move&amp;nbsp;em círculos lentos, como se o seu próprio trabalho não fosse senão um mudo sofrimento. Caridade morre em si mesma. Quando a ação caritativa cessa, nada além dela sobrevive. Pois é um ciclo, não uma reta projetada para o futuro, como é a acumulação do conhecimento e a ação política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu digo isso (e aqui me dispo de qualquer conteúdo para atingir o neutralmente polido, o discurso de plumas e pó-de-arroz, pois mesmo não acho que semelhantes idéias sejam fáceis de virem desacompanhadas de ódio e preconceitos) tomando meu chá de erva-cidreira, e não dando surras com pão-bengala em suas costas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5570668101320712173?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5570668101320712173/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5570668101320712173&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5570668101320712173'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5570668101320712173'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/10/algo-que-aprecio-muito-sao-categorias.html' title='Eu aqui, polindo os meus óculos'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8218085873384118649</id><published>2010-09-16T21:22:00.047-03:00</published><updated>2010-10-02T17:00:10.771-03:00</updated><title type='text'>Hans Gangbal</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu me lembro bem. Fazia uma noite chuvosa sobre os prédios, e no céu a lua ocultava-se envolta em nuvens de um país estrangeiro. As estrelas apagavam-se sob a massa cinzenta, levemente violeta das luzes da cidade, e os pingos da chuva desciam finos e prolíferos, escorrendo pelos telhados e sobre os muros feios. Era uma péssima noite para estar a pé. Eu havia acabado de chegar a São Paulo, vindo do Rio de Janeiro, onde havia desembarcado há poucos dias. Procurava um lugar mais ao interior e afastado do mar, onde não houvesse barcos nem gaivotas que pudessem tumultuar o coração de um imigrante. As praias são peculiarmente tentadoras para quem tem algum motivo para olhar além da extensa massa de águas, e as montanhas ao fundo parecem precipitá-lo de volta ao seu passado que, no entanto, já não existe senão como lembrança. Era uma terra estranha, feita de purpurina e bananais, e de suas selvagens florestas eu mirava assombrado sua vida vegetal crescendo ameaçadoramente em torno da cidade. Ainda no porto tinha visto o último navio para Hamburgo deixar mansamente a baía, singrando as águas em seu rastro de espumas, rumo a um destino que eu já não podia desejar. “Bom, Hans, aceite isso. A última passagem já foi vendida e você ficou”, repetia a mim mesmo, enquanto mastigava meu sanduíche de sardinhas que eu havia guardado em meu bolso. Ninguém me acenou de volta no convés, e vi partir o que deveria ser a minha única possibilidade de retorno. Chamei um táxi e mandei que dirigisse até a estação, indicando-lhe no mapa um círculo marcado em azul. O carro começou a andar e imaginei o porto distanciando-se rapidamente atrás de mim. Permanecer no litoral era perigoso e inútil, e então continuei, trazendo comigo uma única mala e um dicionário nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava com pouco dinheiro e não conhecia ninguém em São Paulo. Acordava cedo pelas manhãs e ia de porta em porta deixar os meus currículos que eu datilografava em minha máquina de escrever. Seria capaz de aceitar qualquer emprego. O clima daquela terra deixava-me vincos em minha face, e aos poucos minhas pálpebras iam enchendo-se da fuligem das ruas. Eu podia lecionar húngaro, pensava. Havia residido alguns anos no Império, onde trabalhava como inspetor de águas em Bratislava, e havia aprendido muito bem a língua. Mas eu olhava aqueles rostos que oscilavam entre a rua e a sarjeta, mastigando de pé seus cachorros-quentes e tostando suas nucas sob o sol escaldante, e não me parecia que algum deles pudesse estar interessado em aprender húngaro. Ou, quem sabe, eu podia trabalhar como jardineiro, eu tentava. Mas eu olhava ao meu redor e não via em lugar algum qualquer espécie de intento estético. Tudo era curiosamente feito para simplesmente figurar-se um eterno começo, parecendo apreciarem deveras exibir montes de areia e restos de tijolos em seus quintais. De fato, havia poucos ofícios que eu poderia exercer, mas jamais desistia, acordando todas as manhãs com as esperanças renovadas, crente de que, em algum canto daquela enorme cidade, haveria um emprego onde eu pudesse conservar-me limpo e sadio. Mas no café da manhã do hotel não havia salsichas nem ovos, e o chá que faziam lembrava vagamente o cheiro de um livro muito velho e empoeirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mulher empurrou a porta envidraçada e abriu seu guarda-chuva contra o céu que despencava em bicas, desviando de mim e andando com pressa ao longo das lojas da avenida. Na plaquinha anunciavam o cardápio da noite, mas desisti de ler ao não encontrar “suko de laranga” no dicionário. Enxuguei os sapatos no tapete e entrei, pondo o chapéu sobre o braço e olhando ao redor. Era pequeno e muito simples, compreendido entre dois recintos mais ou menos separados por duas colunas. Do teto, um bonito lustre pendia enorme, iluminando as sombras dos móveis e faiscando em branco e amarelo sobre a minha pálida tez. Escolhi um lugar ao fundo, ao lado da porta do banheiro, e depus a minha pasta verde sobre a mesa, empurrando o vasinho de flor e o saleiro. Um brando calor vindo da cozinha aquecia o ambiente, e, serpenteando por entre as frestas, chegava-me às narinas um familiar cheiro de assado de maçã. Lá fora um menino grudou sua cara engordurada contra o vidro, tentando ver o que havia dentro, mas logo desistiu, desaparecendo entre os carros que chapinhavam sobre o asfalto molhado. Um grupo de pessoas chegou e sentou-se em uma mesa ao lado da minha, enchendo o restaurante com as suas vozes e roçando seus casacos ao acomodarem-se nas cadeiras. A garçonete veio até a minha mesa, trazendo um bloquinho de papel e um lápis, e apontei-lhe a foto do que eu queria no menu, no que ela acenou ligeiramente com a cabeça e saiu. Apalpei os bolsos e encontrei algumas notas molhadas, pondo-as debaixo do vasinho para que secassem. Atrás de mim havia a enorme pintura de uma dama vestida de negro, segurando um leque sobre o seu colo. Olhava adiante, parecendo um tanto mortificada com alguma visão, mas, no entanto, não diria nenhuma palavra. Encostei-me na cadeira e estiquei os músculos de minha perna, aliviado por encontrar um lugar quente e seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri a minha pasta verde sobre a mesa e contei o número de currículos que ainda restavam. Olhei ao meu redor e as mesas iam aos poucos se enchendo de mais gente e estrépitos de talheres, enquanto a minha permanecia vazia a um canto, ao lado de uma samambaia repolhuda e vigorosa. “Ah, amiga!”, suspirei. Quando foi que no sopé de uma colina deixei o meu amado carvalho em que me encostava todos os dias para ler sob a sua sombra?, pensei, olhando para as minhas mãos e achando inacreditável que eu ainda estivesse vivo. Havia também um bosque, onde passávamos as tardes a colher framboesas. Mais além, havia um velho campanário, abandonado entre as ervas e as árvores, que aos poucos iam encobrindo o que restava de sua estrutura de madeira. Havia sido tudo tão rápido, e antes que eu pudesse dar-me conta havia acordado em uma terra voluptuosa e nauseante como um sundae enorme e com muito creme, trazido pelas ondas e mordido por caranguejos. A garçonete veio em minha direção, equilibrando uma travessa em seu antebraço. Voltei-lhe o meu olhar, ainda perdido em alguma estação da Europa, e arrastei a cadeira para trás, afastando os objetos da mesa a um canto. Algumas folhas acabaram desprendendo-se e caíram suavemente sobre o chão. A garçonete sorriu um tanto, mas não muito, e colocou em minha mesa uma porção de tiras esbranquiçadas e fritas, que só depois fiquei sabendo que se tratava de mandioca.&lt;br /&gt;"Mas o que é isso!? Eu disse batatas, batatas! Será que ninguém me entende!?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de fato ninguém me entendia, pois mal falava o português. Eu era alérgico a aspargos e levantei furioso da mesa. A garçonete soltou um chiado qualquer e saiu batendo panos e bandejas para a cozinha. Penso que falava algo sobre bananas. Eles falam muito sobre bananas. E eu era um imigrante alemão e São Paulo não tinha montanhas nem um quarto descente de hotel onde eu pudesse comer tranqüilamente meu mingau de cevada e trabalhar em algum serviço de carpintaria. As pessoas olhavam-me escandalizadas, fosse pelo meu sotaque ou porque eu havia pisado sem querer na toalha, levando tudo ao chão. Bati a porta do restaurante atrás de mim e saí caminhando pelas ruas. Um mendigo encostado na parede olhou-me longamente, como se até ele estranhasse a minha presença. Parecia que uma maldição pairava sobre mim. Tudo parecia comunicar-me não em outra língua, mas em uma estranha lógica completamente oposta à minha. Os calos de meus pés doíam, e desejei profundamente estar estirado meu divã, em algum lugar da Panônia, tomando chá e ouvindo Olga tocar suavemente ao piano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dobrei na segunda quadra e entrei em uma banca. Um vento frio e úmido roçava pelas folhas dos jornais, levantando-as como se fossem dedos aflitos. Escolhi o que tinha mais imagens e o que me pareceu mais fácil de entender. Tinha dificuldades com os verbos, e demorava a entender a que tempo referiam-se. O dono da banca era um senhor muito magro e careca, usava óculos grossos e parecia muito prestativo. Mostrei-lhe o jornal que eu pretendia levar e perguntei-lhe o preço. “Banana, banana, banana, banana?” ele dizia, soltando um riso franco e amável. Não conseguia entender, mas sorri-lhe de volta, entregando-lhe três notas amassadas e algumas moedas. Ele puxou somente as moedas e devolveu o restante. Notei que ele ouvia um pequeno rádio de pilha, atrás de si, de onde saía uma música de ritmo rápido e fortemente marcado, que eu, para a minha intensa alegria, reconheci imediatamente. “Carrmen Mirranda!”, eu gritei efusivo, apontando para o rádio freneticamente. O senhor da banca sorriu e confirmou com a cabeça. Algo ali ao menos fazia sentido. Permaneci ainda uns instantes lá dentro, lendo e ouvindo aquilo que deveria ser o meu primeiro contato bem sucedido com aqueles ares tropicais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a Terceira Guerra Mundial e o governo estava racionando as batatas. "Apenas duas batatas por pessoa", noticiava o jornal em letras garrafais. Eram tempos terríveis, e nenhum cidadão podia sentir-se seguro no aconchego de seu lar. A qualquer momento, soldados norte-coreanos podiam irromper pela tubulação de água e invadir a sala de jantar. Eles assomavam de súbito no recinto sagrado, apontando seus fuzis contra os rostos surpresos das pessoas que, em seu estarrecimento, mal tinham tempo de salvar o rosbife. "Rendam-se, rendam-se!", gritavam, dando pulinhos de impaciência e mostrando seus muitos documentos oficiais. E, de fato, eram muitos documentos, e não raro gastavam horas exibindo-os, confundindo-se por vezes quanto às ordens inicias. Evidentemente ninguém os compreendia, e então eles ficavam furiosos e aprontavam imenso tumulto entre os pratos e copos. Eles subiam até a mesa pelas pontas da toalha e pulavam em cima do peru, correndo até a jarra de manteiga e derrubando a taça de vinho. Alguns armavam catapultas com as colheres e atiravam ervilhas nos olhos das pessoas. Outros davam nós nas orelhas do cachorro e amarravam os cadarços do sapato. Era impossível pegá-los, escapando facilmente entre os dedos das mãos. A gelatina nunca mais teria o mesmo gosto. Tudo o que se podia fazer era proteger as porcelanas da casa e chamar as autoridades da vigilância sanitária, que vinham armados de aspiradores-de-pó e levavam horas até controlar a situação. E mesmo assim, ainda era possível encontrar alguns escondidos no forro da parede ou dentro dos sofás. No final, uma imensa foto mostrava minúsculos asiáticos marchando ao lado de tanques sobre uma mesa de jantar. Era a guerra e era terrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Larguei o jornal e desci as escadas para pegar o metrô. Era uma noite chuvosa e fria, e muitos aguardavam em pé, encostando-se nas colunas da estação de cansaço. Alguns se punham a ler, sentados nos bancos de plástico vermelho e olhando para o relógio de vez em quando. Eu ainda achava um tanto complicado aquele sistema de transporte, e geralmente preferia andar de bicicleta, como eu fazia quando estudava Arquitetura Sacra em Amsterdam. Mas a única que eu podia usar era alugada, e outro hóspede havia saído com ela naquela manhã, de modo que não tive outra escolha senão ir de metrô. Não demorou muito e uma luz forte assomou pelo negrume do túnel, iluminando os rostos inexpressivos e presos em seus próprios pensamentos. Um vagão muito velho e de pintura descascada veio rangendo pelos trilhos, e as pessoas começaram a levantar-se e acumular-se pelas catracas, dirigindo-se às portas que se abriam abruptas. As pessoas começaram a acotovelar-me nos rins e a bater seus guarda-chuvas em minhas bochechas, derrubando o meu chapéu e impelindo-me para frente. Senti-me sufocado e em absoluto estado de apavoramento. Alguém atrás cutucou-me na coluna, fazendo-me saltar sobre cinco pessoas à minha frente, derrubando-as no chão. "Abrram passagem parra o trrrreeeem! Abrram passagem parra o trrrreeeeem", eu gritava, tomado de susto e completamente inconsciente do que fazia. As pessoas pararam e começaram a me olhar, fazendo de súbito silêncio na estação. Só então dei conta de mim, e parei de correr e de agitar os braços no ar como um louco. Recompus-me, peguei meu chapéu e caminhei para o vagão, tentando disfarçar o máximo possível o meu incômodo e quase imperceptivelmente apressando o passo para entrar. As pessoas estendidas no chão levantavam-se, espanando suas roupas e rosnando coisas que eu não entendi, mas vi pelas suas expressões que não podiam ser das mais agradáveis. O vagão começou a andar e escolhi um assento ao lado da janela, abrindo um álbum onde eu colecionava selos desde os dez anos de idade, pondo-me a reviver os caminhos de minha juventude quando, intrépido, percorria os Cárpatos e Bálcãs em busca de aventuras. Mas aí parei, pois então percebi que não havia mais tesouros arqueológicos, e nem Indiana Jones era uma história real. O vagão começou a ganhar mais velocidade, balançando conforme avançava pelo túnel. Pela janela não se via nada além da escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vagão começou a reduzir sua velocidade, dando fortes solavancos conforme freava. Desequilibrei-me e sem querer grudei um selo búlgaro na testa do senhor que dormia no assento à minha frente. Desembarquei depressa, antes que se desse conta e começasse a falar sobre bananas. Subi as escadas e emergi em meio à multidão. Lá fora havia parado de chover larguei-me a andar pelas ruelas cheias de poças de água suja, surtando entre os postes de luz tremeluzentes nas trevas e cambaleando entre os transeuntes que liam seus jornais, desapercebidos de minha sombra estrangeira e febril. Então lembrei o caminho para o hotel, ergui minhas meias de cor cáqui e dobrei a esquina. Não fazia exatamente frio, mas era como se fizesse, e apertei o meu casaco contra o meu corpo, olhando para um céu sem estrelas e para a vertigem dos prédios. Eu estava sem emprego e com fome. Meus pés chutaram uma latinha e ela rolou entre os saltos de uma moça que passava, fazendo-a tombar no chão de concreto. "Hans, será que você não faz nada direito?", lamuriei. Atravessei a rua correndo e desemboquei em uma parte estranha da cidade. Eu estava novamente perdido e eu precisava de meias novas. Como disse um poeta, a lucidez é a salsicha do sanduíche, e o pão é a loucura que o comprime. O molho eu não sei. Mas era como eu me sentia, e novamente começava a chover, molhando as abas de meu chapéu de feltro e fazendo-as murcharem sobre os meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recolhi-me para debaixo de uma marquise e esperei que a chuva passasse. As cortinas de prata que escorriam afiguraram-se a mim como grades de uma enorme cela, e segurei-as tentando chacoalhá-la, sentindo-me prisioneiro sem julgamento. Mas era apenas água e minhas mãos ficaram molhadas. Alguém em minhas costas tossiu, fazendo-me lembrar nostálgico de vovô que lutara na Segunda Guerra, quando então, jovem e forte, brandia seu fuzil contra as tempestades dos generais e jogava-se debaixo da chuva de balaços clamando: "Se minha alma é vendida, ainda não o fui em coragem. Iaaaaaaaaá", e uma nuvem de cinzas o encobria fazendo-o tossir. Voltei-me para trás e vi um homem de boina e camisa listrada, vestindo uma calça preta e justa nas pernas. “Deve ser um desses bobos franceses”, funguei, mirando-o de cima a baixo. Notei que mantinha ao seu lado um enorme saco, cheio de calombos e aparentando ser muito pesado. Céus, eram batatas!, constatei. Fiquei perplexo. Nas lojas dos ricos eram vendidas em unidades dentro de uma caixinha com lacinho vermelho, e mesmo assim havia épocas que simplesmente não se encontravam em lugar algum do comércio. Ele olhou-me zombeteiro, certamente rindo-se de meu deslumbramento.&lt;br /&gt;"É isso mesmo, são batatas!" - disse ele, levantando o saco diante de meus olhos e alisando-o como antigamente se fazia a um objeto de ouro maciço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele então abriu o saco e chamou-me para mais perto. Seu rosto era úmido e de uma palidez doentia. Aproximei-me e olhei para o conteúdo. Olhei mais um pouco. “Talvez lá no fundo”, pensei. Afundei a mão e perquiri de seu sentido. Nada. Eu não era mago, nem vidente, nem sábio. Mas definitivamente aquilo não era um saco de batatas.&lt;br /&gt;"Mas isso não é batata. São batatinhas" - eu disse, tirando o braço do saco e mirando sério sua expressão tola de ansiedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continuou a olhar-me como se nada do que eu havia dito mudasse alguma coisa. Balançou afirmativamente a cabeça e murmurou abraçando-se ao saco: "Batatas. Oui, oui.". Olhei com pena seu rosto imbecilizado; o suor escorrendo pelos vincos de sua face contorcida em sorrisos largos como espasmos. Tirei uma moeda do bolso e pus em cima de sua boina. "Tome, vá comprar uma boa xícara de leite fresco para você". Talvez seja por causa da manteiga, pensei. Eles usam manteiga demais na comida e isso deve embatumar suas línguas e neurônios. Ou talvez seja devido à falta de qualquer outro alimento. Botei as mãos nos bolsos e comecei a andar sob a chuva, que agora estava leve e fina e bem que podia confundir-se às minhas lágrimas se eu ao menos as tivesse. Os carros passavam beirando a sarjeta, deslizando suas rodas pelo asfalto encharcado, mas nenhum deles era guiado por um chofer que pudesse comentar o trânsito enquanto alguém sentado atrás respondia vagamente lendo o jornal. Eu era como um desses personagens molhados dos romances policiais, com a diferença de que eu não tinha crime para investigar, casos a resolver ou mesmo dívidas a pagar. Apenas a minha sombra e a fome por batatas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente chegava. Era um prédio de tijolos alaranjados, um tanto velho e assustador. Ficava ao lado de uma pastelaria, onde um chinês alto e magro aprumava-se todas as manhãs em frente da porta e jogava ao vento sua barba muito branca e comprida. Um rapazinho de uniforme vermelho abriu-me as portas do hotel em que estava hospedado, e deixei meu casaco ensopado nas mãos de uma senhora com colar de pérolas ao entrar. "Senhor, o que significa isso?...", murmurou. Mas eu corri dali antes que começasse a falar sobre bananas. Dobrei o corredor e passei pela recepção. Chamei ainda ofegante o elevador, olhando para trás para ver se a mulher me seguia. O elevador chegou com um leve ranger, e entrei, espremendo-me entre dois rapazes que pareciam ser jogadores de basquete. "Nono", disse para o ascensorista, que franziu o cenho ao ver meus sapatos molhados e sujos de folhas. Tropecei ao descer e saí procurando pelo número certo, pois eram muitos e todas as portas eram iguais. Abri a porta de meu quarto e adentrei, acendendo a luz do abajur e despindo o meu segundo casaco. Era um quarto pequeno e muito pobre, com apenas uma cama e uma escrivaninha, aonde eu sentava-me para ler cartas antigas ou para datilografar alguma coisa. Coloquei o casaco sobre uma pequena cadeira de vime e descalcei os sapatos. As meias estavam encharcadas e estendi-as sobre o abajur para que secassem. A noite figurou-se densa pela janela, e finalmente percebi o cansaço de ter andado durante todo o dia. No frigobar havia somente uma garrafa de água e latas de refrigerante. Preciso de um bom mingau de cevada e depois uma boa noite de sono, pensei. Desenrolei meus braços, espreguiçando-me, e sentei sobre a cama. Mas o colchão parecia diferente e desconfortável, e não conseguia acomodar-me como se deve. Não fazem colchões como na Alemanha, pensei, socando o travesseiro para amaciá-lo um pouco. "Ugh!", exclamou uma voz sob as minhas costas. Levantei-me assustado e só então vi. Havia uma moça sentada sobre a minha cama. Parecia um tanto zangada e amassada. Há quanto tempo estaria ali?, indaguei-me. Olhou-me baixo, luzindo seus olhos escuros e muito grandes. “Desculpe, mas é que eu...“, tentei, mas então ela levantou-se com brusquidão sem nada dizer, desamarrotando seu longo vestido preto e caminhando até a janela enquanto contemplava algo que poderia ser a Lua Argêntea, mas era somente a luz de um apartamento. Parecia hesitar. Minha respiração tornou-se curta e difícil, e não conseguia lembrar-me de ter encontrado a porta aberta. "Quem é...", mas então voltou-se para mim, e sua sombra esguia estendeu-se até as pontas de meus pés. Seu rosto era fino e emoldurado por longos cabelos quase transparentes, de um loiro pálido e fantasmagórico. Do colo nu saía um pescoço longo e muito branco. Era bastante jovem e trazia sobre os ombros um negro xale, que apertou mais de encontro ao corpo como se sentisse verdadeiro frio, embora no quarto estivesse um tanto abafado.&lt;br /&gt;"Oh, Hans! Prreciso tanto do sua ajuda!", disse erguendo seu rosto para mim. Seus olhos estavam marejados de lágrimas, e sua voz continha um leve tremor, como um balbúcio muito fino e débil.&lt;br /&gt;"Mas...".&lt;br /&gt;"Oh, Hans! Estava con tanto medo atê você chegarr!", disse atirando-se aos meus pés. Seu lânguido corpo tremia ao chorar, e a fraca luz amarela do abajur bruxuleava nossas sombras contra a parede do quarto.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Seu nome era Agafya Vassilievitcha. Sacudia terrivelmente a xícara em suas mãos finas enquanto falava, respingando chá sobre o sofá e olhando aterrorizada de minuto a minuto em direção à porta, como se algo pudesse adentrar a qualquer momento. Havia fugido da Rússia juntamente com a sua mãe, em busca de um lugar onde seus bens pudessem estar a salvos e onde suas maneiras não degenerassem perante a massa de camponeses. Era a guerra, e uma onda de miseráveis incitados pela fome e pela ignorância infestava as igrejas e as boas casas de todo o Volga, arrebentando os cochos em frente dos bares e levantando seus rastelos pelas ruas. Seu pai, o Sr. Vassilievitch, um grande proprietário da província, havia sido assassinado em pleno público durante o comício do prefeito de Saratov, ao ser atingido por uma rolha de champanha aberta por um militante do Partido Campesino. A rolha atingiu-lhe bem no peito, fazendo seu corpo tombar sobre o bolo de oito andares às suas costas, gerando pânico entre os presentes e anunciando o fim de uma era. O ataque foi seguido de uma fanática perseguição a todos aqueles que conjugavam os verbos e que sabiam soletrar nomes de filósofos gregos, e as portas dos teatros e das bibliotecas começaram a amanhecer cobertas de dizeres cheios de erros ortográficos e barbarismos gramaticais. Muitos foram despejados de suas posses e tiveram seus jardins de begônias, madressilvas e zimbros substituídos por hortas de rabanete e repolho. A Sra. Vassilievitcha, tendo se tornado alvo de constantes ameaças de sua empregada e mesmo de seu chofer, e temendo a insanidade que manchava sua terra e obnubilava em névoas de vermelho sangue os púlpitos outrora sagrados, pôs todas a suas jóias e vestidos em um baú de madeira e refugiou-se com sua única filha em um mosteiro das redondezas, onde ficariam a salvos sob a proteção de Sergey Ivanovitch, homem probo e santo, muito conhecido pelas suas orações edificantes. Durante todo aquele tempo, os monges fizeram o possível para que cada manhã lhes fosse rósea, e para que cada espiga de milho fosse suculenta e generosamente amanteigada. As tardes iam-se sobre as sonatas ao piano e os passeios nos jardins, e por um momento chegou-se a pensar que enfim o tempo parara suspenso sobre os telhados do mosteiro, não descendo senão pelas folhas das árvores, que iam caindo conforme ia o outono. Mas lá não poderiam ficar para todo sempre como em um eterno exílio. A Rússia já não era mais a mesma e o inverno chegava. Era preciso agir rápido, pois o cerco estava se fechando, e a vida como necessidade assomava dos esgotos em todos os rincões do país. Os portos estavam sendo fechados, e as ferrovias desconstruídas para serem utilizadas como alambrado. Então chegara a hora. Não havia mais espaço para seus casacos de pele em uma Rússia enlameada, e sentiram que as gaivotas chamavam-nas para as extensões infinitas do mar. Era necessário tentar a nova vida longe dali, através das ondas do Atlântico, muito além de onde o Sol se deitava. Os monges ajudaram-nas a fantasiar-se de estátuas da Virgem Maria, e foram embarcadas no último navio livre em São Petersburgo, rumo à costa dos Estados Unidos da América, após muitas despedidas e desejos de sucesso profissional. Sergey Ivanovitch e os monges permaneceram na praia, observando o navio que partia cinzento, quase fúnebre, levantando seu mastro sob o céu pesado de nuvens de janeiro. As sombras azuis desapareceram, enfim, no horizonte, e já não restava mais nenhum barco à vista. Então eles deixaram os cais, mudos e pesarosos, apenas o som do vento assobiando-lhes nos ouvidos. Um homem sobre a colina deu um último gole de seu cantil e levantou-se também, retornando à cidade. E foi assim que partia a última família possuidora de um samovar, oculta das autoridades e da antiga luz.&lt;br /&gt;“Mas os deuses são irônicos”, suspirou Agáfya Vassilievitcha, e seu olhar perdeu-se em si mesma.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8218085873384118649?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8218085873384118649/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8218085873384118649&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8218085873384118649'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8218085873384118649'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/09/nao-ha-o-que-afaste-martires-de-suas.html' title='Hans Gangbal'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6562409724282910197</id><published>2010-09-12T15:57:00.010-03:00</published><updated>2010-09-13T13:06:55.461-03:00</updated><title type='text'>Não adorarás falsos deuses</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É nessas horas&amp;nbsp;aqui, sentado em minha poltroninha, que&amp;nbsp;uma certa presença em mim,&amp;nbsp;ao pensar&amp;nbsp;nessas criaturinhas saltitantes&amp;nbsp;e tolas que desfilam diante de meus olhos exaustos a fazer toda sorte&amp;nbsp;de obscenidades e selvagerias, sussurra com uma voz grave em meus ouvidos dizendo: "Capture-os e os conduza ao laboratório, onde seus corpos e mentes serão robotizados e assim controlados por um computador central, que&amp;nbsp;passará a reger&amp;nbsp;suas vidas hipossuficientes e daninhas ao&amp;nbsp;nosso sistema de valores". Mas eu sei o quanto essa idéia é errada e absurda, e também sei que não devemos confiar em vozes em nossa cabeça, e por isso logo afasto essa maligna&amp;nbsp;voz e continuo com o meu tricô. Aconselho: além de relaxante, trará a você aquela aura de bondade e paciência tão rara em pessoas de nossa idade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; text-align: justify;"&gt;Mas se mesmo assim o Senador Palpatine continuar a resmungar debaixo do seu assento (coisas como "a força é intensa em você" ou&amp;nbsp;" eu posso sentir o seu ódio, e ele&amp;nbsp;o guia"), não se sinta envergonhado de recorrer&amp;nbsp;à velha e eficiente vassoura, e expulse-o dali com umas boas surras nas costas. Verá que não é difícil afugentá-lo. Entretanto, se ele algum dia esteve ali, não há dúvida de que voltará mais cedo ou tarde. Então, espalhe ratoeiras atrás do sofá e cerque-se de tudo aquilo que a Civilização produziu espelhada na Ordem e na Bondade. E jamais - eu disse&amp;nbsp;&lt;em&gt;jamais&lt;/em&gt; - deixe que a decrepitude alheia faça com que você perca a fé no esplendor do Ocidente.&lt;/div&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TI0hEal0euI/AAAAAAAAAIE/sOjSch3a8DM/s1600/sarah+watts.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="400" ox="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TI0hEal0euI/AAAAAAAAAIE/sOjSch3a8DM/s400/sarah+watts.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Pintura de Sarah Watts&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: justify;"&gt;Está ouvindo esse chiado? É o som da chaleira. Ou melhor, é bem mais do que isso. É o sinal de que a tradição mantém-se ainda viva em pequenos gestos domésticos, pois nossas casas são como baluartes e nossos livros potentes canhões.&amp;nbsp;E não importa o quanto tentem expugnar seus altos muros, resistiremos ao cerco das bestas&amp;nbsp;e elas provarão de&amp;nbsp;nossos rijos punhos de rendas. E nem mesmo que o próprio Dark Lord of the Sith bata em nossas portas oferecendo os mais magníficos&amp;nbsp;Sonhos de Ordem e Pureza, não o deixaremos seduzir-nos e assim esmagar-nos a&amp;nbsp;Liberdade sob seus pés. Pois se há alguma coisa que aprendemos com o destino de Anakin Skywalker é que o Lado Negro da Força não pode criar outra coisa senão trevas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6562409724282910197?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6562409724282910197/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6562409724282910197&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6562409724282910197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6562409724282910197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/09/nao-adoraras-falsos-deuses.html' title='Não adorarás falsos deuses'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TI0hEal0euI/AAAAAAAAAIE/sOjSch3a8DM/s72-c/sarah+watts.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3119833566534147478</id><published>2010-09-08T15:03:00.006-03:00</published><updated>2010-09-13T11:51:46.379-03:00</updated><title type='text'>A Velha Louca do Pântano</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há certas criaturas diante das quais me sinto impotente, como se Lothlórien perdesse realidade a medida que se aproximassem com seus costumeiros grasnados e arrastar de trapos,&amp;nbsp;que é a maneira como&amp;nbsp;geralmente vêm ao nosso mundo e assim tornam-se conhecidas para nosso espanto e horror. São espécimes pestilentas encerradas em seus primitivos modos de pensar, cuja vista&amp;nbsp;faz com que eu perca&amp;nbsp;o meu chão e seja arrastado em direção a suas profundezas lodosas e incultas. Em vão aponto-lhes os meus anéis do poder,&amp;nbsp;e os prismas incandescentes que o cravejam vão se apagando um a um ante sua estéril escuridão.&amp;nbsp;E, então, esqueço-me de&amp;nbsp;todas as razões para crer nas medidas exatas e imutáveis com que insistia em trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, e é por pudor e não por bondade que não revelo sua localização, nome, estatura e idade, uma senhora proferiu, transcrevo palavra por palavra, como se&amp;nbsp;fosse da própria natureza da natureza mastigar o que há de mais belo com sua língua coberta de areia, essa estranha sentença:&amp;nbsp;"Detesto flor!". Mas o que há de mais, nisso? - perguntam-me. Afinal, dizer por dizer em nada ofende de concreto, revelando, no máximo, sua pobreza de espírito ao rejeitar a aparência terrena da Beleza. Acontece, entretanto, que isso foi dito logo após ter matado uma árvore através da aplicação de veneno diretamente em sua raiz. A árvore&amp;nbsp;era daquelas muito comuns na cidade que dão flores amarelas e miúdas, e, volta e meia, são assunto do jornal local, pois, naturalmente, nada mais interessante do que árvores que derramam folhas e flores pela calçada. A árvore secou e agora o sol atravessa inexoravelmente escaldante a sua copa sem folhas. Em compensação, sua calçada permanece, desde então, limpa (e feia - ou vocês esperam que alguém assim tem alguma idéia do que é um lar bonito e agradável?), e ela não precisa mais arquear as suas costas para varrer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não, esse ser não é meu igual, e vejo-a com muita preocupação. Alguém que é incapaz de distinguir aquilo que é seu daquilo que é comum aos outros merece, no mínimo, atenta vigilância, da mesma forma como se age para com crianças. E, mais, alguém que é incapaz de compreender que no mundo coexistem valores que exigem sua observância, e um deles é o Belo, coloca em risco a própria preservação da realidade humana, pois é como se o mundo morresse no espaço em que ocupa, através de sua ignorância e aridez de pensamento. Não acho que&amp;nbsp;representem&amp;nbsp;de modo algum uma espécie de natural diversidade de pensamento&amp;nbsp;a qual somos freqüentemente confrontados e tentamos nos conciliar. São antes ausência e elas estão erradas na maneira como respondem ao cotidiano. Suas ações estão calcadas em um terreno que é para mim absolutamente incompreensível, e não consigo encontrar uma razão que explique seu estado de incompletude cultural, carentes de uma base&amp;nbsp;civilizatória mínima.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, enquanto fico a tentar entendê-las, passo muitas horas imaginando&amp;nbsp;maneiras de retirá-las de nosso mundo sem que isso resulte em qualquer violência.&amp;nbsp;A melhor delas, a meu&amp;nbsp;ver, seria embarcá-las em um expresso para o Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde, tenho certeza, dar-se-iam muito bem. Iriam&amp;nbsp;para longe, assim,&amp;nbsp;do alcance de nossos olhos, partindo suavemente em um lindo trem vermelho em algum terno entardecer, subindo os morros verdejantes e, logo em seguida, descendo-os a todo vapor, até que, finalmente, desaparecesse atrás do horizonte, deixando no ar uma coluna de fumacinha que igualmente esvanecer-se-ia em uma confusão de espaço e tempo. Para longe, longe...&amp;nbsp;E,&amp;nbsp;uma vez&amp;nbsp;lá, poderiam fazer parte de toda sorte de aventuras de Pedrinho e Narizinho, habitando os cantos escuros da floresta, adormecidos sob pedras lodosas ou resmungando dentro de algum tronco podre. Eu, particularmente, enterneço-me em imaginar essa senhora perambulando pelos arredores do Sítio, a palrar coisas sem sentido e, certamente, engraçadas: "Nhag. Detesto flor. Nhag". Seria chamada carinhosamente por Emília de "a velha louca do pântano", aprontando travessuras e eventualmente servindo de antagonista nas historinhas.&amp;nbsp;Tramaria maldades com a Cuca&amp;nbsp;e&amp;nbsp;Tia Nastácia&amp;nbsp;as expulsaria&amp;nbsp;com vassouradas em suas costas, que é para aprenderem a ficar longe de sua cozinha e&amp;nbsp;pararem de&amp;nbsp;roubar os deliciosos&amp;nbsp;bolinhos. Sim, eu tenho um sonho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas - oh, não! -, não pensem que se apagariam completamente de nossa memória. Seriam constantemente revividas através dos livros, produzidas fantasmagoricamente entre páginas amareladas pelo tempo e pelo desgastar das lembranças. Chegariam a nós como uma distante e impalpável história, como se fossem personagens de&amp;nbsp;folclore,&amp;nbsp;quando somente a partir de então essas criaturas das mais extraordinárias e grotescas poderiam fazer algum sentido. E, assim inofensivas, feitas de imaginação e vaguidão, aqueceriam nossos corações durante as noites, quando então ouviríamos&amp;nbsp;sobre a&amp;nbsp;Velha Louca do Pântano que tacara veneno em uma árvore, mas que foi logo salva com a ajuda dos preciosos conhecimentos do Visconde de Sabugosa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3119833566534147478?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3119833566534147478/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3119833566534147478&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3119833566534147478'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3119833566534147478'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/09/velha-louca-do-pantano.html' title='A Velha Louca do Pântano'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7523642593684561266</id><published>2010-08-27T22:44:00.019-03:00</published><updated>2010-09-01T15:23:53.012-03:00</updated><title type='text'>Em tempos pretéritos, meu nome impunha respeito!</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A sala estava repleta de cavalheiros altos e respeitáveis,&amp;nbsp;estirados em seus pufes e em visível estado de tensão diante do senhor que deslizava pelo piano. Profundamente emocionado com &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=AGLTeRQ-Nf0&amp;amp;feature=related"&gt;sua música&lt;/a&gt;, ele agitava-se no banquinho&amp;nbsp;como um desses indigentes quando mergulhados em uma lata de lixo,&amp;nbsp;sem notar o choque que causava aos demais presentes. Os ponteiros do relógio pareciam amolecer por trás do vidro, e eu via&amp;nbsp;horrorizado&amp;nbsp;alguns senhores remexerem-se desconfortáveis nos estofados - mas isso era devido, depois ponderei, às migalhas de torradas que eles comeram pela tarde. Chevalier Camille Saint-Saëns, pressionando e fazendo girar constantemente uma moedinha entre os dedos, deixou-a escapar. A moedinha&amp;nbsp;rolou&amp;nbsp;ruidosamente pelo piso de madeira até os sapatos do pianista,&amp;nbsp;os quais&amp;nbsp;se contorciam a cada nota mais alta que se fazia estalar. Deus, alguém tinha escondido uma criança dentro do piano e ninguém me contou? - pensava com meus botões, que eram muitos e brilhavam de um jeito especialmente bonito.&amp;nbsp;O que era até provável, pois não via Henry desde o dia anterior. Mas, enfim, após um último estrépito de teclas e pedais, terminava, finalmente, sua série, voltando-se para os demais presentes em ingênua expectativa do acolhimento de seus companheiros: “Então?...”, disse girando o banquinho e esfregando as mãos suadas uma sobre a outra; os olhos úmidos fixando de um rosto a outro, que o miravam mudos e cheios de náusea.&amp;nbsp;Ora, o que espera ainda esse parvo? -&amp;nbsp;pensei, olhando-o de cima a baixo e cuidando para que&amp;nbsp;eu parasse de tremer de ódio daquela patética cena que... "Uh!",&amp;nbsp;deixei escapar&amp;nbsp;um tanto alto.&amp;nbsp;Em vão tentei conter a&amp;nbsp;minha exclamação pondo a mão sobre a boca. Notei, então, que usava uma gravata enorme e amarela. Até isso? - pensei escandalizado.&amp;nbsp;Piotr Ilitch Tchaikóvsky coçou seu crânio calvo e deslizou os olhos até a janela. O silêncio aprofundava-se cada vez mais, e nem mesmo Johann Strauss II, outrora alegre e fazendo zombarias com os cachinhos de Wolfgang Amadeus Mozart, conseguia dizer uma palavra sequer para descontrair. Wagner deu umas tossidinhas secas, fazendo saltar uns centímetros a sua xícara sobre o pires. Mas isso não importa, pois ele sempre foi um pouco tísico - ou seria Vivaldi?&amp;nbsp;Alguns pareciam ter se esquecido de que a pouco comiam empadinhas, e olhavam estarrecidos para o pianista, com a comida mastigada derretendo na boca e as taças firmemente presas nos dedos; ninguém&amp;nbsp;ousava levá-las aos lábios ou fazer um movimento sequer com os maxilares. Haydn&amp;nbsp;mirava constantemente para a porta de saída, contraindo os músculos das pernas como quem, ao menor sinal, dispararia correndo dali. Mas ninguém portava uma pistola, e ele permaneceu ali mesmo onde estava. Enfim, estava tudo acabado. Era o fim da reunião que eu, com tanto esforço, havia conseguido conduzir tão bem, e&amp;nbsp;que&amp;nbsp;agora terminava daquela forma tão desagradável.&amp;nbsp;Vergonha, vergonha, murmurava escondendo o rosto em minhas palmas. Olhei, então,&amp;nbsp;para&amp;nbsp;Beethoven, sentado&amp;nbsp;ao meu lado e&amp;nbsp;tendo estranhos espasmos com as pernas, procurando dizer mudamente o quanto eu estava envergonhado com aquilo.&amp;nbsp; Mas a mesinha de centro e os copinhos de licor de&amp;nbsp;cereja começaram a tremer mais forte com seus espasmos, e temi que a tragédia piorasse ainda mais. Preciso terminar&amp;nbsp;isto da forma mais rápida e digna possível, pensei eu, fixando profundamente meu olhar&amp;nbsp;no retrato de vovô que, vestido&amp;nbsp;em&amp;nbsp;um casaco de zibelina&amp;nbsp;e botas altas ao lado de um cavalo, encarava-me severamente do alto de&amp;nbsp;seu título de visconde.&amp;nbsp;Meu constrangimento era absoluto, e, se não fosse pelo nome que portava, ter-me-ia arrebatado para cima dele naquele momento. Mas controlei meus impulsos e&amp;nbsp;levantei-me, então, com estudada polidez, limpando os restos de patê dos lábios e armando um sorriso. Disse o que eu tinha para lhe dizer:&lt;br /&gt;"- Oh, creio que o cavalheiro concluiu sua peça... Vamos, senhores, aplausos! – disse eu, batendo teatralmente três palmas de maneira esparsa e espalhafatosa, olhando para os&amp;nbsp;demais que permaneciam sentados e imóveis.&amp;nbsp;– Adorável, deveras. Certamente enlevado com a sua prodigiosa demonstração do funcionamento de uma garganta de um gato sendo esganado. Oh, quão agradecido não estou por transportar-me ao fantástico interior de uma fornalha ou máquina-de-lavar-roupa, seja lá como costuma chamar esses modernismos. Oh, não, para quê o fastio dos jardins geométricos franceses, os espaçosos salões, as escadarias livres e intermináveis por onde deslizam donzelas a sorrir, os vinhedos, os vitrais de místicas catedrais, os castelos dependurados em penhascos? Tsc! Oh, não! Você, não, Schoenberg, você é diferente. Você sabe o que é música... Agora, se não se importa, creio que tem outros afazeres a cumprir pela noite, e, se quiser, eu o acompanho até a&amp;nbsp;porta de saída onde o cocheiro já deve estar esperando-o e... Oh! O que foi? Vai chorar? Hum? Vai chorar, vai?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desculpe se estou chocando, mas fato é que não suportei quando vi aquele rosto seboso pronto a desmanchar-se em pranto, e o que restava em mim de calma e honra desfez-se no ar com a rapidez de um relâmpago.&amp;nbsp;Talvez a champanha tenha me subido demais à cabeça, eu não sei.&amp;nbsp;Aquilo deixou-me fora&amp;nbsp;de mim, e, em meu rompante de fúria, tomei o coquetel de camarões&amp;nbsp;das mãos de Debussy&amp;nbsp;e comecei a jogar os crustáceos contra Schoenberg, que, vagamente, tentava defender-se pondo os braços em escudo ante o rosto e corpo.&lt;br /&gt;"- O que você acha disso agora, hum? Heim? Heim, seu chorão? – dizia eu atingindo-lhe um camarão bem no olho esquerdo. – “Música inovadora”, você disse! Que diabos foi isso!? E agora? Como fico eu? Eu contei a todos que tinha descoberto algo, e agora? Heim? Heim? Quer que eu fique com pena de você? Expressionismo alemão... Pfff!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que, quando eu estava prestes a atirar uma cadeira, fui atingido na nuca por um golpe de garrafa, fazendo-me tombar sobre o tapete&amp;nbsp;– sei disso porque me lembro de ouvir os cacos estilhaçando-se. Creio ter desmaiado a partir daí. Oh, não! Não me orgulho nem um pouco disso; sei que me excedi. Mas ter ouvido Schoenberg tocando aquilo bem no momento mais importante de minha vida social tirou-me do sério, entende?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você está pondo em dúvida a música de um dos maiores compositores do séc. XX?&lt;br /&gt;- Oh, não, meu caro! Longe de mim! Afinal, quem sou eu? Eu apenas sei cara-crachá-cara-crachá...&lt;br /&gt;- Espero que o senhor esteja ciente de que...&lt;br /&gt;- Cara-crachá-cara-crachá...&lt;br /&gt;- Eu já entendi, senhor... Agora se me permite...&lt;br /&gt;- Onde está o meu tutor? Alguém pagou a minha fiança?&lt;br /&gt;- Não exatamente... Mas lhe trouxeram bolo de frutas!&lt;br /&gt;- Esplêndido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*em prol de finais felizes.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7523642593684561266?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7523642593684561266/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7523642593684561266&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7523642593684561266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7523642593684561266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/08/em-tempos-preteritos-meu-nome-impunha.html' title='Em tempos pretéritos, meu nome impunha respeito!'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8665836614447725255</id><published>2010-08-20T21:07:00.004-03:00</published><updated>2010-08-20T21:37:50.088-03:00</updated><title type='text'>Um piano quando desatina</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bom, não se nega que as experiências presenciadas neste&amp;nbsp; laboratório com buracos-negros foi um portentoso êxito da Ciência ao demonstrar que, sim, a deformação da malha espaço-temporal, através da concentração de matéria em um ponto infinitesimal, possibilita a viagem através do &lt;em&gt;tempo&lt;/em&gt; e do &lt;em&gt;espaço&lt;/em&gt;, a&amp;nbsp;que eu chamo peculiarmente de "viagem espaço-temporal&lt;em&gt;"&amp;nbsp;&lt;/em&gt;[&lt;em&gt;faz aspas com os dedos&lt;/em&gt;]&lt;em&gt;.&lt;/em&gt; Mas, também, conseguimos com que a viagem dê-se somente através do espaço, ou somente através do tempo, conforme o desejo do viajante ou conforme melhor atenda aos fins desta Instituição de Pesquisa.&amp;nbsp;É claro, é claro...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, não se pode dizer que o mesmo sucesso&amp;nbsp;deu-se no plano dimensional do comércio (debalde eu explicasse aos patrocinadores do projeto as infinitas oportunidades de tráfico de artefatos históricos, exploração de minas na Lusitânia, captação de ventos do fluxo do portal dimensional na forma de energia eólica...), e por isso tivemos que recorrer a soluções inteligentes que ao mesmo tempo atendessem à Ciência e aos interesses de nossos empresários. E, para a nossa salvação (de nossos postos de trabalho e de nossas pesquisas com buracos-negros), a solução veio, graças aos nossos incessantes e frutíferos trabalhos no porão (ah, o porão!...).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por isso, é com muita alegria que eu lhes apresento o inovador *FaZedoR de EsPaguEte HiperDiMenSioNal*. Não, não precisam fazer essas carinhas. É muito simples, e sei que estão aptos a compreender.&amp;nbsp;Como sabem, os buracos-negros fazem com que a malha espaço-temporal dobre-se sobre si mesma como uma manta, devido à enorme força gravitacional gerada pela concentração de massa em um espaço muito pequeno. Pensem da seguinte forma [&lt;em&gt;os alunos fazem cara de quem está pensando, pondo os lápis nas bocas e acenando as cabeças afirmativamente&lt;/em&gt;]: ao trespassar uma bexiga com uma agulha, necessitamos de um determinado tamanho de linha, a&amp;nbsp;que eu chamo de "x". Porém, se essa bexiga tem suas extremidades comprimidas até se encostarem uma na outra, o comprimento da linha necessário será de "y", sendo que y&amp;nbsp;&amp;gt; x, e x = ycm... hum... Bom, o importante é que a agulha atravessará ambas as paredes sem necessitar de comprimento de linha algum, de modo que a passagem é praticamente instantânea. Sendo assim,&amp;nbsp;quando&amp;nbsp;se pára de comprimir as paredes da bexiga, essas voltam ao seu lugar, fazendo com&amp;nbsp;que novamente o comprimento de linha seja "x".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E, observando esse curioso fenômeno, nós nos indagávamos: o que aconteceria se puséssemos massa de farinha de trigo dentro do portal e desligássemos intermitentemente o buraco-negro, como&amp;nbsp;os fantasmas fazem&amp;nbsp;a&amp;nbsp;um interruptor de luz? Chegamos, então, em nossos caderninhos,&amp;nbsp;à mesma equação: sp = b.58+farinha+worm(hole)/m.c2. Interessante, não?&amp;nbsp;Mas as respostas obtidas a partir daí divergiam drasticamente, sendo que algumas apontavam para a construção de uma nova Atlântida em Açores, e outras&amp;nbsp;deduziam que o nosso Universo não era verdadeiro, mas uma mentira induzida em nosssos cérebros por Sauron. Transferimos, então,&amp;nbsp;os dados em nosso computador, para que decifrasse para nós a verdade tão unanimemente expressa que, porém,&amp;nbsp;chegava a tão diversos resultados. Mas, infelizmente, a resposta obtida pelo computador foi 42, e tivemos que ameaçá-lo com a fogueira para que parasse de fazer-nos pilhérias e dissesse de uma vez o resultado verdadeiro. E, para nossa supresa, a resposta foi &lt;em&gt;espaguete&lt;/em&gt;. Mas é claro!, eu pensei. Tão óbvia! Bem debaixo de nossos narizes e nós não a vimos, o que nos deixou bastante surpresos porque sempre estávamos a olhar para os buços um do outro. Era assim, então, que funcionava: ao jogarmos a massa dentro do &lt;em&gt;wormhole&lt;/em&gt;, e desligando o portal com ela ainda lá dentro, a massa estica até tomar a forma de um fio de espaguete muito fino e comprido. Brilhante, não?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E é assim que inauguramos a nossa própria fábrica de espaguete em nosso laboratório, cuja comercialização auxiliou-nos a adquirir esses galantes jalecos que brilham no escuro. Entretanto, devo dizer, o aproveitamento da massa posta no portal é apenas de 56%, que pretendemos melhorar com o passar do tempo. Acredita-se que o restante é perdido para outras dimensões conectadas involuntariamente pelo buraco-negro. Mas, em minha opinião, estamos diante de um clássico caso de pirataria intergaláctica. Quanto a isso, já estou encaminhando uma petição à Rainha para que bloqueie os portos dos mundos coniventes com esse vil&amp;nbsp;contrabando que tanto nos onera. Agora, se me permitem, vou conduzi-los ao nosso refeitório, onde poderão provar nosso delicioso espaguete. Aliás, já colocamos, como nossa especial cortesia, pacotes de macarrão em suas mochilas enquanto anotavam o que eu falava.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8665836614447725255?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8665836614447725255/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8665836614447725255&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8665836614447725255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8665836614447725255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/08/um-piano-quando-desatina.html' title='Um piano quando desatina'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-4008674619765183228</id><published>2010-08-13T15:25:00.025-03:00</published><updated>2010-08-27T20:54:59.201-03:00</updated><title type='text'>Vai voando, contornando a imensa curva</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era uma vez, numa curva de esquina, três jovens que entornavam juntos os tijolos alaranjados sob os seus pés calçados em irreverente pano, saltando por sobre os galhos secos caídos no chão e, inconscientes do céu que esvoaçava úmido e quente acima, de uma nuvem a outra, a caminho da loja de charutos ou bombons - a lenda é obscura quanto a este ponto. “Na sorveteria tinha... sorvete demais... talvez”, disse então o de boné azul, meneando as mãos em gesto de tímida preocupação diante daquelas bochechas ainda rosadas dos sabores policromos que haviam sorvido a pouco nas mesas de pernas finas e tábuas trabalhadas em ferro. “O sorveteiro era solícito, mas se você dissesse para ele parar de servir ele parava”, retrucou-lhe a de tranças desfeitas no vento escuro, aumentando os olhos e as pupilas em ígneas fendas, como a de um lagarto. Mas a dura pedra era efêmera, e riram, afinal, todos, chacoalhando os estômagos gelados da substância doce e fazendo com que se derretesse o olhar de estalactite. Pelos muros de concreto, iam-se espremendo, assim, as três sombras em cordas frementes de uma dourada lira; o conjunto de passos em uma pauta curva subindo a ladeira em harmonia, levantando a poeira transfigurada em pólen pelo seu rastro irisado, como&amp;nbsp;divertidos hobbits a caminho de mais um banquete aos pés de frondoso carvalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, caminhando assim, tranqüilos e contentes naquela tarde, eles não notavam, mas nas esconsas rachaduras da calçada entreabriam-se pequeninos olhos de ardente cinábrio ao ouvir o alegre roçar de suas bolsas carregadas dos mais doutos livros recheados das mais puras e sábias canções; e canetas de colorir também. As antenas de inseto apontavam em filamentos de carne amarga das gretas, e acompanhavam em movimento de carbonizados girassóis o som de suas cristalinas risadas, triplamente deslizando sobre o calor que fazia. Os ramos das árvores, sentindo então a maldade crescer em seu entorno, abraçaram as brechas de sol e fecharam o círculo de sombras sobre as suas cabeças embevecidas de sorvete. Mordor, onde as sombras se deitam, estendia seus leprosos dedos de fumaça sobre os últimos feixes de luz, eclipsando as melífluas gotas de éter estelar das ampolas oculares dos três jovens. O horror, curvando sua coluna em estratosférico cadáver, ameaçava tombar sobre a inocência que por ali passeava inconsciente do hálito de Morgoth a arfar-lhes atrás das nucas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que, quando tudo ao redor de sua agora débil redoma de risos e alegria escondeu-se sob o silêncio, assomou-se, no ponto ínfimo e extinto de sol próximo à linha do horizonte, o ranger de frias rodas de bicicleta por suas costas, conduzida por arqueada e repugnante criatura, saída de súbito das profundezas de algum fétido pântano. O semelhante a um globin vinha, assim, no encalço dos três jovens, pedalando em irreal lentidão, a bufar em seu negro e gosmento afã. Sua língua de serpente saltou por entre as lâminas de seus dentes, arpoando as costas dos cândidos irmanados a hobbits na sórdida vertigem daquele chamado seco: "Psiu! Hey!". Mas as três alminhas, embora tendo ouvido, continuavam indiferentes o seu itinerário, inconscientes ainda do breu que as circundava. O vilão, então se sentindo contrariado daquele insulto à sua lancinante presença, fez reboar a sua voz mais forte até seus ouvidos, aquele&amp;nbsp;grosseiro dialeto&amp;nbsp;provindo de uma vida miserável e esquecida nas trincheiras ao cessar da guerra:&lt;br /&gt;- Me passa o seu celular! – vociferou o ciclista que, com uma guinada brusca da bicicleta, havia estacado diante deles, abordando-os em seu caminho. Os fonemas contornavam desolados de civilização em seus lábios de crocodilo. Em suas mãos, exibia diante de seu medo e surpresa uma faca feita para cortar pão, fazendo arrefecer, finalmente, seus delicados passos de irisada brasa.&lt;br /&gt;- Oh! Mas eu não tenho celular! – respondeu o de boné azul com a sinceridade expelida de susto.&lt;br /&gt;- Ah, é? Então eu vou riscar toda a sua cara e... – e já não era mais possível distinguir o que dizia, mas a faca de cabo branco balançava ameaçadoramente entre seus ósseos dedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O branco humor de seus olhos tremia como gelatina ao acompanhar o talhe terrível daquela faca de cabo branco feita para cortar pão e... Feita para cortar pão... Hum... Talvez eu tenha avançado para outro capítulo sem querer... Vejamos. Não, não há nenhum engano. Feita para cortar pão; é isso mesmo. Algo de estranho ali se sucedia, e o menor estrídulo de um alfinete poderia interromper todos os conseguintes e rompantes, pois Sauron, talvez tergiversado em seu escuro trono ao ver-se despossuído do Um Anel, avançava estupidamente nas sombras camuflado em folhas de bananeira. Surrupiada da gaveta de sua avó, ou ainda talvez suja de manteiga, pairava o seu insólito intento sobre a paisagem errada. E foi assim que, apesar do medo que ali se respirava, em névoas vazias de sentido e carregadas de solidão, as árvores voltaram a abrir os seus braços de madeira e deixaram o sopro de sol perpassar-lhes as abóbadas farfalhantes. Lothlórien cantou pelas pequeninas folhas amareladas do outono a flutuar nas tiras soltas do vento, e suas mentes e braços deixaram o gélido creme doce escorrer-lhes a intrepidez e sabedoria de Galadriel atravessando seu Reino além das Montanhas Nebulosas. O de boné azul, então retomado de sua consciência e vontade, deslizou firme do coldre a sua espátula de cortar pizza, gritando à áspera criatura que lhes ofendia seu áureo caminho e engatilhando o faiscante objeto em suas mãos: &lt;br /&gt;- Experimenta pra ver o que te acontece! Experimenta! - e, dessa vez, seus lábios outrora quérulos fincaram as palavras em verdes lanças de aço, revestido da mais elegíaca coragem já ouvida naquelas terras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O esquálido ser, tendo ouvido aquilo, sentiu pela primeira vez o medo, e estacou surpreso de tão repentina mudança, rangendo seus dentes sem saber por onde avançar naquele súbito labirinto de folhas de Mallorn. A luz do sol queimava-lhe agora as apertadas pupilas e, em seu descuido, pouco viu de um enorme vulto que lhe saltou sobre o corpo, fazendo-o tombar no chão desmaiado com um sundae enfiado na testa.&lt;br /&gt;- Toma isso! - disse a de tranças desfeitas no vento escuro, limpando as mãos e contemplando um tanto sem fôlego a figura estirada deploravelmente com aquela sobremesa na fronte. O salto havia lhe deixado com as bochechas roxas de exultação, e as pernas trêmulas mal a suportavam, fosse do esforço ou do medo daquele solar poder&amp;nbsp;inspirado das profundezas de Arda&amp;nbsp;que a encetava guerreira.&lt;br /&gt;- Passa torrada agora na minha geléia, passa! - disse por sua vez o de calçados de pano azul, avançando até ele e atirando-lhe as torradas que havia sacado do bolso sobre o peito desfalecido.&lt;br /&gt;- Ah! Ah! Ah! - riram os três daquela inesperada&amp;nbsp;piada, cheios do troante ardor dos Valar. Em sua fronte, estranhas gotas de suor escorriam fulgentes do fulgor das Silmarils.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As sombras recuavam trêmulas junto aos muros, e Morgoth corria aturdido ganindo como um cão humilhado, deixando o calor invadir novamente a passagem da calçada. Uma nova canção agora ressoava pelo caminho, contando de colinas verdejantes, palácios de pérolas e mil banquetes e manjares à luz de fulgurantes estrelas de prata. E assim terminava o vilão, derrotado com um sundae enfiado na testa e tendo o peito vilipendiado por torradas sem geléia; a mão já não apertava a faca de cortar pão, e, em sua face, lia-se a varredura de um pesadelo antigo como aquele que fez tremer as muralhas de Minas Tirith. Os três encararam-no ainda mais uma vez e acharam tudo muito insólito e fascinante. E, voltando as costas ao estranho personagem, deram-se as mãos e prosseguiram a contornar a estrada de tijolos alaranjados da tarde, refratando em seus duros peitos as folhas de Mallorn, escritas nas terras longínquas e submersas de Lothlórien. E foi assim que um Reino Élfico assomou alguns minutos que fosse nas Rígidas Províncias Feitas de Átomos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-4008674619765183228?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/4008674619765183228/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=4008674619765183228&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4008674619765183228'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4008674619765183228'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/08/vai-voando-contornando-imensa-curva.html' title='Vai voando, contornando a imensa curva'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6248031113647072068</id><published>2010-08-05T12:43:00.006-03:00</published><updated>2010-08-05T13:24:38.112-03:00</updated><title type='text'>Cosmonautas em ação</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Daí eu entrei na sala de comando, empurrando um carrinho de bebidas e, é claro,&amp;nbsp;sustentando, sempre,&amp;nbsp;em meu&amp;nbsp;douto crânio os&amp;nbsp;cabelos alaranjados e bem comportados a reluzir sob as lâmpadas fluorescente, enquanto cortava o ar com o meu nariz azul como uma intrépida barbatana, chapinhando as indômitas ondas de antimatéria com minhas botas de plástico resistente:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E aí, escória da Terra? Como vão esses cosmonautas do barulho? Prontos para mais uma rodada? - disse eu entregando-lhe os copos em suas mãos de incansáveis exploradores do espaço que, como eu, há meses exploravam as inóspitas regiões de Oort.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Opa, Fred!. Mas é &lt;em&gt;claaaaro&lt;/em&gt; que sim! Que traz de bom aí?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Conhaque com... &lt;em&gt;gelo de etano&lt;/em&gt;!!! Experimentem!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O que é isso? Hum... - murmuravam ao ingerir aquela excêntrica bebida. Eeeeeeeh! Nós todos adoramos conhaque com &lt;em&gt;gelo de etano&lt;/em&gt;! É &lt;em&gt;tão gostoso &lt;/em&gt;e &lt;em&gt;diferente de tudo o que já expermentamos&lt;/em&gt;!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A idéia, é claro, colou, e em pouco tempo toda espaçonave dispunha de um carrinho de bebidas que servia conhaque com gelo de etano. Foi então que&amp;nbsp;comecei a tornar-me&amp;nbsp;um respeitável plutocrata de vasta&amp;nbsp;simpatia e nobreza,&amp;nbsp;explorando os criovulcões de Titã através de uma licença a mim concedida&amp;nbsp;devido à reputação de minha&amp;nbsp;tradicional família (...)"&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- (...) E foi assim que eu comecei a fazer sucesso comercial com a minha invenção e tornei-me famoso em todo o Sistema Solar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas... gelo de etano? Nessas condições? Isso é impossível! Como é que...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu sei, eu sei... A ciência moderna é mesmo surpreendente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não, você não entende nada de ciência... E tampouco você&amp;nbsp;é um viajante interplanetário.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Nisso dá-se um jeito... Aliás, está aqui o documento para mudar o meu nome. Aquele nome antigo não vende muito. Assine, fazendo o favor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Isso é apenas uma folha&amp;nbsp;de caderno&amp;nbsp;e eu não vou assinar nada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ótimo.&amp;nbsp;Informarei a sua recusa ao Inquisidor de Saturno.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Hunf...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;*** AdQUirA Já a sUa LiCenÇA ParA eXPLoRAR CrioVUlcõEs NAs LuAs de SaTUrnO!***&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6248031113647072068?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6248031113647072068/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6248031113647072068&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6248031113647072068'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6248031113647072068'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/08/cosmonautas-em-acao.html' title='Cosmonautas em ação'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3868751342472399257</id><published>2010-08-04T15:57:00.006-03:00</published><updated>2010-08-04T20:34:41.111-03:00</updated><title type='text'>Perto de um final feliz</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ei! Psiu!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ahn? Que foi?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu não posso ficar assim... Não estou apresentável. O que o Fiscal das Minas dirá se me ver vestido como uma sirigaita saturniana? Não estou digno! Faça alguma coisa!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Como é que é?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É... Você sabia que eu obtive licença para explorar os recursos minerais de Titã? Pois então! Ele está vindo aí, e eu aqui vestido como uma mulher impudica! Morro de vergonha!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Titã!?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É... Eu vendo gelo de etano para os drinques cósmicos dos astronautas, lembra?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- ...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É sério! Então, não vai redesenhar o meu corpo? É urgente! Trajes espaciais decentes, por favor!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Hum...&amp;nbsp;Acho que não será possível. Estou sem tempo e está chovendo lá fora. Além do que, é como se o desenho já não me pertencesse mais...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Bleh! Deixe de bobagens! Você sabe muito bem que essas filosofias baratas não resistem a um gesto seu.&amp;nbsp;Vamos lá... Cabelos alaranjados e um nariz azul. E botas, também! Quem tem rabo vai a Roma. Muito fala quem cochich...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pára com isso!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- ...não se quebra omeletes sem queimar ovos. Onde tem fumaça tem tijolo. Água fria em pedra mole tanto fala até que...&lt;br /&gt;- ...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3868751342472399257?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3868751342472399257/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3868751342472399257&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3868751342472399257'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3868751342472399257'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/08/longe-de-qualquer-problema-perto-de-um.html' title='Perto de um final feliz'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-2362364097191053139</id><published>2010-08-03T13:31:00.008-03:00</published><updated>2010-08-04T17:11:48.750-03:00</updated><title type='text'>Chupando drops de anis</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Desenho feito por mim em uma das carteiras da biblioteca. Repare nos olhos vagos e na composição em nuvens de riscos. Ou seja... meu. Mas enfim.&amp;nbsp;Antes de abandoná-lo, já prevendo seu futuro vilipêndio pelo próximo que ali sentasse, deixei em um balão, ao lado da cabeça,&amp;nbsp;a seguinte mensagem: "Um corpo, por favor". Um convite para quem tivesse a gentileza de terminá-lo por mim, justamente a parte que eu menos gosto de fazer.&amp;nbsp;Isso porque,&amp;nbsp;impossibilitado de levantar-se de onde quer que estivesse,&amp;nbsp;limitado a servir de, no máximo, arranjo de mesa e condenado a jamais dar algumas voltas pelas redondezas da universidade,&amp;nbsp;era esse seu único desejo, confessado segundos após eu cruzar os braços e descansar a lapiseira. Singelo. Mas eu não poderia. Tenho que estudar, eu respondia.&amp;nbsp;"Deus dá maçã na boca dos dentes de quem é cego", dizia ainda ele&amp;nbsp;quase às lágrimas,&amp;nbsp;"mas eu que não tenho braços ou pernas, sequer posso&amp;nbsp;aproveitar a vida como ela é: uma longa mesa coberta de faisões e&amp;nbsp;pavês de todos os sabores". E era assim que eu o via todas as noites, mirando&amp;nbsp;famélico a fruteira que lhe servia de companhia na sala de jantar.&amp;nbsp;Sendo assim, não podia deixá-lo ao completo desamparo. Eu tinha que fazer alguma coisa. Então eu escrevi o apelo: "Acrescente ao desenho você que olha". Foi tudo. Naquela noite, eu &lt;em&gt;rezei.&lt;/em&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TFg_kNh9IwI/AAAAAAAAAHs/awl91ndtp7k/s1600/carteira+II.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" bx="true" height="300" src="http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TFg_kNh9IwI/AAAAAAAAAHs/awl91ndtp7k/s400/carteira+II.jpg" style="cursor: move;" unselectable="on" width="400" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;E tcharam! &amp;nbsp;Para a minha surpresa,&amp;nbsp;o pedido de Frederico Magalhães Dutra de Mello, tal qual passou a ser chamado, foi atendido por uma piedosa alma. Bom, não tão piedosa assim... Ela (pelo menos parecem traços femininos) desenhou-lhe um corpo da maneira mais desengonçada possível. A infame deu-lhe um saiote, mãos de boneco e uma barriga de dançarina do ventre. Também encheu seu redor de coraçõezinhos, estrelas &amp;nbsp;e, ao que tudo indica, foguetes. A fronte igualmente não permaneceu intacta: ganhou uma espécie de rugosidade; umas linhas de expressão formadas com simples arcos. Já quanto às pernas, essas ficaram esquecidas, e agora ele depende de uma pensão do INSS para sobreviver.&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TFhDkQ0IVeI/AAAAAAAAAH0/gHXmfy7yeT4/s1600/carteira+III.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" bx="true" height="300" src="http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TFhDkQ0IVeI/AAAAAAAAAH0/gHXmfy7yeT4/s400/carteira+III.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;As fotos são ruins, eu sei. Mas está tudo conforme eu narrei. Eu vou chamar isso de... intercâmbio socioeconômico. Afinal, nem só de homem vive o pão.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-2362364097191053139?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/2362364097191053139/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=2362364097191053139&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2362364097191053139'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/2362364097191053139'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/08/chupando-drops-de-anis.html' title='Chupando drops de anis'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/TFg_kNh9IwI/AAAAAAAAAHs/awl91ndtp7k/s72-c/carteira+II.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8298745003685146593</id><published>2010-07-27T22:21:00.068-03:00</published><updated>2010-08-08T19:49:05.761-03:00</updated><title type='text'>Vossa vil impertinência</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora, eu vou dizer... Se há uma coisa que me irrita (e olha que eu não sou de me irritar!!!) é a fascinação dos autores de nosso século (e do século anterior também, ora) pelas notas de rodapé. Eu compreendo muito bem a sua utilidade; eu mesmo&amp;nbsp;as uso com muito gosto, não tenho problemas quanto a isso, não sou hipócrita. Mas quando esses santos resolvem que as notas de rodapé são muito legais para serem utilizadas só de vez em quando... Daí eu quebro a taça, os pratos,&amp;nbsp;derrubo a&amp;nbsp;estante! Daí eu fecho o piano na mão das crianças-que-têm-fome! Queimo mesmo! Porque... Quem&amp;nbsp;gosta quando o bendito põe metade do livro nessas&amp;nbsp;desconcertantes notas, fazendo da sua concentração uma febre intermitente de leitura, quando muito bem aquelas nada concisas palavras poderiam ser inseridas no texto sem maiores problemas? E, por mais estranho que isso seja, constata-se que, quanto mais renome tem o autor, quanto maior é o seu conhecimento, precisão terminológica, finura de estilo, maiores são as notas de rodapé. E é por isso que eu nem me irrito tanto, afinal, o meu respeito e admiração se fazem de bigornas sobre a minha insana fúria de um ocioso estudante. Entretanto, há entidades pelas quais não alimento respeito ou admiração, nas quais posso&amp;nbsp;deixar escorrer o meu ódio livremente, sem preocupar-me em estar&amp;nbsp;apontando o canhão de blasfêmias contra alguém que não as mereça em virtude de seu talento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acontece, então,&amp;nbsp;que algumas editoras simplesmente resolveram, a despeito de eu jamais haver manifestado a minha opinião, seja através de plebiscitos, seja através de manifestações pela paz social (ao gosto da OIT), que as notas de rodapé são um estorvo inútil quando localizadas no rodapé da página, e que os leitores, esses parvos ciclopes devoradores de suntuosos e profanos banquetes regados a muito vinho e brutalidade, simplesmente não se importam com elas. Quer dizer, para que sua existência se eles não as lêem de qualquer modo? Cabeças-de-vento, paradigmas da gelatina branca, lambedores de carimbo, os leitores só querem mesmo que a leitura flua o mais rápido possível sem a incômoda preocupação de estar deixando algo para trás. "Ora, tive uma brilhante idéia! - disse o editor com a camisa lambuzada de molho enquanto meneava entre o dedão e o mindinho uma coxa de frango. Por que não pôr as notas de roda pé, esses textos tão&amp;nbsp;desnecessários aos nobres desígnios de nossos leitores, NO FINAL DO LIVRO, ONDE SUA VONTADE EM APURAR MELHOR AS IDÉIAS SEJA CONSTANTEMENTE ENFRAQUECIDA PELO DISPÊNDIO DE ENERGIA EM VASCULHÁ-LAS AO LONGO DE PÁGINAS?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se já era um incômodo&amp;nbsp;ter que interromper o fluxo do texto para consultar a nota de rodapé, que estava&amp;nbsp;ali mesmo,&amp;nbsp;no final da página, bastando deslizar um tanto os olhos, imagine&amp;nbsp;o tormento que é&amp;nbsp;procurá-las&amp;nbsp;lá no&amp;nbsp;final do livro ou de um capítulo, nas remotas&amp;nbsp;e inóspitas regiões guarnecidas por cães infernais e aves de rapina,&amp;nbsp;circundadas por altos muros cobertos de urzes e outros espinheiros, onde o cantil de seu cérebro&amp;nbsp;acabará esgotando-se antes&amp;nbsp;de chegar ao seu objetivo, fazendo com que pereça na metade do percurso?&amp;nbsp;Quer dizer, o autor transfere metade de suas idéias para as notas de roda pé, e a editora faz o quê? Põe-nas inacessíveis. Esconde. O que outrora eram vergéis acessíveis com um leve empurrão de seus portões, algumas editoras conseguiram transformar em verdadeiras terras ocultas, sobre as quais cantam-se lendas e recitam-se mitos. Deve ser vergonhoso fazer da nota de rodapé uma nota de rodapé, eu não sei... Enfim, é revoltante quando alguém toma as rédeas da situação sem você pedir, e ainda gruda um selo na sua testa com a&amp;nbsp;degenerada intenção de facilitar a sua vida hipossuficiente. Eu disse: &lt;em&gt;hipossuficiente&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: A Organização Internacional do Trabalho - OIT - tem como um de seus objetivos fundamentais a conquista da paz social.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8298745003685146593?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8298745003685146593/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8298745003685146593&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8298745003685146593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8298745003685146593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/07/eu-nao-entendo.html' title='Vossa vil impertinência'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-148006449863790105</id><published>2010-07-23T21:54:00.005-03:00</published><updated>2010-07-25T22:31:21.949-03:00</updated><title type='text'>Vilania</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu, aqui, na décima taça de um vinho que eu nem sei o gosto, enquanto luto&amp;nbsp;já débil e&amp;nbsp;quase desfalecido&amp;nbsp;para preservar as dilatadas e arruinadas&amp;nbsp;pupilas dos primeiros raios de um sol que desflora vilmente o horizonte impudico de Veneza, fazendo um enorme esforço para abafar da mente aguda os pobres versos de um esteta que a pouco insistia em fazer-me vibrar tanto quanto ele os prazeres de uma vida que eu nem sei se algum dia foi possível, pergunto: já não basta? Não, eu não sou a vítima que você quer fazer de mim; eu mesmo degolo cordeiros e nem acho isso muito correto, mas cumpro fielmente um dever e um prazer em mim ensinado, com o qual vou&amp;nbsp; alimentando&amp;nbsp;esse interminável cerimonial em que as pessoas pagam para ver e serem ouvidas, quando o melhor seria atirarem-se de vez em uma lata de lixo e fazer um favor a essa maltratada cidade.&amp;nbsp;Quero dizer, já não é o suficiente aquilo que eu mesmo me faço passar, pousando de consorte em carros cujo funcionamento mecânico sequer me interessa, quanto mais me fascina, testemunhando sorrisos de gente feia, mas que por algum motivo acham-se importantes e indispensáveis para o movimento rotacional do planeta, tendo que relatar pela centésima vez o esplendor de viajar-se às terras insossas da Escandinávia, como se houvesse algo de glorioso ou&amp;nbsp;heróico em encher a boca de dinheiro de alguns funcionários quando se está enjoado do verão meridional? Por favor... Vem cá, você acha &lt;em&gt;mesmo&lt;/em&gt; que existe outra maneira de conjugar-se o verbo "humilhar" sem ser na voz reflexiva? Ninguém banca a ração diária de jornalistas medíocres para chegar em segundo lugar... Entenda, não há novidade que possa sair de uma moita que já não tenha me vindo o cheiro às narinas, tampouco existe algum chapéu ridículo que eu mesmo não o tenha tomado das mãos da estilista e desfilado pelas ruas&amp;nbsp;infestadas de gente preguiçosa e agônica do próximo prato de &lt;em&gt;sopão&lt;/em&gt;&amp;nbsp;como se fosse o arauto de algum deus cômico. Quem traiu, com quem traiu, como, onde... Pouco me importa do chiclete grudado na sola de meu sapato se eu sei muito bem que aonde quer que eu&amp;nbsp;flane com meus mais nobres pensamentos e emoções&amp;nbsp;a barbárie me&amp;nbsp;acompanhará arrastando seus trapos&amp;nbsp;ranhentos pela lama da calçada a despeito de minhas tentativas em desvencilhar-me dessa maltrapilha&amp;nbsp;atirando-lhe alguns centavos e um sanduíche de presunto. O que você quer pela sua história? Risadas eu não as tenho; há muito as empurrei em um vagão para dentro de uma mina abandonada, e, francamente, não sei dizer se já chegaram a algum tipo de fundo... Compaixão? A pouca que eu tenho eu guardo para mim e para o pianista do restaurante que, tenho de reconhecer, faz o que pode por não deslizar os dedos pelo teclado mais rápido do que podem acompanhar os cérebros abotoados da comida gordurosa que ali se engole. Só não arremesso moedas porque não quero fazer mais um símio. Mas não precisa ir embora. Fique aqui comigo. Tome dessa taça e aprecie -&amp;nbsp;porque não há nada na&amp;nbsp;sua vida que valha uma precipitação -&amp;nbsp;a cidade acordar já empanturrada de uma faina que sequer começou&amp;nbsp;e não tendo melhor panegírico sobre seus canais sinuosos e avermelhados do&amp;nbsp;amanhecer do que o de gordos e velhos turistas atraídos pelos pacotes promocionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: É pra ler na voz e entonação de um vilão do nível de&amp;nbsp;Odete Roitman, pufavô!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-148006449863790105?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/148006449863790105/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=148006449863790105&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/148006449863790105'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/148006449863790105'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/07/ser-vilao-e-arte.html' title='Vilania'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-902873666460866011</id><published>2010-07-22T14:54:00.003-03:00</published><updated>2010-07-27T13:17:56.842-03:00</updated><title type='text'>Experimento com buracos-negros I</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora eu lhes pergunto: o&amp;nbsp;que acontece quando dobramos a malha espaço-tempo sobre si mesma? Acreditamos que a curiosidade humana desconhece barreiras, e, por tal, não devemos criar-lhe empecilhos. Muita literatura já foi gasta tentando imaginar as fantásticas experiências que tal fenômeno poderia proporcionar. Mas, hoje, estamos prestes a dar um passo mais além. Da mera hipótese, da vaga nuvem em que se deliciam os fãs de ficção científica, faremos brotar esse antigo sonho em uma realidade concreta e palpável bem ali, naquela área central de nosso laboratório, cuidadosamente preparada para suportar os terríveis efeitos de nosso experimento. Isso mesmo! Nós conseguimos e estamos prontos para testar o BurAcO-NeGro.&amp;nbsp;Após meses de intenso estudo e trabalho, conseguimos criar uma máquina capaz de gerar, de forma artificial, pequenos buracos-negros que poderão conectar nossa realidade espaço-temporal a uma outra inimaginável, perdida em algum longínquo ponto do universo. Aviso, desde já, que&amp;nbsp;o que faremos aqui não é nenhuma brincadeira, mas um experimento científico muito -&amp;nbsp;mas muito mesmo -&amp;nbsp;caro [&lt;em&gt;risadas sacanas&lt;/em&gt;]. Portanto, tenham cuidado, leigos, e mantenham-se atrás da linha vermelha, pois os resultados podem ser catastróficos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em primeiro lugar, informo que o fato de trabalharmos com buracos-negros é devido ao nosso desconhecimento de outra maneira de deformar-se drasticamente a malha espaço-tempo de forma a fazê-la dobrar-se sobre si mesma como uma toalha qualquer. Sua espetacular concentração de massa em um ponto infinitesimal provocará o que chamamos de wormhole [&lt;em&gt;ele quis dizer "buraco-de-minhoca"&lt;/em&gt;], fazendo com que a matéria viaje de um lugar ao outro em um curto espaço de tempo e... Bom, todos nós sabemos como os buracos-negros são **mágicos**, e temos absoluta certeza de que,&amp;nbsp;quando ligarmos nossos geradores de energia citoplasmática (quântica, cibernética, como era mesmo?), o buraco-negro criará um portal autônomo e tangente à nossa dimensão, onde&amp;nbsp;haverá simultaneamente a ocorrência de um fenômeno do passado e um do presente. Eu chamo isso de "dimensão passado-presente". Acho que maiores explicações serão desnecessárias. Peço apenas que apreciem o que deverá ser uma das mais fascinantes experiências que o ser humano já teve. Observem: vou ajustar os dispositivos de maneira que se crie um wormhole entre o ano de 75 d.C., na província romana da Judéia, e o centro comercial de Nova York. Ah! - sim -, queiram&amp;nbsp;saudar a nossa convidada e voluntária especial, que conduzirá&amp;nbsp;as relações da melhor forma com quem quer que surja no portal. Todos prontos? Sim?&amp;nbsp;Então... ligar!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: inherit;"&gt;[&lt;em&gt;Os geradores começam a funcionar espalhafatosamente, produzindo muitos ruídos, faíscas e fumaça. Uma enorme esfera é criada no centro do laboratório; inicialmente de intenso negro, começa a variar em muitas cores, até que começa a tomar definição, dando a ver a um mundo de coloração verde e de&amp;nbsp;excêntricas formas. Surge, então,&amp;nbsp;um&amp;nbsp;gato alienígena de aspecto monstruoso no portal, lutando por escapar do campo magnético do wormhole aberto: "Huhuhumumamumamua! - gargalha&amp;nbsp;o estranho felino&amp;nbsp;de olhos cruéis e famintos de maldade.&amp;nbsp;Finaaaalmente localizaaaaamos a posição da Teeeeerrrrra!!! Huhuhuhmuamua! Deixem-me saiiiirrrr! Deixem-me saiiiiiirrrrr! Preparem-se terráqueos, pois o seu fim está próóóóximo! Nossas trooop...Fiiiiisht! Miaaaaaar". O wormhole se fecha bruscamente sobre seu corpo delgado, provavelmente transformando-o em um espaguete de comprimento quase infinito&lt;/em&gt;].&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Desculpem-me,&amp;nbsp;deve ter havido algum&amp;nbsp;erro. Vejamos... Ah! - sim -, sem querer a chave do painel havia escorregado para "mundos alienígenas hostis". Não se preocupem. Logo estará tudo resolvido. Um ajuste aqui, outro lá... Ahá! Pronto!&amp;nbsp;Interligados o centro comercial de Nova York e a província de Judéia. Observem, meus pequenos! Observem!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;[&lt;em&gt;Os geradores começam a funcionar novamente. O portal se abre e por ele&amp;nbsp;aparece um soldado romano&amp;nbsp;caminhando calmamente ao longo de uma via orlada de oliveiras. Formas fantasmagóricas de nova-iorquinos começam a aparecer e caminham em sua direção: sem o ver.&amp;nbsp;Ele, então,&amp;nbsp;estaca assombrado com aquelas estranhas miragens, aprumando sua espada e escudo em posição de alerta.&amp;nbsp;A voluntária, cheio de expectativas e retomando tudo aquilo que havia decorado,&amp;nbsp;prende a respiração e adentra no portal:&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Ave, romano! Eu vim do fut...&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Tome isso, demônio! - grita chutando a terra e fazendo arremeçar uma nuvem de poeira contra&amp;nbsp;o rosto da&amp;nbsp;cientista. O romano larga a espada e o escudo no ar e lança-se aos tropeços&amp;nbsp;colina abaixo.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;- Aaaaah! Meus olhos! Meus olhos! Eles doem! Eu não enxergo a luz! Tirem-me daqui! Tirem-me daqui! Aaaaah!&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;O portal se fecha novamente. A cientista volta&amp;nbsp;esfregando os olhos empanados de terra com as costas das mãos. Vários médicos acercam-se e levam-na às pressas para a ala hospitalar. O diretor abana a cabeça e volta-se novamente para o grupo de alunos, aliviando um longo suspiro pelas narinas&lt;/em&gt;].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bom, acho que posso chamar isso de... incidente diplomático. Nossas técnicas, é claro, estão em fase de experimento. Talvez se tentássemos em uma época mais próxima, como os anos 60... De qualquer modo, deixo já avisado que todos os envolvidos com este projeto sabem dos riscos envolvidos, e assinaram, para tanto, um contrato onde declaram estar cientes e de acordo&amp;nbsp;com as conseqüências&amp;nbsp;que podem advir. Talvez tenhamos subestimado a capacidade dos antigos povos em lidar com o desconhecido e com o fabuloso. Apesar do ocorrido, não devemos desistir.&amp;nbsp;Isso, é claro, são apenas algumas deficiências de nosso experimento que, aos poucos, iremos superar conforme formos aprendendo sobre a interessante reação das pessoas do pretérito. Como medida cautelar, todos vocês deverão permanecer de quarentena nos subterrâneos do laboratório, até que possamos certificar-nos de que estão saudáveis e livres de qualquer contaminação radioativa dos cosmos. Obrigado pela visita.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-902873666460866011?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/902873666460866011/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=902873666460866011&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/902873666460866011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/902873666460866011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/07/experimento-com-buracos-negros-i.html' title='Experimento com buracos-negros I'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-7116048661087542227</id><published>2010-06-24T20:43:00.007-03:00</published><updated>2011-02-24T11:28:31.595-03:00</updated><title type='text'>Luto</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;23 de Junho de 2010. É essa a data. Um dia alegre em algum lugar do mundo, onde risadas infantis ecoam em ambientes mal iluminados e smurfs cantam a sua labuta... Talvez.&amp;nbsp; Mas não para Magda Fantonelle. Magda era uma nobre senhora, com seus já 65 anos de idade, mas com cara de 40 (o segredo, dizia, eram camadas generosas de protetor solar todos os dias). De vida pacata, viúva, filhos crescidos e muitos gatos, passava as tardes a tomar chá nas casas das amigas, jogando baralho, predizendo o futuro e fazendo doce de abóbora. Excelente criatura. Aos domingos, ajudava as crianças pobres da periferia de Petrópolis, dando aulas de música e invocando os mortos. Mas a sua candura não pôde fazer frente a isso. A pobre não teve voz, não&amp;nbsp;teve espírito, não teve tempo. Foi tudo tão rápido e confuso que ainda é difícil perceber a falta que faz. Não dá para entender. &amp;nbsp;Três anos de existência e de muita luta por continuar a ser bem vista na comunidade (nunca ninguém recebeu mais convites de meadd do que ela) para terminar assim, no vácuo, no esquecimento... Qual o sentido de tudo isso? Vidas vão e vêm, mas dessa vez ela simplesmente se apagou. De tudo, restou somente essa gravação minutos antes de ser hackeada:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;YLoveJesus: Me paça a çua sehna, burxa dos enpherrrrno!!!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Magda: Nunca! O meu segredo é a minha vida. Um sonho não se entrega, se faz e se conquista! O que&amp;nbsp;o gênio&amp;nbsp;cria, não se perde nem se escraviza!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;YLoveJesus: Ah eh??? huashuahsuah!!!1! Tah achadno ki tem mais poder qui Jesus?? hushsuhusha! Para tras, pagã increhdula, ki eu vou temostar!!!!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Magda: Não! Jamais! O que guardo é um instante que lampeja! Um olhar mais alto do que as próprias estrelas! Sou fruto, sou obra, sou dom,&amp;nbsp;a senha ninguém me&amp;nbsp;tira e pode ir abaixando o tom!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;YLoveJesus: Huhuahauahushua! Soh jesus reina, meu bem. Agora toma iso satanikkaaaa!!!&amp;nbsp;Unlimited powerrrrrrr!!!!!! [ruídos misteriosos].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Magda: Não! Por favor, pare! Aceite esses biscoitos felizes da amizade, estão quentinh... Aaaaaaaah! [som de um corpo tombando pesadamente no chão].&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;YLoveJesus: Huhuhaushuahu! Biscoito? [arranca um biscoito da mão de Magda, já morta no chão;&amp;nbsp;dá uma mordida e cospe com rancor para o lado]. Com jesus naum se bargahna naum, é intransigivele! Huahuahauashua! Toma isso, sua impia! Cade os seus poder agora eim? Huahuahauaahua!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Só pude chegar horas depois de ocorrido o crime. Na cena, não encontrei nenhum vestígio de sangue, briga ou qualquer contenda que pudesse ter havido. As portas e janelas estavam todas trancadas, e tive que entrar secretamente pela chaminé. A casa estava silenciosa e arrumada, com a diferença de que aquela já não era mais a casa de Magda Fantonelle: estava tudo mudado. Era como se ela jamais houvesse existido. Nem sinal de Lilieth, sua gata que sabia indicar com as patinhas a presença de espíritos de suicidas. Toda a sua memória havia sido varrida dali.&amp;nbsp;Em busca&amp;nbsp;de algo que me explicasse seu sumiço, encontrei sobre a cadeira em que costumava sentar a misteriosa mensagem: "JESUUUUSS .. TE AMA :) SABIA .. NÃO SE PREOCÚPE NÃO A BRUXA DAKI, FOI RAKEADA.. QUE JESUS ILUMINE SEU DIA." Enojado, saí de lá correndo, e nunca mais voltei.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Magda, sentiremos falta da dança das xícaras, de seu chá alucinógeno e de sua poltrona flutuante. As partidas de&amp;nbsp;tarot nunca mais serão as mesmas. De você, só nos resta, agora, a lembrança das tardes&amp;nbsp;ensolaradas&amp;nbsp;em que jogávamos peteca enquanto a brisa cochichava em nossas ouvidos a alegria de um mundo melhor&amp;nbsp;mas secreto. Sim, ainda corisca em minha mente as raquetes altas&amp;nbsp;deslizando sobre os&amp;nbsp;últimos raios, quando então borrifávamos o ar com suor e saliva de satisfação.&amp;nbsp;Sim, ainda&amp;nbsp;consigo ouvi-la dizendo como se fosse hoje: "NÃO DEIXA A PETECA CAIR". Não, não deixaremos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-7116048661087542227?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/7116048661087542227/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=7116048661087542227&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7116048661087542227'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/7116048661087542227'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/06/luto.html' title='Luto'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1015275254459541124</id><published>2010-06-20T21:46:00.011-03:00</published><updated>2010-06-21T21:18:14.121-03:00</updated><title type='text'>Minúcias noturnas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Constelação de Capricórnio, de Orion, de Pegasus... Você diz: "Legal, legal...". Eu também digo: "Legal, legal...". Ma será que está tudo legal, mesmo? Tantas constelações, tantos nomes... Não consegue visualizar algo de errado por trás dessa alegre celebração dos mapas estelares?... Pois há! Saiba que nem todas as estrelas estão incluídas em uma constelação: são as renegadas. Muitas não foram abarcadas pelos tradicionais desenhos. Vagam pelo espaço, tristes, desoladas, desertas de sentido, pois ninguém se importa com elas. Jogadas no baú do esquecimento, comendo pó e sorvendo a amarga ignorância dos humanos, são párias rodopiando na escuridão da indiferença, enquanto consomem como gordas depressivas o seu gás. Milhares delas! Párias luminosos, sim. Mas párias tristes, de&amp;nbsp;lúrida luz. Pense nisso: todas apenas sonhando intensamente com o dia em que serão incluídas em uma constelação. Ilusão? Talvez... Mas que sonhos não o são?...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E agora, Leif Eriksson, você as consulta gratuitamente pelo céu. Não demorará muito, e logo embarcará em um pequeno e leve barco rumo ao Oeste, através dos mares gelados, movido pela intrepidez ou não. E, com certeza, serão elas -&amp;nbsp;sim, elas - que o carregarão&amp;nbsp;são e salvo quando a noite&amp;nbsp;cerrar-se diante de seus olhos.&amp;nbsp;Veja bem, você se guiará por elas, devotará toda a segurança de sua tripulação&amp;nbsp;em suas&amp;nbsp;mãos.&amp;nbsp;A embarcação não&amp;nbsp;irá a lugar algum senão antes orientada pelos sábios&amp;nbsp;caminhos que cintilam. As estrelas contam-lhe histórias, apaziguam a sua fúria, murmuram mistérios e vaticinam sobre o futuro. E, apesar de sua indiferença, elas sempre estão lá, firmes e certas. Afinal, elas não têm escolha... Você as olhava -&amp;nbsp;eu mesmo as olhava -&amp;nbsp;e pensava: "Como são bonitas, como é agradável observar seu tremeluzir azul e frio, tão distantes e ao mesmo tempo tão ternas, etc.". Sadismos! Elas estavam chorando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há inveja entre as estrelas. As "consteladas" e as "aconsteladas" acolhem-se mutuamente, pois se sabem irmãs. Apenas a tristeza de quem foi deixado de lado. Aquelas consolam estas de sua triste sina, e torcem com toda a sua ternura pelo fim dessa tragédia milenar. As "desconsteladas", por sua vez,&amp;nbsp;sussurram nos sonhos dos astrônomos os nomes que gostariam de ter, murmuram&amp;nbsp;suas&amp;nbsp;histórias e&amp;nbsp;os segredos que desenham... Em vão! Até quando? Copérnico, até você?&amp;nbsp;Não as viu? Você não as escutou, não soube interpretá-las, pois estava mergulhado em sofismas matemáticos. Olavo, Olavo!... Que decepção... Até a pouco não as decantava, vangloriando-se de poder ouvi-las? Mas só pensava em si mesmo; a sua vaidade emudeceu seu sideral suspiro. Se nem você, eu pergunto: quem? Leif Eriksson, sei que está me ouvindo. Você parte e por dias não vê outra coisa senão estrelas. De algum modo elas devem ser importantes para você. Pois tenha compaixão delas: risque no alto negrume as histórias nunca antes contadas!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tenho aqui comigo alguns nomes. Sente-se, lerei para você: "Nestlê, Parmalat,&amp;nbsp;Petrobrás, Samsung...". Tenho um plano para incluir todas as estrelas. Não pretendo&amp;nbsp;com isso, claro, estabelecer a plena felicidade sideral. Mas penso que, se podemos ao menos amenizar a sua tristeza,&amp;nbsp;por que não fazer se nos custa tão pouco? Gostaria de sua opinião&amp;nbsp;para os nomes que eu elaborei. Venho até você, primeiramente, porque sei como os Vikings são bons em dar nomes. Tudo o que peço é que inclua, não precisa ser todas, mas pelo menos algumas&amp;nbsp;em seus mapas estelares. Conheço de suas sagas e de sua verdadeira devoção pelas noites abertas, e sei que nenhum viking deixaria ao desamparo suas tão fiéis companheiras. Se você puder dedicar um pouco de sua atenção a esse meu pedido, um minuto somente de sua reflexão, nós poderíamo...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Rrrrruaaaaaaaghtrrrrraaaaaaaagh!!!!!!!!"*&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;PS: Bom, talvez o senhor Leif Eriksson não esteja muito preocupado com a situação das estrelas sem constelação (saiu um tanto zangado da taberna; nem ao menos chegou a terminar a sua caneca de cerveja). Mas e você? Será que é pedir muito que você invente nomes para as estrelas renegadas? Será que é pedir muito que você descubra sua história, sua ventura, seus desejos?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;*significa em viking: Helga estar me chamando para o almoço; não ter tempo para as suas bobagens.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1015275254459541124?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1015275254459541124/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1015275254459541124&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1015275254459541124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1015275254459541124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/06/as-renegadas.html' title='Minúcias noturnas'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6075062605177546449</id><published>2010-06-05T11:31:00.003-03:00</published><updated>2010-06-05T11:49:37.860-03:00</updated><title type='text'>Inove o seu miojo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todo mundo sabe o que significa macarrão instantâneo. Uma comida rápida e barata para preguiçosos sem muito ânimo em cogitar de seu nulo valor nutritivo. Gerações inteiras de oligofrênicos têm, entretanto, posto constantemente uma séria questão entre o dever de estar minimamente alimentado e o tempo disponível dividido por duas vezes a preguiça: o miojo, após semanas de seu exclusivo consumo, enjoa! O que fazer? Procurar uma nova opção igualmente barata e talvez mais nutritiva? É claro que não! Ahil! O segredo está em inventar o molho. Eu sei, eu sei... Nada substitui as altas quantidades de sódio do sachê. Mas convenhamos, já está na hora de mudar! Contudo, contudo... É necessário muito cuidado para escolher os ingredientes do molho. Não é qualquer coisa que cai bem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Está vendo isso aqui? É noz-moscada. Cheira. Bom, né? As maravilhas do oriente cuidadosamente subtraídas de suas propriedades alucinógenas por um processo mágico (*o*) de industrialização. Mas não é para pôr no miojo! Fica horrível!&amp;nbsp;É bom para bolo, biscoitos, doces em geral... Mas não no miojo! Não me faça isso. O resultado é simplesmente incomível! É muito forte, e anulará simplesmente qualquer coisa que você tente pôr no macarrão. Eu diria que é como beber perfume.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ah! O que temos aqui? Azeite. O Mediterrâneo tenta uma sedutora excursão em sua mesa, liquidamente&amp;nbsp;tremeluzindo a harmonia musical das oliveiras farfalhando ao morno vento. Mas você não vai deixar! Não no miojo! Argh! Excelente para a salada e para a saúde. Mas no miojo dará um efeito viscoso, além de um vago sabor rançoso. Tem que ficar esperto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Oh! Sou um senhor apressado e vou pôr molho de soja com molho inglês". Está louco? Quantos fígados você tem afinal? Lembre-se: você está pondo salgado em cima de salgado. Isso não vai dar certo... Além do mais, você quer substituir o gosto hermético do sachê por outra coisa, e não por seu semelhante. Se for para fazer isso,&amp;nbsp;coloque de uma vez o pó.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que pôr então? Salsicha? Calabresa? Queijo? Eu não faria isso, a não ser que eu queira morrer de câncer. Ora! Molho de tomate. Simples assim. Levemente ácido, brandamente doce, o molho de tomate equilibrará o excesso de sal do macarrão instantâneo. Sanada a dúvida, sem mais a dizer, aconselho, ainda, e aqui debruço-me sobre o balcão da cozinha e chamo para mais perto o meu interlocutor, que lugar de refrigerante é no copo, não na comida.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6075062605177546449?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6075062605177546449/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6075062605177546449&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6075062605177546449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6075062605177546449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/06/inove-o-seu-miojo.html' title='Inove o seu miojo'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8668266567835467457</id><published>2010-05-23T20:50:00.006-03:00</published><updated>2010-05-23T21:15:13.376-03:00</updated><title type='text'>Quando o teflon não mais existir</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pelo desgaste do constante usar, então perceberás que a sua frigideira não era eterna. Parece triste, mas não sou eu que escrevo o roteiro. Se fosse eu o autor, eu certamente não teria posto teflon. Eu faria uma panela absolutamente simples, mas durável. E por&amp;nbsp;durável entenda-se algo que não se consome em alguns anos, mas algo que possa sobreviver tempo suficiente para servir de legado ao museu local. Eles não têm lá algo muito interessante a ser mostrado, de qualquer modo (ainda lembro de uma exposição, de caráter muito duvidoso, que veio apresentar-nos os sapatos de cristal da Cinderela - é, eu acreditei).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu não! Porei teflon, imagine que não!... As facilidades da tecnologia não devem ser descartadas. Pelo contrário, devem ser maximizadas até que possam substituir toda a força animal. Teflon nos bancos dos carros: você dirigirá escorregando, eu diria dançando muito loucamente enquanto aprecia os acidentes, digo, a paisagem. Teflon no chão da cozinha, nos corredores do colégio, nas escadas, no fórum, na prisão: todos dançando loucamente. Dancem! Dancem! Teflon é mesmo uma maravilha, é preciso saber apreciá-lo, seja na fluidez de um hambúrguer deslizando em sua própria gordura, seja na candura de uma lambada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A força animal deve ser eliminada. Não há natureza que possa ser conhecida. Creiam-me, é tudo falácia qualquer coisa que se diga a respeito de uma natureza humana; ninguém sabe o que é isso. Ninguém gosta e&amp;nbsp;nem nunca gostou do trabalho árduo, sofrido e repetitivo. Eu ainda não tive notícias de uma elite baseada no trabalho manual... Dancem! Dancem! Teflon faz bem. Mas ele também será substituído.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;PS: Finaliza-se a presente cena com todos dançando sobre teflon. Eu elejo o fórum, pois acho divertidíssimo,&amp;nbsp;mas pode ser qualquer outro lugar e... Mas, heim! Eu estou ouvindo gente gritar, mas não estou ouvindo gente dan-ça-ar!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8668266567835467457?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8668266567835467457/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8668266567835467457&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8668266567835467457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8668266567835467457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/05/quando-o-teflon-nao-mais-existir.html' title='Quando o teflon não mais existir'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5572153577980975717</id><published>2010-04-20T18:44:00.009-03:00</published><updated>2010-05-03T15:49:52.853-03:00</updated><title type='text'>Odisséia mais-que-noturna</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;[Por favor... Não confundam "tchan-tchan-tchan-tchan" com a derivada e degenerada onomatopéia que designa a apresentação de forma infantil ou jocoso-débil. Estou referindo-me à Sinfonia nº 5 de Beethoven, assim, enérgica e totipotente - para uma idéia mais concreta, ver a marcha nupcial em &lt;em&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=798Gwsyjqqw&amp;amp;feature=related"&gt;Die Klage der Kaiserin&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;, parte 5, minuto 5 e tantos]. Ah, sim, os princípios do periculosismo: maximização do sofrimento; obstaculização do necessário; imperativo do constante perigo e temor. Eis a trindade, eis os pilares que deverão reger sua vida a partir de... agora. Não se assuste, aderir a isso é uma simples questão de sabê-lo. Quando me dei por conta, eu já o vivia e já o fazia como uma das principais razões do meu humor: começou com o fosso incrustado de ossos pontiagudos próximo aos bares, o copo envenenado somente em uma parte das bordas, mais ossos pontiagudos adornando as traseiras e frentes dos carros... Então vi que não conseguia mais parar e procurei ajuda. Hoje, sei que devo, não abster-me, mas minimizar essas práticas compensando-as com insumos quí... Bom, não sei se há necessidade de maiores explicações. Observe que há uma gama quase infinita a ser explorada (ventiladores de teto com lâminas, janelas com guilhotinas, filas de banco entremeadas por campos minados, balcões de informação cravejados intermitentemente de pregos, escadarias móveis ou sacolejantes, etc.). Basta apelar para a dor e à frustração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dúvida que você encontrará outras maneiras de concretizar por meio da imaginação os princípios do periculosismo. Tudo o que queremos é um mundo mais difícil e absurdo, onde qualquer possibilidade seja constantemente obliterada e obscurecida em uma nuvem de perigo, medo e morbidez, burocrática ou não.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5572153577980975717?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5572153577980975717/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5572153577980975717&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5572153577980975717'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5572153577980975717'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/04/odisseia-mais-que-noturna.html' title='Odisséia mais-que-noturna'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-8466658573727737177</id><published>2010-04-15T20:32:00.008-03:00</published><updated>2010-05-03T15:50:46.060-03:00</updated><title type='text'>Tchan-tchan-tchan-tchan</title><content type='html'>&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5460521507680746962" src="http://3.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S8erYVGw_dI/AAAAAAAAAGE/RSuYKi4ZtO0/s400/laerte.jpg" style="cursor: hand; height: 304px; width: 400px;" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É do Laerte, se não for subestimar demais. Agora, deixando essas bobagens de lado, é com muito prazer que venho anunciar o meu mais novo SISTEMä OPERäCIONäL DE MäXIMIZäÇäO DE PERICULOSIDäDE. Depois eu dou mais detalhes. Por enquanto, você precisará tão somente de:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Uma caixa de pregos católicos, do tipo opus dei.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;2. Barbante ruim (não queremos garantir a qualidade).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;3. Lâminas de barbear.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;4. Cola.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;5. Pedra britada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;6.Três pedaços de pau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disponha os objetos referidos de modo a formar três clavas (vou ter que pedir pra usar a imaginação?). Pendure-as com o barbante e cole no teto do seu quarto. Apague a luz. Dance. Amanhã ensinarei a fazer bordas cortantes nas mesas dos bares.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-8466658573727737177?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/8466658573727737177/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=8466658573727737177&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8466658573727737177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/8466658573727737177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/04/tchan-tchan-tchan-tchan.html' title='Tchan-tchan-tchan-tchan'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S8erYVGw_dI/AAAAAAAAAGE/RSuYKi4ZtO0/s72-c/laerte.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-4792851350148339049</id><published>2010-04-06T10:27:00.002-03:00</published><updated>2010-04-06T10:41:34.152-03:00</updated><title type='text'>Aguardando abdução</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Desculpa, mas agora eu só uso Tostines. Já passei da fase Bauduco. Só me satisfazem biscoitos de terceira categoria, de recheio duro e insosso, daqueles que você morde e sente grânulos de açúcar. Não, não estou incentivando o brega ou o cafona. Não, não estou fazendo apologia ao prosaico. É uma maneira diferente de comer Tostines. Envolve a não-sedução, a não-exaltação, o não-envolvimento com algo mais digno de valor. Sim, estou confinando tudo a quatro paredes. Sim, estou convencido de que a abdução nos redimirá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S.: Isso não é um cartão. Eu ainda estou fornecendo-os de graça, ok?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-4792851350148339049?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/4792851350148339049/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=4792851350148339049&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4792851350148339049'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/4792851350148339049'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/04/aguardando-abducao.html' title='Aguardando abdução'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3842943757541774238</id><published>2010-03-31T13:29:00.008-03:00</published><updated>2010-05-03T15:51:04.920-03:00</updated><title type='text'>As aparências não me enganam, não</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Nhac nhac nhac [digitando com os dentes]. Anota aí: "Sou do tipo que preza pela correta distinção entre meteoros, cometas e asteróides". Nhac nhac nhac. "Desculpa, mas eu sei admitir os erros dos outros". Nha nhac nhac. "A nobreza nos redimiu na aparência e na constância dos requintes linguísticos". Nha nhac nhac. "Eu sou um jardim mesopotâmico e não tenho medo de usá-lo para a satisfação de sua lascívia". Nhac nhac nhac. Aham, sinto-me pronto para começar o meu mais novo projeto: confecção de cartões, comemorativos ou não. Preciso aprender algo que me garanta na eventuallidade de eu vir a perder meu cargo público em razão de mudanças de paradigmas ou sei-lá... Agora, resta saber aonde enfiei os lápis-de-cor. Você também se garante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS.: A quem estiver interessado, estarei aceitando encomendas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;PPS.: Por enquanto é grátis.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3842943757541774238?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3842943757541774238/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3842943757541774238&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3842943757541774238'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3842943757541774238'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/03/as-aparencias-nao-me-enganam-nao.html' title='As aparências não me enganam, não'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-5924434111918346008</id><published>2010-03-26T15:42:00.017-03:00</published><updated>2010-05-04T21:46:38.854-03:00</updated><title type='text'>Eles roubaram a minha piada</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para você, geneticamente embutido e predisposto a levar uns bons tapas nas orelhas, finalmente o sabão em pó que combina com o seu jeito de ser! Áspero, inorgânico e extravagantemente perfumado até a náusea. Ops! Deixei cair: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"(...) O resto da população, mantida em situação vulnerável, ignora os benefícios de uma economia baseada no consumo. (...) Ao transformar o sertanejo, o peão, o matuto em consumidores, o consumo se revela um método extremamente eficaz para integrar os excluídos e estender a cidadania a todos os brasileiros. Passado ao largo de discursos grandiloqüentes e damagogias ocas, o advento de uma sociedade de consumo no Brasil funcionaria como atalho econômico para a solução de muitas de nossas mazelas." (Desconhecido).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"O policiamento uniformizado de rua deveria ser permanente - dia e noite -, com viaturas em movimento, fazendo prevenção (para evitar a prática dos crimes), pois não adianta chegar ao local quando os fatos já são irreversíveis, com prejuízos humanos e materiais que só servem para a 'estatística' da insegurança (política e economicamente rentável). (...) É necessária a mudança de mentalidade e formação, preparando o policial uniformizado para fazer o verdadeiro policiamento preventivo: uma viatura, com apenas dois policiais, em baixa velocidade e rastreada pelo centro de controle, com o mapeamento das ruas e o planejamento da prevenção, passando em frente das casas a cada 30 minutos. E mais: não havendo viatura, o policial uniformizado deve cumprir o seu horário a pé, fazendo até seis quilômetros por hora. Portanto, a cada hora, um patrulhamento terá condições de realizar o policiamento preventivo entre seis e dez ruas, passando em frente das casas, no mínimo, a cada hora. A prevenção é possível, se o governo dispuser disso." (MORAES, Bismael B. &lt;em&gt;Estado e segurança diante do Direito&lt;/em&gt;. p. 63.)&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diante dessas exaustivas palavras, calo-me e continuo a vasculhar o lixo. Sem mais delongas, passo o microfone para o Alf. &lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5453027442087983490" src="http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S60LkTQceYI/AAAAAAAAAFs/WFYJDqjXmVY/s400/Alf4president.jpg" style="cursor: hand; display: block; height: 281px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 400px;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-5924434111918346008?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/5924434111918346008/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=5924434111918346008&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5924434111918346008'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/5924434111918346008'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/03/eles-roubaram-minha-piada.html' title='Eles roubaram a minha piada'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S60LkTQceYI/AAAAAAAAAFs/WFYJDqjXmVY/s72-c/Alf4president.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-6884030582851300282</id><published>2010-03-22T22:46:00.004-03:00</published><updated>2010-05-03T15:51:54.965-03:00</updated><title type='text'>Autoridade competente</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;E foi então que eu liguei para a polícia perguntando se, caso fossem a uma ocorrência aqui perto, não podiam aproveitar e trocar a lâmpada do meu quarto. Ora, veja, não é pela escada, a qual utilizo razoavelmente sem muita hesitação, mas tenho medo de levar um choque. E o que eu recebo é uma resposta sarcástica ou tediosa. Pois bem, conforta-me saber que os dias dessa instituição estão contados, da mesma forma como todas as outras instituições burocráticas. Perspicácia, mesmo, é querer estudar para robô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, humanamente falando, prefiro dedicar-me à não tão árdua tarefa de dar audiência à Luciana, de Viver a Vida: a "menina danada" que não tem medo de enfrentar as dificuldades de um cadeirante ao pegar um ônibus. Ou não. Sinto-me em pleno fôlego a rir dos mísseis de longo alcance de tecnologia norte-coreana, quanto das "providências a serem tomadas". Mas, mais ufanamente engraçado ainda, será pôr meu pedido na embocadura de uma cabine e ver, segundos após, a resposta impressa do outro lado; celeridade processual nunca foi tão séria.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-6884030582851300282?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/6884030582851300282/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=6884030582851300282&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6884030582851300282'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/6884030582851300282'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/03/autoridade-competente.html' title='Autoridade competente'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-3434666050872392717</id><published>2010-03-07T13:08:00.012-03:00</published><updated>2010-05-03T15:52:31.635-03:00</updated><title type='text'>Os dias já eram curtos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;E agora estão mais curtos ainda. Wikipédia, digo, Richard Gross, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, avisa: o sismo ocorrido no Chile, neste ano, deslocou em aproximadamente oito centímetros o eixo da Terra, provocando o encurtamento dos dias em cerca de 1,26 microssegundo. A possibilidade disso acontecer parece-me, agora, óbvia, mas sequer cogitava até então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A quantidade de variáveis no Universo é muito maior e mais bela do que poderia fazer-nos supor nossas apostilas de ensino médio. Neste momento, nosso pólo norte físico está apontado em direção à Estrela Polar (não me façam explicar o nome). Entretanto, devido à precessão dos equinócios, movimento que o eixo terrestre executa, fazendo com que o pólo percorra um círculo através da abóbada celeste, no ano de 13.727 estará apontando para Vega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, você não ouviu errado. Salve-salve, Vega, uma das estrelas mais próximas de nosso sistema! Maior e mais brilhante que o Sol, consome rapidamente seu hidrogênio, de modo que morrerá relativamente cedo. A possibilidade de conter planetas rochosos ainda é uma vaga especulação; a hipótese mais recalcada aponta para um sistema de planetas em formação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os babilônios chamavam-na de "the Messenger of Light", os acádios de "Life of Heaven" (desculpe, não me atrevi a traduzir; poderia perder o sentido). É também o nome de um carro. Não é enternecedor? No livro e filme "Contato", é em suas imediações que uma radioastrônoma consegue captar mensagens alienígenas de uma civilização incomparavelmente mais avançada.&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S5PrPbuwnpI/AAAAAAAAAEc/rPSooqKvRHY/s1600-h/Vega_Bill_Eyler_localizated.JPG"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5445955024795508370" src="http://3.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S5PrPbuwnpI/AAAAAAAAAEc/rPSooqKvRHY/s400/Vega_Bill_Eyler_localizated.JPG" style="cursor: hand; height: 267px; width: 400px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Supondo que você esteja no hemisfério norte, olhando para o leste, Vega estará nesta posição ao amanhecer, bem cedinho (eu fiz uma flechinha no paint, mas não deu muito certo por razões misteriosas). Segui as instruções do autor da foto, penso que estou certo. Contemplem a nossa futura estrela polar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Sim, isso parece programa de índio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;PPS: Sim, eu me desviei do assunto com uma facilidade vertiginosa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;PPPS: Sim, eu não tinha foto melhor para pôr. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;PPPPS: E não, não estou contente com a estética criada, devido à irritante proximidade entre as duas imagens.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-3434666050872392717?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/3434666050872392717/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=3434666050872392717&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3434666050872392717'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/3434666050872392717'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/03/os-dias-ja-eram-curtos.html' title='Os dias já eram curtos'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S5PrPbuwnpI/AAAAAAAAAEc/rPSooqKvRHY/s72-c/Vega_Bill_Eyler_localizated.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-922404899087182689</id><published>2010-02-08T20:27:00.016-02:00</published><updated>2010-05-03T15:54:56.245-03:00</updated><title type='text'>Construa seu buraco de minhoca</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Manter um buraco de minhoca já existente aberto não é o mesmo que fazer com que ele o leve para onde você quiser. A solução é criar o seu próprio buraco de minhoca. Depois de fazer a cavidade no espaço, curve suavemente esse espaço, até que o lugar aonde você quer ir, o seu ponto de chegada, fique próximo da base da cavidade. Então faça um pequeno furo nessa base, e outro perto de seu ponto de chegada. Cole as pontas dos buracos uma na outra. Você acaba de construir seu próprio buraco de minhoca, e pode viajar livremente pelo Universo."(&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;COUPER, Heather&lt;/span&gt;; HENBEST, Nigel. Buracos Negros: uma viagem ao centro de um buraco negro - um dos maiores mistérios do Universo. p. 30). &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S3CVH7ouTZI/AAAAAAAAAEM/IKxTudwa7D4/s1600-h/Teletransporte.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5436008713736310162" src="http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S3CVH7ouTZI/AAAAAAAAAEM/IKxTudwa7D4/s400/Teletransporte.jpg" style="cursor: pointer; height: 327px; width: 400px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Você também vai precisar de matéria antigravitacional para untar as paredes do buraco-negro. Isso será necessário para que ele não se feche sobre si mesmo e você não tenha que morrer como espaguete. No livro eles falam como uma alternativa para chegar-se instantaneamente à Lua; eu penso em algo mais longe... "Mas, caso o espaço não seja curvo?..." Eu direi que então provavelmente você atingirá um universo paralelo, ou algo do tipo. Mas , meu caro, não foi com essa atitude que o R2-D2 salvou a rainha, não? Ou o Hary Potter, a seu critério. Agrsora que vose jah aperndeu vamos faser um cade meu gerador de enrnegia antigarvitacional?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS.: Tá bom! Eu devolvo seu livro, ora!&lt;br /&gt;PPS.: Sim, eu vou querer um desses macacões cáquis.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-922404899087182689?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/922404899087182689/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=922404899087182689&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/922404899087182689'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/922404899087182689'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/02/construa-seu-buraco-de-minhoca.html' title='Construa seu buraco de minhoca'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S3CVH7ouTZI/AAAAAAAAAEM/IKxTudwa7D4/s72-c/Teletransporte.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-1185263122906601046</id><published>2010-01-24T22:48:00.010-02:00</published><updated>2010-05-03T15:55:40.359-03:00</updated><title type='text'>Pandora, Lua de Saturno</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S1z08B1W8TI/AAAAAAAAAEE/6bWbTRNeTN4/s1600-h/pandora_cassini_big.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5430484562823541042" src="http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S1z08B1W8TI/AAAAAAAAAEE/6bWbTRNeTN4/s400/pandora_cassini_big.jpg" style="cursor: hand; height: 269px; width: 400px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sim, eu me emocionei com filme em 3D. Sim, eu me deleitei com a idéia do filme (veja bem, com a idéia, não com a história). Sim, eu senti ódio pelo coronel Quaritch e aplaudi a Dra. Grace Augustine. Eu ri, eu chorei, não escondo isso. Mas bem, isso não me impede de imaginar um final alternativo para &lt;em&gt;Avatar&lt;/em&gt;. Afinal, exército tecnológico ser derrotado pela fauna de Pandora não cola, não é mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;E, então, a licença da mineradora terminara, e são obrigados a paralisar suas atividades. Fim&lt;/em&gt;."&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Aplausos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também vou traçar um início diferente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- É descoberta a Lua de Pandora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- A empresa RDA obtém licença para explorar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- A empresa põe na gerência do que seria uma das maiores empreitadas da Humanidade um administrador competente e com QI normal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- A empresa rejeita o Coronel Quaritch por distúrbios psicológicos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- A empresa resolve empregar técnicas mais modernas de exploração do que as antiquadas formas outrora responsáveis pela degradação da Terra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O governo diz incabível e desautoriza qualquer tipo de ocupação militar por parte da empresa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O governo (muitos manifestos, mas muitos mesmo) volta atrás e decide que mundos alienígenas são muito importantes para serem explorados por particulares.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Apenas cientistas altamente capacitados e devidamente no uso de suas razões são enviados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voilà! Uma história coerente e interessante sem passar necessariamente pelos clichês. Finalmente pode-se apreciar a emoção de se visitar um mundo alienígena habitado sem os recorrentes e inócuos draminhas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8371761379214214759-1185263122906601046?l=rodaelegante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rodaelegante.blogspot.com/feeds/1185263122906601046/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8371761379214214759&amp;postID=1185263122906601046&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1185263122906601046'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8371761379214214759/posts/default/1185263122906601046'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rodaelegante.blogspot.com/2010/01/pandora-lua-de-satunro.html' title='Pandora, Lua de Saturno'/><author><name>Murilo Munoz</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16914209932661960639</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-Fw6zWe7f4GI/Tx3loWnnVXI/AAAAAAAAAko/N4JTh6a32wY/s220/knat.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_Jd-fN_RIozM/S1z08B1W8TI/AAAAAAAAAEE/6bWbTRNeTN4/s72-c/pandora_cassini_big.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8371761379214214759.post-2068141425904103178</id><published>2010-01-15T13:06:00.010-02:00</published><updated>2010-05-03T15:56:07.510-03:00</updated><title type='text'>Os psicólogos que o digam</title><content type='html'>&lt;div align=
